Por Henrique Sávio Rezende, Despachante Aduaneiro Federal e Bacharel em Direito / Foto: Arquivo pessoal
A Reforma Tributária vem sendo apresentada como um avanço histórico. Simplificação de impostos, fim da guerra fiscal, modernização do sistema. No discurso, eficiência.
Mas fora da narrativa oficial, a realidade é mais complexa. Alguns estados sentirão os efeitos da transição de maneira muito mais intensa.
E o Espírito Santo está entre eles.
Durante décadas, o Espírito Santo construiu uma estratégia econômica clara: transformar sua vocação logística e portuária em motor de desenvolvimento. Incentivos fiscais, segurança jurídica e agilidade operacional consolidaram o estado como polo de importação e distribuição.
Não foi privilégio. Foi política pública.
Com a mudança da tributação da origem para o destino e o fim progressivo dos incentivos fiscais, essa base competitiva entra em revisão. Estados com grandes mercados consumidores internos tendem a absorver melhor o novo modelo. Já estados com perfil logístico e redistribuidor precisarão reinventar sua estratégia.
É aqui que surge o debate sobre o Fundo de Desenvolvimento Regional.
O fundo foi concebido como instrumento de compensação e equilíbrio federativo. Em tese, ajudará estados que perderão competitividade tributária a financiar novos projetos estruturantes.
Mas a pergunta é inevitável:
O fundo será suficiente?
Será previsível?
Será permanente?
Ou será condicionado a negociações políticas em Brasília?
Transformar um modelo estruturado ao longo de décadas em dependência de transferências federais não parece estratégia de longo prazo. Fundos podem auxiliar na transição, mas não substituem uma base econômica sólida e autossustentável.
Enquanto isso, o debate nacional permanece capturado pela guerra ideológica. A polarização entre esquerda e direita ocupa espaço, consome energia e desloca o foco das questões estruturais.
Estados menores, com menor peso parlamentar, precisam redobrar articulação. O Espírito Santo possui uma das menores bancadas na Câmara dos Deputados. Em um ambiente político fragmentado, quem não atua de forma coordenada corre o risco de perder espaço.
E há um elemento ainda mais preocupante: a sociedade praticamente não participa desse debate.
A Reforma Tributária parece distante do cotidiano. Mas seus efeitos não serão. Se empresas reavaliarem sua permanência no estado, o impacto será direto:
• Empregos pressionados
• Arrecadação reduzida
• Investimentos retraídos
• Serviços públicos comprometidos
Desenvolvimento econômico não é discurso técnico. É renda, é trabalho, é estabilidade social.
A nova legislatura federal tem responsabilidade histórica. A bancada capixaba precisa atuar de forma unificada, estratégica e madura. Não como extensão de disputas ideológicas nacionais, mas como defensora dos interesses permanentes do estado.
Ao Governo Estadual cabe liderar a transição com planejamento, apresentando alternativas claras: fortalecimento logístico, atração de indústrias com maior valor agregado, simplificação regulatória e segurança jurídica.
O momento exige articulação.
Exige presença.
Exige estratégia.
O que não pode acontecer é o Espírito Santo trocar competitividade por dependência.
A pergunta que fica é direta: Vamos construir um novo ciclo de desenvolvimento com protagonismo próprio?
Ou vamos viver com o pires nas mãos em Brasília, aguardando repasses e decisões que não controlamos?
O futuro do estado não será definido apenas pela reforma. Será definido pela nossa capacidade — ou incapacidade — de reagir a ela.
O FUTURO É HOJE .