Por Danieleh Coutinho / ES HOJE / Foto: Divulgação / Arte: IA
O cenário político para a disputa ao Senado no Espírito Santo desenha um clássico embate entre a realpolitik institucional e a pureza ideológica dentro do campo da esquerda capixaba. Com o eleitorado tendo direito a dois votos para o cargo majoritário nas eleições, o Partido dos Trabalhadores (PT) se encontra no centro de um dilema estratégico que pode definir a sobrevivência de sua principal liderança no Estado: o senador Fabiano Contarato.
Enquanto a executiva e parte da militância defendem o pragmatismo da aliança nacional para garantir votos ao centro, alas mais à esquerda tensionam o debate, impulsionadas por duras críticas do PSOL contra o atual governo.
O Projeto ‘FaCa’: A lógica pragmática do voto casado

A ala majoritária do PT capixaba enxerga na dobradinha entre Fabiano Contarato e Renato Casagrande (PSB) — batizada nos bastidores de projeto “FaCa” — a rota mais segura para o sucesso nas urnas. O argumento central baseia-se no espelhamento da aliança nacional que reelegeu o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao lado do vice Geraldo Alckmin (PSB).
A ala majoritária do PT capixaba enxerga na dobradinha entre Fabiano Contarato e Renato Casagrande (PSB) — batizada nos bastidores de projeto “FaCa” — a rota mais segura para o sucesso nas urnas. O argumento central baseia-se no espelhamento da aliança nacional que reelegeu o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao lado do vice Geraldo Alckmin (PSB).
Para os defensores dessa tese, o foco prioritário deve ser o pragmatismo eleitoral para derrotar o avanço da extrema-direita no estado, ainda que isso signifique concessões programáticas locais.
O Projeto ‘FaFa’: Resistência ideológica e o discurso da ‘Senzala’
Do outro lado do espectro progressista, a pré-candidatura do Professor Fabian (PSOL) ao Senado acendeu o debate ético e ideológico. Embora o PSOL já tenha anunciado apoio formal à chapa majoritária do PT — endossando Helder Salomão para o governo e o próprio Contarato para o Senado —, a composição do segundo voto divide opiniões.
Entre os petistas, não há rejeição ao nome de Fabian, mas existe um cálculo matemático frio. “O eleitor do PSOL já vota em Contarato por afinidade natural. O voto ‘FaFa’ (Fabiano + Fabian) não traz eleitores novos de fora da nossa bolha. Precisamos de uma estratégia de expansão”, pondera a mesma fonte governista.

Professor Fabian lançou pré-candidatura
Essa visão de conveniência eleitoral, contudo, é duramente rebatida pela esquerda ideológica. No último sábado (20), durante o lançamento oficial de sua pré-candidatura, o Professor Fabian subiu o tom contra o atual governador e utilizou termos históricos fortes para rechaçar qualquer aproximação com o Palácio Anchieta:
“Presta atenção no artigo: a Casa-Grande. Ou tu é da senzala e defende a senzala, ou você defende a Casa-Grande. Não tem outra escolha”, discursou Fabian.
O pré-candidato do PSOL criticou as incursões policiais em comunidades periféricas, citando o Morro do Quadro, e atacou o que chamou de “modelo empresarial de educação”, que, segundo ele, massacra a categoria e esvazia debates sobre racismo e homofobia. “Quem pede para vocês votarem na Casa-Grande defende o povo branco, os escravocratas e a elite desse país”, disparou.
O Fator Ricardo Ferraço e o cerco do Centro
A janela de negociações afunilou ainda mais o tabuleiro após os movimentos do último fim de semana. O União Brasil anunciou apoio formal à chapa de Casagrande e à reeleição da emedebista Rose de Freitas para o Senado. Os partidos de centro marcham juntos com o atual vice-governador Ricardo Ferraço (MDB) como candidato à sucessão estadual.
Essa movimentação cria um cenário de isolamento para a federação PT-PCdoB-PV se o partido optar por fechar as portas ao diálogo com Casagrande. Se o eleitor do atual governador consolidar o voto casado com Rose de Freitas ou com nomes alinhados ao espectro da direita, o teto de Contarato pode ficar restrito aos votos da militância progressista tradicional — um risco que o comando do PT não parece disposto a correr.
O dilema do PT no Espírito Santo sintetiza o eterno impasse das legendas de esquerda em estados de perfil conservador: expandir as fronteiras ideológicas rumo ao centro em busca da vitória eleitoral ou preservar a identidade e o programa das bases periféricas ao custo do isolamento político.