Por Vitor Vogas / A GAZETA / Foto-legenda: Fabiano Contarato, Professor Carlos Fabian e Renato Casagrande / Arte: IA
PSol e Rede não têm tanto em comum assim no Estado, mas estão amarrados eleitoralmente por força da federação. No fim das contas, se entenderam, mas convergiram em muito pouco.
Após semanas de deliberações, a “esquerda mais esquerdista” no Espírito Santo, representada pela Federação Rede/PSol, definiu o que fará na eleição majoritária (para o Governo do Estado e o Senado). É uma solução complexa, com o intuito de agradar a todo mundo.
Os dois partidos não têm tanto em comum assim no Estado, mas estão amarrados eleitoralmente por força da federação. No fim das contas, se entenderam, mas convergiram em muito pouco.
A federação de esquerda virá sem coligação na majoritária, lançando unicamente a candidatura ao Senado do Professor Fabian (PSol) como candidato ao Senado, mas com apoio real só do PSol. Tecnicamente, ele será o candidato da federação, o que também inclui a Rede Sustentabilidade, mas na prática a Rede não o apoiará.
A Rede fica liberada para, informalmente, apoiar Renato Casagrande (PSB) e Fabiano Contarato (PSB) ao Senado, e Ricardo Ferraço (MDB) ao governo.
Enquanto isso, o PSol fica liberado para, informalmente, apoiar Contarato ao Senado (além do Professor Fabian) e Helder Salomão (PT) ao governo.
Assim, os dois parceiros na federação só estarão juntos no apoio a Lula (PT) para a Presidência da República e no apoio a Contarato para o Senado.
Embora estejam na mesma federação, as duas agremiações de esquerda apoiarão candidatos diferentes na corrida ao Palácio Anchieta e um segundo candidato diferente na disputa pelo Senado.
O PSol estará no palanque de Contarato e de Helder, mas não pode estar, formalmente, na coligação do PT (isto é, da Federação Brasil da Esperança). Para isso, teria de levar junto a Rede, que não queria estar nesse palanque, porque apoia Casagrande e Ricardo.
A Rede, por sua vez, estará no palanque de Casagrande e Ricardo, mas não pode estar, formalmente, na coligação de PSB e MDB. Para tanto, teria de arrastar consigo o PSol, que não queria estar nesse palanque, porque apoia Helder Salomão para o governo.
Mesmo não apoiando na prática o professor Fabian para o Senado, a Rede aceitou o lançamento dele pala federação Rede/PSol, para não inviabilizar a candidatura do nome do PSol.
Se você não conseguiu compreender na plenitude o arranjo, não se preocupe: é complicado mesmo. Talvez se formos por outro caminho, focando nos personagens em vez dos partidos, fique mais fácil de entender:
ELEIÇÃO AO SENADO
Professor Fabian (PSol): tecnicamente, será o único candidato da Federação Rede/PSol. Na prática, será o primeiro candidato do PSol, ao qual é filiado, e só terá o apoio do partido.
Renato Casagrande (PSB): na prática, será um dos dois candidatos apoiados pela Rede ao Senado (mas não pelo PSol).
Fabiano Contarato (PT): na prática, terá o apoio da Rede e do PSol, mesmo sem essa federação formalmente presente em sua coligação.
ELEIÇÃO AO GOVERNO DO ESTADO
Helder Salomão (PT): Na prática, terá o apoio do PSol (mas não da Rede), mesmo sem essa federação de esquerda coligada ao PT.
Ricardo Ferraço (MDB): Na prática, terá o apoio da Rede (mas não do PSol), mesmo sem a federação formalmente integrada à sua coligação.
Conclusão
Na realidade, essa é mais uma amostra de como o dispositivo da “federação” é uma certa anomalia que dá ensejo a situações anômalas como essa. É uma espécie de meio-termo entre a autonomia dos partidos envolvidos e uma fusão completa.
Oficialmente, cada partido envolvido na federação não perde por completo a autonomia: preserva seu estatuto, seu programa, seus próprios quadros partidários. Mas, em termos práticos, tanto em processos eleitorais como na atuação parlamentar, as siglas integrantes funcionam como se fossem um partido só.
A ligação é temporária, mas longa: quatro anos de duração. E, enquanto estiver valendo, a união é insolúvel. Nas eleições, necessariamente, as siglas deverão caminhar juntas. A regra é vertical: vale tanto nacionalmente (na eleição presidencial) como nas disputas estaduais.
Só que, quando se desce para os estados, a federação fatalmente esbarra em uma série de dificuldades e discordâncias regionais: cada partido tem interesses, estratégias eleitorais e, não raro, candidatos preferidos diferentes.
Vira um casamento forçado, no qual os dois cônjuges não queriam estar juntos. São obrigados a viver sob o mesmo teto, mas cada um mantém seus relacionamentos políticos paralelos. Não podem se divorciar, mas a união conjugal é de fachada.
A história se repete
Para viabilizar os planos de cada um, é comum que se criem “soluções criativas”, ou mirabolantes mesmo, como essa agora encontrada por PSol e Rede no Espírito Santo.
Na eleição estadual passada, em 2022, ocorreu algo até parecido. Em mais uma prova de como a união do PSol com a Rede nunca funcionou tão bem, a federação teve a candidatura a governador de Audifax Barcelos, que então controlava a Rede no Espírito Santo.
O PSol não queria nada com ele e lançou a candidatura ao Senado do historiador Gilbertinho.
Tecnicamente, Audifax era o candidato da federação (portanto, também o do PSol), mas não tinha o apoio do partido de Camila Valadão.
Já Gilbertinho, tecnicamente, também era o candidato da Rede, embora não tivesse o apoio nem de Audifax nem do partido do ex-prefeito da Serra.
Agora, assim como há quatro anos, a Rede e o PSol estão juntos, mas não estão. Unidos, porém separados…


