Por Letícia Gonçalves / A GAZETA / Fot-legenda: Paulo Hartung, quando era governador do Espírito Santo / Crédito: Leonardo Duarte (Secom) / Arte: IA
A palavra “saída” está entre aspas porque o ex-governador nunca entrou, de fato, na disputa. Apenas deixou claro, agora, que não vai mesmo ser candidato. A incógnita paira sobre o PSD.
O ex-governador Paulo Hartung (PSD) nunca disse que seria candidato ao governo do Espírito Santo e tampouco ao Senado. Apenas deixou a dúvida no ar por bastante tempo. Tempo suficiente para se desconfiar que ele não seria mesmo candidato a nada. Assim, o tabuleiro político capixaba não chegou a sofrer um baque com o anúncio de que o nome de Hartung não vai aparecer nas urnas em 2026.
A maioria das lideranças já está devidamente assentada em um palanque ou outro na corrida pelo Palácio Anchieta e o novo fato não muda suas respectivas posições.
A principal indefinição paira, justamente, sobre o partido do ex-governador. Já registrei na coluna que o PSD vive uma sinuca de bico, sem ter muito onde se encaixar.
Chegou a declarar apoio ao ex-prefeito de Vitória Lorenzo Pazolini (Republicanos). Depois que Pazolini abraçou o PL do senador Magno Malta, deixando a sigla de Hartung de escanteio, o PSD passou a flertar com o governador Ricardo Ferraço (MDB).
Tudo isso sem nunca deixar de usar o nome de Hartung como salvaguarda.
O presidente estadual do PSD, o prefeito de Colatina Renzo Vasconcelos, afirmou e repetiu que a possibilidade de lançar candidatura própria ao governo não estava descartada. Na prática, era uma forma até de pressionar pretensos aliados, como quem diz: “Olha, é melhor vocês se juntarem a nós do que terem Hartung como adversário”.
Pouca gente, porém, acreditou que essa fosse uma opção “para valer”. Não porque Hartung não tivesse chances nas urnas. Pelo contrário, pesquisa Quaest publicada em julho mostrou que o ex-governador era competitivo, estava tecnicamente empatado em primeiro lugar com Ricardo e Pazolini. E olha que nem fez pré-campanha, como os demais.
Mas, a esta altura do campeonato, o jogo já está rolando. O PSD, se colocasse o time em campo, iria sozinho, isolado, em uma conjuntura institucionalmente e pragmaticamente desfavorável.
E sem resultado garantido. A candidatura de Hartung seria competitiva, como já frisei aqui, mas sem clima de “já ganhou”.
É interessante notar que, mesmo após a nota do ex-governador dizendo que vai se dedicar à “militância cidadã”, Renzo Vasconcelos não deixou de usá-lo como ativo político.
“Ele deixa a entender que pode ser tudo ou nada. Está lá na nota que ele tanto pode ser candidato como pode não ser”, afirmou o prefeito ao colunista Vitor Vogas.
A nota de Hartung é até um tanto dúbia, mas a própria assessoria de imprensa do ex-governador frisou que a dedicação à “militância cidadã” significa que ele não vai participar da corrida eleitoral.
Se antes Renzo se agarrava a uma possibilidade em que poucos acreditavam, agora contradiz um dado da realidade.
“O PSD é o fiel da balança nestas eleições estaduais. Vai decidir as coisas para um lado ou para o outro. E vamos trabalhar internamente, da melhor maneira, pelo crescimento do partido”, completou o presidente estadual da sigla.
Apesar do otimismo, a verdade é que o partido não está nas melhores condições para negociar.
O PSD tem grande envergadura nacionalmente, mas no Espírito Santo é quase um nanico. Não tem deputado federal, tem apenas um estadual e elegeu três prefeitos em 2024.
Quer uma vaga na chapa majoritária, de candidato ao Senado ou a vice.
No palanque de Ricardo, a vice já deve ir para o vereador de Vitória Camilo Neves (PP). Uma das vagas de candidato ao Senado é do ex-governador Renato Casagrande (PSB) e a outra está praticamente certo que vai ficar com a ex-senadora Rose de Freitas (MDB).
No lado de Pazolini, por sua vez, Maguinha Malta (PL) é candidata ao Senado. O outro candidato deve ser o deputado federal Evair de Melo (Republicanos).
A vaga de vice ainda não foi definida.
Nos bastidores, a aposta é que o PSD rodou, rodou e vai voltar aos braços do ex-prefeito, justamente nesse espaço.
Os nomes que a sigla tem como opção para vice são o da esposa de Renzo Vasconcelos, Lívia Vasconcelos, e o do ex-prefeito de Linhares Guerino Zanon.
A convenção estadual do PSD está marcada para o último dia do prazo, 5 de agosto, às 18h.
E MENEGUELLI?
Quem sobra nesta história é o deputado estadual Sérgio Meneguelli, pré-candidato do PSD ao Senado, que fica sem espaço seja com Ricardo, seja com Pazolini.
Meneguelli já se disse disposto a concorrer sozinho, tendo apenas o próprio PSD como guarida e sem o apoio de um candidato ao Palácio Anchieta.
Isso, entretanto, é pouco crível.
Seria um ato de total isolamento por parte do PSD. A candidatura de Meneguelli é competitiva, mas paritr para a briga assim, sem nenhum reforço, seria muito arriscado.
Há duas vagas de senador em disputa este ano, mas da esquerda à direita, da oposição à situação, ninguém duvida que uma das cadeiras vai ficar com Casagrande.
Os outros candidatos e pré-candidatos estão, portanto, concorrendo a uma vaga só.
HARTUNG COMO CABO ELEITORAL
Mesmo sem lançar Hartung, o PSD continua a ser o partido do ex-governador.
Até agora, Pazolini não utilizou o nome de Hartung para tentar persuadir eleitores, apesar de o ex-governador ter feito elogios públicos ao ex-prefeito por mais de uma vez.
Se o PSD subir no palanque do republicano, nada indica que o ex-prefeito vá mudar de postura. Alguns aliados de Pazolini o aconselham justamente a manter distância da imagem do ex-governador.
Isso devido à greve da Polícia Militar, ocorrida em 2017, na gestão Hartung. O episódio o tornou uma espéde persona non grata entre os integrantes das forças de segurança pública.
Depois que o Republicanos firmou a aliança com o PL, o fator Hartung passou a pesar ainda mais. Os bolsonaristas tampouco têm simpatia pelo tradicional político capixaba.
No palanque de Ricardo, nem se fala. Além da questão da greve da PM, há toda uma história. Ricardo e Hartung foram aliados, mas há anos estão em grupos políticos diferentes. Ricardo e Casagrande de um lado, Hartung de outro.
Não à toa, o emedebista e o socialista destacaram que a incipiente conversa com o PSD ocorreu apenas em termos institucionais, com “o CNPJ”, “não com o CPF”.
E Hartung também nunca deu sinais de que pretendesse uma reaproximação.
O ex-governador, atualmente, tem a vida mais radicada em São Paulo que no Espírito Santo. Na Terra da Garoa, atua na iniciativa privada.
É improvável que se dedique de corpo e alma a pedir votos em prol de algum candidato por aqui.


