Por Fabiana Tostes / FOLHA VITÓRIA / Foto-legenda: Arnaldinho e Pazolini iniciam caminhada juntos pelo interior por Castelo / Crédito: Redes sociais
Numa 3ª ofensiva, os dois prefeitos iniciaram uma incursão pelo interior justamente pela terra natal do governador. O gesto é claro, mas muitas perguntas ainda estão no ar
Em mais uma ofensiva, a terceira em uma semana, o prefeito de Vila Velha, Arnaldinho Borgo (PSDB), e o de Vitória, Lorenzo Pazolini (Republicanos), iniciaram uma agenda conjunta pelo interior do Estado.
Após o desfile no Sambão do Povo e a reunião no gabinete do prefeito canela-verde, a incursão por municípios de fora da Grande Vitória – tradicional entre os pré-candidatos majoritários – uniu os dois prefeitos na noite de quinta-feira (12). E a escolha do primeiro roteiro não poderia ser mais simbólica e provocativa.
O itinerário incluiu três municípios, entre eles Castelo – terra natal do governador Renato Casagrande (PSB), adversário declarado de Pazolini e, até dias atrás, aliado de primeira hora de Arnaldinho.
Nem os neófitos da política capixaba acreditariam que a escolha foi por acaso ou coincidência. Assim como ocorreu na abertura do Carnaval de Vitória, o gesto soa meticulosamente calculado para atingir em cheio o governador.
Movimento escalou
Os dois prefeitos são pré-candidatos ao governo e, há exatamente uma semana, ocupavam trincheiras opostas – ao menos no discurso público.
De sexta-feira (06) para cá, a aproximação escalou, com direito a fotos cuidadosamente registradas, postagens sincronizadas, sorrisos largos e coreografados e recados endereçados ao Palácio Anchieta.
Do outro lado, teve reação dura por parte de interlocutores do governo e do próprio Casagrande, que mesmo ponderando bem as palavras, não deixou de demonstrar seu descontentamento com o movimento.
Entretanto, por mais que muitos sinais pareçam explícitos, algumas questões continuam no ar, sem respostas satisfatórias até o momento.
É sobre elas que trataremos a seguir.
O que teria motivado Arnaldinho a buscar Pazolini?
É fato que, ter sido preterido na escolha da sucessão de Casagrande, que preferiu apoiar o vice-governador Ricardo Ferraço (MDB) ao Palácio Anchieta, não desceu bem para Arnaldinho.
Tão logo o anúncio foi feito, o prefeito tratou de confirmar que sua pré-candidatura ao governo do Estado continuava de pé, mas sem se contrapor a Casagrande.
Nos dias que se seguiram, ele confirmou apoio ao governador – no caso de uma eventual disputa ao Senado – e chegou a dizer, para a coluna, que não brigaria com Casagrande.
Depois do anúncio, prefeito e governador chegaram a participar de agendas juntos, mantendo uma relação cordial, republicana e institucional, sem nenhum sinal de rompimento.
A leitura do mercado político era de que Arnaldinho continuaria no jogo, mas dentro dos limites do Palácio Anchieta, à espera, talvez, de uma mudança na decisão do governador. O ano terminou com essa sensação.
Porém, algo parece ter acontecido, no mês de janeiro, que motivou a guinada de Arnaldinho rumo ao principal opositor de Casagrande. E pela forma como os eventos vêm ocorrendo, a impressão é que tenha sido algo grave.
Um dos motivos pode ter sido o imbróglio no PSDB.
Aliados de Arnaldinho acusam a digital do governo no esvaziamento das chapas tucanas. O PSDB passou a ser presidido pelo prefeito no fim do ano passado, quando ele assumiu o comando estadual da legenda no lugar do líder do governo na Assembleia, Vandinho Leite.
Depois disso, começou uma debandada do ninho, com deputados, prefeitos, vice-prefeitos e secretário de Estado pedindo desfiliação da legenda.
Qual é a verdadeira intenção de Arnaldinho?
Muito já foi especulado sobre a verdadeira intenção de Arnaldinho. Há quem acredite que ele esteja blefando, para forçar o Palácio Anchieta a escolhê-lo como candidato.
Outros que ele realmente estaria disposto a romper com o governo e ir para o tudo ou nada na disputa eleitoral.
A dúvida se impõe porque, ainda que ele tenha dado sinais, não houve ainda um anúncio público sobre suas reais intenções.
Na abertura do Carnaval, a fala do prefeito de Vila Velha foi genérica. Coube a Pazolini explanar, ainda que superficialmente, o significado dos dois estarem juntos no evento.
“Significa que nós estamos dialogando, conversando, pensando na vida dos capixabas. É uma conversa saudável, madura, de dois jovens que acreditam muito no Espírito Santo”, disse o prefeito da Capital, na ocasião.
Ainda não se sabe qual será o próximo passo. A estratégia da dupla tem sido dosar os movimentos, revelando-os gradualmente – cada novo gesto com potencial de impacto superior ao anterior. A aproximação avança em camadas. Os sinais são eloquentes, mas ainda não dizem tudo.
Ainda tem espaço para Arnaldinho na base aliada do governo?
No primeiro ato – quando decidiu entrar na avenida de braços dados com a primeira-dama e com o prefeito de Vitória – Arnaldinho foi alvo de críticas por parte da cúpula do Palácio Anchieta.
Em entrevista para a coluna De Olho no Poder, o secretário de Estado da Saúde, Tyago Hoffmann (PSB), um dos principais interlocutores do governo, afirmou que o prefeito teria cometido um erro, que via sinais de ingratidão, mas ponderou que o grupo iria “lutar” para manter Arnaldinho na base aliada.
“Nós ainda entendemos que Arnaldinho faz parte do grupo. Acho que foi um erro dele. Mas não é por causa desse erro que nós deixamos de entendê-lo como membro do grupo político do governador Renato Casagrande”, disse Tyago, na ocasião.
Ocorre que o episódio no Sambão do Povo não pode mais ser tratado como fato isolado. À luz dos acontecimentos da semana, a leitura que se tem agora é de que foi o ato inaugural de um movimento político cuidadosamente estruturado, cujos desdobramentos ainda estão em curso.
Diante da escalada dos gestos e da exposição pública da aproximação com o principal adversário do Palácio Anchieta, a pergunta inevitável é: a porta do governo continua aberta para Arnaldinho?
Na política, o pragmatismo costuma prevalecer. Mas, depois de tantos sinais emitidos em direção oposta, a confiança permanece intacta? E, mesmo que permaneça, a relação seguirá nos mesmos termos?
Não há sinais de que o governo irá tomar a iniciativa para tentar resolver o impasse. E, do outro lado, também não.

Pazolini e Arnaldinho de braços erguidos no Sambão (foto: Marcos Salles)
Aliado a Pazolini, qual será o papel de Arnaldinho na eleição?
Outro ponto ainda sem resposta é sobre o papel que Arnaldinho poderá desempenhar caso mude de grupo político. Ele e Pazolini são pré-candidatos ao governo do Estado. São dois nomes para ocupar um único espaço, o que significa que, se decidirem selar uma aliança, um dos dois vai precisar recuar.
Não há, hoje, nenhum indício de que Pazolini esteja disposto a ceder seu lugar de cabeça de chapa para Arnaldinho. E nem há razões para isso.
Nesse movimento de aproximação entre os prefeitos, Pazolini está onde sempre esteve. Quem fez a guinada, a mudança de rota, a curva à direita foi Arnaldinho. Não é Pazolini que está se juntando ao grupo de Arnaldinho, é o oposto.
Nesse cenário, Arnaldinho pode até sentar na janelinha, mas dificilmente será o condutor da viagem. E não sendo o cabeça de chapa, o que restaria para o prefeito de Vila Velha?
Ele aceitaria ser vice de Pazolini? Algo que descartou com Ricardo Ferraço, mesmo tendo a chance de poder ser o candidato ao governo em 2030?
Ele renunciaria à Prefeitura de Vila Velha – segunda maior do Estado – para ser candidato ao Senado, sabendo que o jogo está embolado com chances de ter que disputar contra duas das principais forças políticas do Estado (Paulo Hartung e Casagrande, se eles decidirem concorrer)?
Ou ele já decidiu não disputar nada e apenas colocar o seu capital político à disposição de outro grupo?
Arnaldinho foi reeleito no primeiro turno de 2024 com 79% dos votos, quebrando um ciclo de 12 anos sem reeleição em Vila Velha. Trata-se de um ativo considerável, no segundo maior colégio eleitoral do Estado. Quem iria dispensar uma força dessa magnitude numa disputa majoritária?
Se Arnaldinho decidir atravessar de vez a ponte, a travessia precisará fazer sentido do ponto de vista eleitoral e estratégico. Do contrário, o movimento corre o risco de parecer apenas simbólico, com alto custo e baixo dividendo.
Sem Arnaldinho, governo do ES vai mudar a estratégia?
Na primeira manifestação pública após o gesto de aproximação entre Pazolini e Arnaldinho, o governador foi instado a avaliar se uma eventual união entre os dois prefeitos poderia ameaçar o projeto do governo para as eleições.
Enfático, Casagrande respondeu que “não tinha risco de nada”, indicando que, sob a ótica do Palácio Anchieta, o movimento não alteraria o rumo traçado.
O governador ainda não definiu – ao menos publicamente – se deixará o cargo para disputar o Senado. Tampouco detalhou os fatores que pesam nessa decisão. Mas é razoável supor que a capacidade de eleger o sucessor esteja entre as variáveis centrais desse cálculo.
Nesse cenário, a eventual migração de um aliado para o campo adversário não é um dado irrelevante. Mesmo que o discurso oficial seja de estabilidade, movimentos dessa natureza tendem a ser incorporados à equação estratégica – ainda que, por ora, não se admita qualquer revisão de rota.
Em disputas majoritárias, cada peça deslocada altera o desenho do tabuleiro. E, mesmo quando o discurso é de tranquilidade, o jogo raramente permanece o mesmo.