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Debate no ES coloca três estilos políticos em confronto

Debate no ES coloca três estilos políticos em confronto

Por Vinícius Baptista / SIM NOTÍCIAS / Foto: Divulgação / Arte: IA

 

Helder Salomão, Lorenzo Pazolini e Ricardo Ferraço apresentaram propostas, transformam narrativas e deixaram claras suas estratégias para a disputa pelo Governo.

Em uma eleição equilibrada no Espírito Santo, o primeiro debate entre os três principais postulantes ao Governo do Estado refletiu esse equilíbrio. Em um encontro sem ataques mais duros ou pessoais, mas cheio de alfinetadas e ironias, os candidatos aproveitaram a oportunidade para apresentar suas propostas e defender seus projetos.

Helder Salomão (PT), Lorenzo Pazolini (Republicanos) e Ricardo Ferraço (MDB) estiveram frente a frente pela primeira vez no debate realizado pelo pool de veículos de comunicação do Grupo Sim.

Cada um chegou à sede da emissora com suas estratégias muito bem definidas. Enquanto Ferraço veio para defender o legado de seu governo e do seu antecessor, Renato Casagrande (PSB), apostando no discurso de continuidade de um trabalho que, segundo ele, tem dado certo, Pazolini focou em defender suas conquistas como prefeito de Vitória e se mostrou disposto a garantir aos capixabas que conseguirá cuidar do Estado inteiro. Já Helder trouxe para o debate sua história de vida política como ex-prefeito de Cariacica, seu bom trânsito em Brasília — principalmente se o presidente Lula (PT) for reeleito — e um discurso bem afinado de que ele é o candidato “com cheiro de povo”.

E foi exatamente na defesa de seus legados como gestores que os adversários aproveitaram para subir o tom do debate. Pazolini disse que Ricardo pratica “estelionato eleitoral” com suas propostas e afirmou que o candidato teve “12 anos para fazer, e não fez” as melhorias prometidas na área de segurança.

Ricardo, por sua vez, disse que fica impressionado com a “desfaçatez” de Pazolini ao criticá-lo por não ter construído nenhuma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) em seus dois mandatos como prefeito da Capital.

Já Helder foi o que sofreu menos ataques dos adversários, mas foi o autor das críticas mais ácidas. Perguntou — e insistiu na pergunta — a Ricardo sobre os salários dos professores do Estado e partiu para cima de Pazolini ao dizer que o ex-prefeito não cuidou bem do Centro de Vitória e que as UPAs de São Pedro e Praia do Suá receberam notas baixas dos usuários.

Vamos ao desempenho individual de cada candidato, seguindo a ordem alfabética:

Helder Salomão (PT)

Nas duas oportunidades que teve para escolher qual candidato responderia às suas perguntas, Pazolini escolheu Helder. Era nítida a intenção do ex-prefeito de Vitória de tentar usar o petista como uma “escada” para criticar a atual gestão do Estado, liderada por Ferraço. Mas foi aí que Helder virou o jogo.

Primeiro, Pazolini perguntou sobre as propostas do ex-prefeito de Cariacica para o turismo e completou dizendo que o atual governo não tem políticas públicas para a área.

Helder respondeu, ouviu a réplica e, na tréplica — quando Pazolini não teria mais direito a fala —, mandou um cruzado de esquerda.

“Inclusive, candidato, eu vou cuidar do Centro de Vitória que o senhor abandonou. Vitória hoje reclama que a prefeitura abandonou o Centro de Vitória. (…) O Centro de Vitória é importante para todo o Espírito Santo, é a nossa riqueza cultural e histórica. É lamentável a gente ver o abandono que o Centro de Vitória viveu nos últimos anos sob a sua gestão”, provocou.

No segundo bloco, ao responder a uma pergunta de Pazolini com críticas à saúde pública no Estado, Helder falou de suas propostas, mas aproveitou para mandar outra no adversário.

“Mas eu queria aproveitar essa oportunidade para dizer, candidato, que, na Capital, a nota que a população dá para o atendimento nos dois PAs (Pronto Atendimento) é quatro. É quatro em atendimento! Isso está lá no Observa VIX, na página da prefeitura. Como a população está reprovando o senhor, ou seja, o senhor está reprovado na saúde de Vitória. Quem está reprovado na saúde de Vitória vai dizer que vai trazer um projeto para atender aos 78 municípios?”, questionou Helder, afirmando que a escala de avaliação varia de 1 a 10 — informação que foi rebatida por Pazolini mais adiante.

O petista também partiu para cima de Ricardo ao questionar o fato de o Espírito Santo ser considerado nota A pelo Tesouro Nacional por conta da responsabilidade com as contas públicas, mas, quando o assunto é o salário pago aos professores, o Estado ocupa a 14ª posição no ranking nacional.

Lorenzo Pazolini (Republicanos)

O ex-prefeito de Vitória fez questão de passar a mensagem do “Pazolini Paz e Amor”. Mesmo diante das críticas que sofreu ao longo da última semana, com vídeos dos dois adversários publicados em suas redes sociais e questionamentos à sua aliança com o senador Magno Malta (PL), Pazolini adotou uma linguagem mais serena e não subiu o tom em nenhum momento.

Tanto em suas considerações iniciais quanto nas finais, Pazolini prestou solidariedade às famílias de duas mulheres vítimas de feminicídio no Estado na última noite. Além de trazer a humanização para o debate, a demonstração do sentimento também serviu como uma forma de chamar a atenção para o problema da violência contra as mulheres capixabas. Algo que Pazolini explorou ao longo do programa.
Nitidamente, ele não veio interessado em um conflito mais ríspido contra Ferraço. Preferiu perguntar para Helder para, na réplica, criticar a atual gestão. Mas, levando em consideração o fato de o petista ter usado essa “escada” para subir às críticas ao próprio Pazolini, talvez o telespectador não tenha enxergado essa estratégia como tão eficiente.

Em suas considerações finais, Pazolini ironizou Helder ao dizer que as notas dos PAs de Vitória não vão de 1 a 10, mas, no máximo, até 4, sendo assim, as unidades seriam bem avaliadas.

“Eu sei da sua obsessão pelo número 10”, provocou o ex-prefeito, ao citar seu número de campanha.

As críticas mais duras de Pazolini foram destinadas a Ricardo na hora de falar sobre segurança pública. O ex-prefeito disse que o Espírito Santo é o Estado mais violento para as mulheres da Região Sudeste (não foi à toa que ele abriu sua participação no debate falando das duas mulheres assassinadas), criticou a defasagem de servidores nas polícias e mencionou números prometidos e não alcançados pela dupla Casagrande/Ricardo no último pleito.

“Candidato, diferente do estelionato eleitoral que vocês fizeram nas últimas eleições, nós não vamos prometer que o Espírito Santo será o quinto Estado com a maior redução de violência do país. Nós vamos trabalhar valorizando os profissionais da segurança pública, valorizando principalmente homens e mulheres que se dedicam a cuidar da vida dos capixabas. (…) Eles estão há 12 anos no poder e não se preocuparam com as instituições de segurança. Não nomearam profissionais, deixaram a sua vida em risco. Agora, às vésperas do processo eleitoral, surgem as mesmas promessas eleitoreiras”, disparou.

Ricardo Ferraço (MDB)

Por ser o atual governador do Estado e participar dos dois grupos que se revezaram no Palácio Anchieta ao longo das duas últimas décadas, naturalmente as críticas foram mais direcionadas a Ricardo Ferraço.

Desde o início de suas considerações iniciais, o candidato veio com um nítido discurso de defesa de legado: reforçar os avanços de sua gestão e garantir que ainda tem muito a fazer pelo Espírito Santo.

Ferraço não fez críticas direcionadas a Helder. Seu alvo era Pazolini.

Primeiro, fez uma referência à recente tecnologia usada no futebol, o Video Assistant Referee, ou Árbitro Assistente de Vídeo.

“Olha, eu preciso chamar o VAR para repor a verdade e a realidade dos fatos”, disse Ricardo, fazendo com os dedos o gesto que simboliza uma tela de TV e que, nos gramados, é usado pelos árbitros quando vão consultar as câmeras para saber exatamente o que aconteceu no lance em análise.

“Nós estamos fazendo, nesse período de governo, de 2022 a 2026, a maior recomposição do efetivo da Polícia Militar. Lembrando que, no governo anterior ao nosso, nós chegamos a ficar quatro anos sem concurso público na Polícia Militar. Nós estamos fazendo a maior recomposição também na Polícia Civil do Estado do Espírito Santo”, rebateu Ricardo.

O candidato elevou o tom em suas considerações finais. Sempre com Pazolini como alvo. “É impressionante a desfaçatez do candidato que acabou de me anteceder. Ele foi prefeito de Vitória durante cinco anos e não colocou de pé uma UPA”, disparou Ricardo.
Ele ainda criticou a atuação de Pazolini na área de segurança.

“Ele foi prefeito de Vitória durante cinco anos e só contratou 102 profissionais para a Guarda Municipal, enquanto somente nós, nesse período de governo, contratamos 8.400 profissionais para as nossas forças de segurança”, disparou Ferraço, ironizando ainda as constantes comparações feitas por Pazolini sobre o período em que esteve à frente da Capital.

“Às vezes fica a impressão de que nós estamos aqui disputando a sucessão do município de Vitória. Não é isso. Nós estamos aqui disputando o governo do Estado do Espírito Santo”, finalizou Ricardo.

Conclusão

Na coluna de ontem, nós falamos sobre os três pilares da retórica idealizados pelo filósofo grego Aristóteles há 2.300 anos: Ethos (autoridade e credibilidade), Pathos (a emoção que o orador consegue transmitir ao público) e Logos (a lógica e a razão no uso das palavras).
Não há dúvida de que temos três candidatos com o pilar do Ethos bem afiado. Os três têm uma trajetória respeitável na política e já ocuparam — ou ocupam — cargos de relevância que lhes garantem autoridade para se apresentarem como aptos a ocupar o cargo mais importante do Espírito Santo.

Também estamos diante de três bons expositores do Logos. Cada um à sua forma, com seus argumentos, seu estilo e sua estratégia. Mas é inegável que estamos diante de três bons oradores.

O ponto-chave, porém, é saber quem, de fato, conseguiu despertar a emoção dos telespectadores e, por consequência, dos eleitores.

E talvez esteja justamente aí a maior dificuldade dos três. Em um debate marcado pela apresentação de propostas, defesa de legados, números, comparações e provocações, faltou, em alguns momentos, aquilo que não se mede em pesquisa, não cabe em planilha e não se resolve com um bom argumento: a capacidade de criar identificação.

Política também é razão, sem dúvida. Mas eleição é feita de gente. E gente não escolhe apenas pelo que ouve; escolhe também pelo que sente.

O candidato que consegue transformar uma proposta em esperança, uma história em identificação e uma fala em emoção consegue atravessar a tela e chegar ao eleitor. No primeiro debate, os três mostraram que sabem falar. Resta saber quem conseguirá fazer o eleitor não apenas ouvir, mas sentir que aquela mensagem também fala diretamente com ele.

Debate no ES coloca três estilos políticos em confronto

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