Por Fabiana Tostes / FOLHA VITÓRIA / Foto: Divulgação / Crédito: Thiago Soares (Folha Vitória) / Arte: IA
Senador é titular de um mandato turbulento, que ganhou visibilidade nacional pelos confrontos com o STF. Para o eleitorado, ele alega ser perseguido pelo sistema
Durante a entrevista concedida na série de sabatinas do Folha Vitória com os candidatos ao Senado, o senador Marcos do Val (Avante) sintetizou a linha mestra da sua estratégia para tentar a reeleição em outubro.
Titular de um mandato turbulento – que ganhou visibilidade nacional muito mais pelos embates com o Supremo Tribunal Federal (STF) do que pelas entregas parlamentares –, Do Val tenta converter o próprio desgaste judicial em capital político.
A tática do senador é convencer sua base conservadora de que as punições e restrições impostas ao seu mandato foram o preço pago por defender bandeiras da direita contra o “sistema”.
Eu fui isolado, fui censurado por quase dois anos sem redes sociais, fui impedido de vir ao Espírito Santo, porque eu estava defendendo a Constituição, defendendo a liberdade de expressão (…) Mas eu não recuei, o Brasil viu que eu sou incorruptível”. Marcos do Val (Avante), senador e candidato à reeleição
Essa narrativa do “perseguido”, contudo, tenta cobrir uma esteira de episódios ruidosos que tensionaram seu mandato e o isolaram politicamente – Do Val não fechou alianças e vai sozinho para as urnas.
Polêmicas
Na memória do eleitor, pesam as idas e vindas sobre o suposto plano golpista envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro e o ministro do STF Alexandre de Moraes, os sucessivos anúncios e recuos sobre renunciar ao mandato, e declarações polêmicas em que chegou a admitir ter recebido R$ 50 milhões em emendas do “orçamento secreto” por gratidão ao apoiar a eleição de Rodrigo Pacheco à presidência do Senado.
Somam-se a isso os ruidosos embates na CPMI do 8 de Janeiro – com direito a bate-boca antológico com o então ministro da Justiça Flávio Dino – e promessas não cumpridas de “provas bombásticas” em pendrives.
Em 2023, no dia do seu aniversário, o parlamentar foi alvo de um mandato de busca e apreensão determinado pelo STF e cumprido pela Polícia Federal. Teve as redes sociais bloqueadas.
Em 2024, as sanções escalaram e o senador passou a ter a conta bancária bloqueada por descumprir as medidas cautelares impostas pelo ministro Alexandre de Moraes.
O ápice da tensão ocorreu quando, mesmo proibido de deixar o País, Do Val viajou para a Disney sem autorização do STF, o que deflagrou um novo pacote de punições.
Ao retornar, teve de usar tornozeleira eletrônica, foi alvo de bloqueio das contas bancárias, do salário de senador, das chaves PIX e também das redes sociais.
“Medida inconstitucional”
Ao ser questionado, na entrevista, se o fato de um senador da República descumprir uma decisão judicial poderia incentivar a população a fazer o mesmo e criar, com isso, um ambiente de instabilidade no País, Do Val rebateu afirmando que não obedece ordem que considera ilegal.
“Eu não estava descumprindo nenhuma lei, até porque a medida dele era inconstitucional. Eu não estava respondendo a nenhum crime. Foi uma decisão monocrática, exatamente porque eu estava denunciando ele (Alexandre de Moraes), e fiz isso durante três anos. Quando ele disse que eu estava proibido de sair do País, foi uma decisão dele (…) Sem justificativa”, afirmou o senador.
Do Val ficou menos de um mês sob as sanções. Ele apresentou um pedido de licença médica – que foi levado pelo presidente do Senado ao Supremo – e, um dia depois, as medidas foram relaxadas.
Com relação a esse desfecho, o senador nega que tenha ocorrido um acordo nos bastidores entre ele, a cúpula do Senado e o ministro Alexandre – embora, na época, a leitura tenha sido exatamente essa.
“Não teve acordo. Quando Davi Alcolumbre foi eleito (para presidente do Senado), mais de 54 senadores fizeram abaixo-assinado, mostrando que, de fato, estava havendo uma perseguição ao senador Marcos do Val”, disse o candidato.
Abismo
Essa tática de vitimização e confronto contínuo revela um abismo entre o Marcos do Val de 2018 e o de hoje.
Há oito anos, Do Val surfou na onda da nova política, da renovação, apresentando-se ao eleitor capixaba como um especialista técnico: o ex-instrutor da Swat, o homem da segurança pública sem amarras partidárias.
À época filiado ao PPS (atual Cidadania), Do Val rejeitava o rótulo de político tradicional. Vendia-se como um consultor internacional de segurança, que levaria a experiência de treinamento das forças de elite da segurança americana para o Senado.
Foi eleito no grupo e com o apoio do ex-governador Renato Casagrande (PSB), de quem era aliado. Aliás, o PSB descartou a possibilidade do então deputado Sergio Majeski (PSB) ser candidato ao Senado para apoiar Do Val.
Ao longo dos anos, a pauta da segurança – embora ainda presente em seu mandato – foi engolida pelos discursos ideológicos e bolsonaristas. Ganhou um novo público-alvo, mas antigos aliados viraram adversários.
Questionado, na entrevista, sobre quem apoiaria para o governo do Estado, Do Val sinalizou que deve fechar com Pazolini, mas fez uma ressalva: “Se Paulo Hartung estiver por trás de Pazolini, eu não vou apoiá-lo”.
O que ele não colocou em dúvida, porém, foi a decisão de não apoiar o grupo de Casagrande. Segundo ele, o rompimento com o ex-governador se deu por dois motivos: o apoio do socialista aos atos do ministro Alexandre de Moraes e o voto em Lula. “Não posso mais caminhar com Casagrande”.
A estratégia está em campo. A dúvida que as urnas responderão em outubro é se o eleitor capixaba que o alçou ao Senado como o “técnico da Swat” em 2018 ainda se reconhece no “perseguido do Supremo” de 2026 – ou se o isolamento político e a bagagem de controvérsias acumuladas ao longo de oito anos inviabilizarão a renovação do seu mandato em Brasília.


