Por Vitor Vogas / SIM NOTÍCIAS / Foto-legenda: Victor Coelho e Theodorico Ferraço
Em post, Victor Coelho chama seu sucessor de “coronel” e o conclama a “começar a governar a cidade”, escancarando racha entre aliados de Ricardo e Casagrande em Cachoeiro
“Este vídeo não é um afrontamento, muito menos um enfrentamento. É apenas uma forma de me defender dos muitos ataques que vou sofrer neste período eleitoral.” Assim o ex-prefeito Victor Coelho (PSB) inicia seu discurso em um vídeo publicado por ele na manhã desta segunda-feira (4), o qual, se “não é um enfrentamento”, é quase uma declaração de guerra política a seu sucessor e atual prefeito de Cachoeiro de Itapemirim, Theodorico Ferraço (PP).
Victor chega a comparar Ferração a um “coronel” e conclama seu sucessor a “começar a governar a cidade”, como, segundo ele, espera a população.
O post de Victor no Instagram pode ser dividido em duas partes. Na primeira, o ex-prefeito, que governou Cachoeiro por dois mandatos, de 2017 a 2024, expressa respeito à história e ao tamanho político de Ferraço, mas diz que “não tem medo dele” e que está “perdendo a admiração por ele”.
Isso porque, segundo Victor, desde que ele mesmo ainda governava Cachoeiro, Ferraço viria sistematicamente provocando órgãos como o Tribunal de Contas do Estado (TCES) e o Ministério Público Estadual (MPES) para apresentar denúncias infundadas contra ele, visando enfraquecê-lo politicamente.
“Ferraço é um político por quem tenho profundo respeito, mas que não tenho medo. É um mito, e a grande maioria dos cachoeirenses e dos capixabas concordam com isso. É um homem que fez muito pela nossa cidade e pelo Espírito Santo. Considerado o prefeito do século 20, tem cerca de 15 mandatos ininterruptos. Isso é realmente incrível. Talvez seja o único político vivo com esse feito no Brasil. Mas, pessoal, toda essa admiração vem caindo por terra”, afirma Victor no vídeo postado, que aposta numa estética sombria: o ex-prefeito usa uma camiseta preta, em frente a um fundo escuro.
Segundo Victor Coelho, Ferração viria trabalhando a fim de impedir seu crescimento político, postura que teria se intensificado depois que o pai de Ricardo Ferraço voltou à prefeitura, no ano passado, para iniciar o cumprimento do seu quinto mandato no cargo.
“Eu sempre ouvi histórias de que Ferraço é aquele político coronel que não deixa nenhuma nova liderança crescer. E eu tenho vivido isso pessoalmente pelo menos nos últimos cinco anos. E durante todo esse tempo, eu permaneci em silêncio, respeitando a sua história.”
O ex-prefeito relata que, em 2021, em seu último mandato de deputado estadual, Ferraço abriu um processo contra ele no TCES e no MPES, alegando corrupção em sua gestão na Prefeitura de Cachoeiro.
“Resultado: todos os processos foram arquivados. […] Não tenho nenhuma ação de improbidade. Não sabia que ser um político honesto poderia incomodar tanto. Qualquer denúncia que o prefeito levantar contra mim, eu vou me defender como sempre fiz: de cabeça erguida e sem nada a temer.”
Victor chama a atenção do público para matérias publicadas em sites (principalmente da região sul), que circulam em redes sociais e grupos de Whatsapp, dando conta de que uma “auditoria da CGU em Cachoeiro pode desencadear investigação federal sobre obra do Parque de Exposições por suspeita de fraude”. A Controladoria Geral da União, de acordo com tais publicações, teria sido acionada pela própria Prefeitura de Cachoeiro.
“Eu sei que é uma luta de Davi contra Golias, mas disso eu não abro mão. Meu nome é a única coisa que eu vou levar comigo nesta vida, então eu vou defender minha honra até o fim. Vou responder cada denúncia que o prefeito e seus secretários têm levantado contra mim.”
A segunda parte: críticas à saúde pública de Cachoeiro
Já na segunda parte, Victor desfia uma série de críticas à atual administração, especificamente relacionadas à gestão da rede de saúde pública municipal.
“Para encerrar, deixo um pedido público ao prefeito Ferraço: direcione seu olhar para o povo. Tem muita gente sofrendo, prefeito, principalmente na área da saúde, enfrentando longas filas para conseguir um exame básico, com falta de atendimento digno nas UPAs. Nem ar-condicionado funciona direito. Tá faltando medicamento básico, prefeito. Tem servidor comprando material do próprio bolso. A população colocou suas esperanças naquele Ferraço de 40 anos atrás e está esperando ele começar a governar de verdade.”
Em conversa com o colunista, a assessoria de comunicação da Prefeitura de Cachoeiro repudiou as alegações de Victor relativas à saúde como “mentirosas”. A assessoria também disse que não comentaria as declarações do ex-prefeito sobre Ferraço. Disse, ainda, que a atual gestão não entende por que o ex-prefeito está agindo assim e por que está se antecipando a denúncias que a prefeitura não fez nem pretende fazer.
Análise: racha escancarado entre aliados de Ricardo e Casagrande no sul
“[Este vídeo] é apenas uma forma de me defender dos muitos ataques que vou sofrer neste período eleitoral”, justifica Victor Coelho, logo no começo do vídeo. Se “a melhor defesa é o ataque”, a iniciativa do ex-prefeito pode ser entendida como um “ataque preventivo” contra ataques futuros, ou contra novos ataques no futuro (que ele ainda não sofreu, mas espera sofrer do grupo político de Ferração).
No entanto, o que mais chama a atenção é o fato de que os dois envolvidos na contenda, adversários no âmbito local, fazem parte do mesmo exército político quando se expande o foco para a geopolítica estadual. Tanto Victor Coelho como Theodorico Ferraço militam na tropa liderada pelo governador Ricardo Ferraço (MDB) – pré-candidato à reeleição – e pelo ex-governador Renato Casagrande (PSB) – pré-candidato ao Senado.
Victor é aliado e correligionário de Casagrande no PSB. Além disso, é aliado e apoiador de Ricardo Ferraço.
Ferração também é aliado de Casagrande, e sua relação com Ricardo dispensa comentários: é “só” o pai do governador.
Esse choque público entre Victor e Ferração, possivelmente os dois maiores aliados de Ricardo no sul do Estado, expõe falta de unidade nesse regimento da tropa. No limite, se a situação se aprofundar, poderá até ser explorada por opositores para fragilizar a campanha do governador à reeleição na região.
Sobre esse ponto específico, questionamos Victor Coelho, mas ele respondeu que não faria mais nenhum comentário além do que declarou no vídeo.
Pré-candidatura e concorrência
Após ter cogitado se lançar a deputado federal, Victor Coelho decidiu ser candidato a deputado estadual. É o cargo que ele vai pleitear.
No município de Cachoeiro e arredores, há pelo menos três candidatos a deputado estadual que fazem parte do grupo político de Ferração: a esposa dele e ex-deputada federal Norma Ayub (PP), o deputado estadual Allan Ferreira (Podemos) e o vereador Vandinho da Padaria (PSDB).



