Por Vitor Vogas / SIM NOTÍCIAS / Foto-legenda: Magno Malta e Lorenzo Pazolini / Crédito: Divulgação
Após acenos aqui e ali, ex-prefeito, tão logo deixou o cargo, deu declaração mais assertiva no sentido de que deseja tal aliança. Aliado dele foi ainda mais categórico. Mas tudo depende de um homem.
Lorenzo Pazolini (LP) e Partido Liberal (PL). O que os dois têm em comum além das mesmas iniciais, invertidas? Em primeiro lugar, ambos estão posicionados do lado direito do espectro ideológico, embora em pontos distintos (o PL na extrema direita, à direita de Pazolini).
Em segundo lugar, existe a possibilidade, ainda não concreta, mas buscada pelo grupo de Pazolini, de o ex-prefeito de Vitória vir a ter o apoio do PL em sua campanha a governador do Espírito Santo, com o partido do ex-presidente Jair Bolsonaro unido ao Republicanos de Pazolini numa mesma coligação majoritária.
Mas tudo depende fundamentalmente de um homem: o senador Magno Malta. E é preciso ser bem específico aqui: quando falamos de “um homem”, é literalmente de um homem, não de um comitê, uma comissão eleitoral, um órgão diretivo, uma Executiva Estadual… No PL do Espírito Santo, há muitos anos, as decisões são concentradas na pessoa de Magno Malta.
Determinado a eleger sua filha Maguinha Malta senadora pelo Espírito Santo, Magno precisa ser pessoalmente convencido de que o melhor para seus interesses eleitorais e os do PL é apoiar Pazolini para o Governo do Estado. Voltaremos ao senador mais à frente.
Mas é fato que o Republicanos deseja essa parceria, já no 1º turno. Mais precisamente: o próprio Pazolini deu a ver que ele também assim deseja.
Em sua última entrevista coletiva – a primeira na condição de “ex-prefeito de Vitória” –, o pré-candidato do Republicanos falou, de maneira ineditamente mais aberta, sobre a própria pré-candidatura ao Palácio Anchieta. Respondendo a uma pergunta nossa, disse haver um “clamor popular no Espírito Santo” por isso.
Mas Pazolini disse algo ainda mais importante, nessa entrevista concedida no último dia 6, logo após a cerimônia de posse de sua sucessora, Cris Samorini (PP). Questionado por nós se acredita ser possível uma aliança eleitoral, no Estado, com o partido de Flávio e Jair Bolsonaro, o pré-candidato do Republicanos afirmou pela primeira vez, de maneira objetiva, que eles “vão fazer o convencimento”:
O nosso papel é o de conversar, dialogar. É isso que nós temos feito. Por isso é que eu falei que não existe candidatura de uma pessoa só. É uma construção. E nós vamos tentar, vamos fazer o convencimento, vamos mostrar os resultados que nós temos, vamos ouvir, vamos trazer. […] Nosso objetivo é esse.”
Oito dias depois, no mesmo local – o plenário da Câmara de Vitória –, um dos principais aliados e apoiadores de Pazolini, ninguém menos que o presidente da Câmara, Anderson Goggi (também do Republicanos), foi ainda mais categórico. Da tribuna, conclamou as forças de direita, incluindo as de extrema direita (leia-se o PL), a se unirem no Espírito Santo para ajudarem a eleger Pazolini governador do Estado e Maguinha Malta senadora.
“Fica aqui a nossa linha de raciocínio. Se nós nos unirmos, nós teremos bons deputados federais, bons senadores, bom presidente da República, bom governador… mas tem que ter a união. Não adianta o PL chegar aqui nesta Casa e achar que vai eleger uma senadora sozinha, só com o apoio do PL, porque não vai. O PL precisa da ajuda do pessoal da direita, do pessoal do centro”, exortou Goggi, rasgando o verbo, no dia 14 de abril. E completou com o trecho-chave:
Então não adianta o PL achar que vai eleger a Maguinha sem o apoio do Republicanos. Com isso, nós estamos dividindo. Como nós também precisamos da ajuda da direita, da extrema direita, para poder eleger Pazolini governador.”
Contexto: eleições de 2024 afastaram
No meio político capixaba, todo mundo sabe: o principal articulador de Pazolini responde por Erick Musso, presidente estadual do Republicanos. Pazolini até participa pessoalmente, quando necessário, mas em geral o departamento “articulação política” fica delegado ao ex-presidente da Assembleia Legislativa do Espírito Santo (Ales), procurador dos interesses políticos do ex-prefeito.
Desde princípios do ano passado, Erick tem se empenhado, se empenhado muito, para (re)estreitar as relações políticas com Magno Malta de um modo que possa culminar com uma aliança eleitoral no próximo mês de agosto.
O sonho de Erick é e sempre foi entrar nessa campanha com uma grande frente de direita erguida ao redor de Pazolini, incluindo o PL de Magno e a Federação União Progressista (embora esta última já tenha anunciado apoio ao governador Ricardo Ferraço, no último mês de março).
Não tem sido fácil. É um trabalho de reconstrução de pontes entre Republicanos e PL, praticamente destruídas durante as eleições municipais de 2024.
Naquele pleito, convencido de que o PL tinha de lançar candidatos próprios no maior número de cidades capixabas e que tinha condições de eleger sozinho um bom número de prefeitos, Magno adotou (e impôs ao próprio partido) uma postura isolacionista.
O senador, então, proibiu os diretórios municipais do PL de se coligarem com partidos não classificados por ele como “verdadeira direita”, incluindo o Republicanos. Em entrevistas e discursos, criticou a “falsa direita”.
Na eleição em Vitória, o candidato do PL a prefeito, Capitão Assumção, fez ataques a Pazolini na mesma linha, chamando-o de “falso representante da direita” devido à falta de posicionamentos públicos do então prefeito de Vitória em defesa de Jair Bolsonaro.
Como presidente estadual do Republicanos, Erick Musso bateu de frente publicamente com Magno. Em entrevista à coluna, no meio daquele processo, disse que o senador agia como “dono da direita” e o criticou por não se abrir ao diálogo.
Tendo lançado mais de 50 candidatos a prefeito nos 78 municípios capixabas, o PL só elegeu cinco – todos em cidades pequenas. Seus candidatos foram mal votados nas maiores cidades. O Republicanos reelegeu Pazolini e fez outros prefeitos pelo Estado.
Passado o pleito municipal, todos lamberam suas feridas e, já no início do ano passado, Magno e Erick Musso reabriram o diálogo político. Mas isso jamais resultou em gestos públicos mais concretos de aproximação entre as partes.
O PL jamais quis entrar na administração de Pazolini em Vitória. Para assumir o cargo de secretário municipal de Meio Ambiente, o Coronel Alexandre Ramalho trocou o PL pelo Republicanos, em março do ano passado.
Houve, sim, alguns gestos por parte de Pazolini, mas muito tímidos. No primeiro semestre de 2025, o então prefeito chegou a fazer um post defendendo a anistia aos condenados pelo 8 de janeiro e por atos atentatórios contra a democracia brasileira. Implicitamente, criticou o STF.
Em julho de 2025, ele, Erick, Magno e Maguinha percorreram juntos uma feira agropecuária no pequeno município de São Gabriel da Palha. Foi a única aparição pública feita por eles até hoje. O approach não foi além daquilo.
Novo momento
Agora, porém, o momento é outro. As eleições nacionais e estaduais batem à porta. A pré-candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência da República vingou, e todas as pesquisas eleitorais projetam mais uma eleição presidencial duríssima, decidida por pequena margem, desta vez entre o presidente Lula (PT) e o primogênito de Jair Bolsonaro, preso desde novembro de 2025.
Por falar em Flávio, em fevereiro deste ano, vazaram as anotações do presidenciável do PL sobre os planos eleitorais para cada estado. Nos rabiscos sobre o Espírito Santo, o nome de Pazolini para governador. Para o Senado, Evair de Melo e Maguinha, com um adendo: “conversar com Magno”.
Isso avivou as especulações sobre possível coligação local com o Republicanos, replicando a coligação que é certa entre as duas siglas na corrida ao Planalto.
Já em meados de março, no mais eloquente aceno até agora ao PL e ao bolsonarismo, Pazolini chegou a orar pelo restabelecimento da saúde do ex-presidente da República e, ao fazê-lo, fez questão de chamá-lo de “nosso presidente Bolsonaro”. O prefeito chegou a se ajoelhar dentro do próprio gabinete, tendo ao lado o vereador Davi Esmael (Republicanos).
Agora, após a renúncia de Pazolini, veio a declaração dele (acima), seguida pelo discurso de Anderson Goggi. Não restam dúvidas, portanto, de que o Republicanos quer a aliança.
É preciso combinar com Magno e convencer o senador.
Será preciso contemplar Maguinha
Para isso, é claro, a primeira e mais óbvia condição do PL de Magno é lugar de destaque para a candidatura de Maguinha a senadora na coligação e apoio de Pazolini a ela, por reciprocidade. É mais ou menos o que propôs Anderson Goggi.
Neste caso, aliados de Pazolini terão de ceder. Hoje, concretamente mesmo, a coligação do ex-prefeito de Vitória tem o Republicanos e o Partido Social Democrático (PSD). Só nessas duas legendas, há quatro potenciais candidatos ao Senado (para apenas duas vagas): Manato e Evair de Melo pelo Republicanos; Sergio Meneguelli e Paulo Hartung pelo PSD.
Para albergar Maguinha, só um dos quatro citados acima poderá ser candidato a senador.
O “sincericídio” de Goggi
Anderson Goggi, em seu pronunciamento, cometeu uma gafe política – algo como um “sincericídio”. De maneira implícita, chamou o PL de “extrema direita”. Errado ele não está, muito pelo contrário.
“Extrema direita” é precisamente a melhor definição para o bolsonarismo e, consequentemente, para o PL, atual incubadora do sistema de pensamento representado pelo bolsonarismo.
Desde os primeiros mandatos de deputado federal, Jair Bolsonaro sempre foi um representante da extrema direita brasileira – por conseguinte, também Flávio, embora venha buscando se apresentar, na corrida presidencial, como alguém mais moderado que o pai.
A sinonímia entre Bolsonaro e extrema direita é tão óbvia – está aí, para prová-la, o longo histórico de declarações do próprio, dos anos 1990 até hoje –, mas às vezes é preciso vir a público alguém, num aparente descuido, para sublinhar o óbvio, como fez Anderson Goggi.
A questão é que o próprio PL e apoiadores do ex-presidente não se consideram de “extrema direita” e evitam essa classificação. Preferem-se definir como “direita”, aliás, como “a direita” – ou, como diria Magno Malta, como “a verdadeira direita”.
São os mesmos que apoiam e defendem cada ato de Donald Trump (inclusive contra os interesses nacionais), o maior expoente da extrema direita mundial atualmente.
Uma ressalva: mistura entre Estado e Igreja
A mencionada oração de Pazolini foi feita durante uma pequena cerimônia de cunho religioso (cristã evangélica) realizada dentro do próprio gabinete do então prefeito, dentro da sede da Prefeitura de Vitória.
A prática foi regular durante a administração de Pazolini e também é mantida por outros prefeitos, como Wanderson Bueno em Viana e Euclério Sampaio em Cariacica. Mas é indevida e não cabe em plena sede do Poder Executivo, por evidente confusão das fronteiras entre Estado e Igreja e flagrante não observância da laicidade do Estado, princípio basilar da República, protegido pela Constituição.
A ver se Cris Samorini (PP) a manterá.



