Por Vitor Vogas / A GAZETA / Foto-legenda: Governador Ricardo Ferraço na missa de encerramento da Festa da Penha / Crédito: Ricardo Medeiros / Arte: IA
O momento é de aperto para ele, diante da intrincada tarefa de agradar a numerosos parceiros, em uma enorme coalizão de aliados – e sem reduzir as próprias chances de vitória eleitoral
“A vida é assim: aperta e afrouxa”, diz o governador Ricardo Ferraço (MDB), citando um pedaço de uma das passagens consagradas da narração do ex-jagunço Riobaldo, no romance “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa. O momento é de aperto para Ricardo, diante da intrincada tarefa de agradar a numerosos parceiros, da maneira mais equilibrada, em uma enorme coalizão de aliados – e sem reduzir as próprias chances de vitória eleitoral.
Nos últimos dias, a escolha de seu candidato a vice virou motivo de discórdia dentro de seu arco de aliados. A poderosa Federação União Progressista cobra a primazia da indicação. Mas outros aliados de Ricardo, como os prefeitos Euclério Sampaio e Enivaldo dos Anjos, defendem abertamente que o escolhido seja o ex-prefeito da Serra Sérgio Vidigal (PDT). A campanha pró-Vidigal cresceu, levando a federação a ameaçar pular fora da barca.
Vendo tudo com “absoluta naturalidade”, Ricardo diz que seguirá dialogando com todo mundo, mas avisa: “Tem uma coisa de que não abro mão: no fim do dia, quem vai decidir sou eu”.
Esse é só o primeiro recado de Ricardo na entrevista abaixo (para aliados, inclusive). “Apertado” por alguns de seus parceiros, ele avisa, nas entrelinhas, que não se submeterá a pressões e chantagens políticas.
Segundo recado de Ricardo: Vidigal não está descartado. Seu nome está sendo considerado por ele, sim, como opção para a vice, em igualdade de condições. “Todos os nomes serão considerados por mim. O nome de Vidigal será considerado? Sim! Os nomes indicados pela federação estão sendo considerados? Sim!”
Terceiro recado de Ricardo: “A federação terá também protagonismo em minha campanha e em meu governo”. Significa que, se o governador se eleger para um segundo mandato, o União Progressista terá participação direta em seu próximo governo – presumivelmente, com espaço(s) no alto escalão.
Nesse “aperta e afrouxa” de Ricardo, o governador, na maior parte da entrevista, busca distender o ambiente dentro de sua coalizão.
“O que ela quer da gente é coragem”: assim termina o aforismo do personagem-narrador Riobaldo, acerca da vida. “E quem está liderando um projeto como esse que lidero precisa ter a coragem de decidir da melhor maneira para construir a nossa convergência”, emenda Ricardo.
À entrevista!
Como o senhor observa as recentes movimentações da Federação União Progressista?
Pela experiência de vida que tenho, minha leitura é que isso é absolutamente natural. À medida que o calendário evolui e as convenções vão acontecendo, é natural que uma pessoa que lidera uma frente ampla de partidos tenha as mais diversas opiniões e manifestações. Isso é absolutamente natural dentro do ambiente da construção que estou fazendo. Tenho dito que minha decisão será tomada ouvindo, dialogando, fazendo a leitura de todos os cenários.
“Agora, tem uma coisa de que não abro mão: no fim do dia, quem vai decidir sou eu”, Ricardo Ferraço, governador
Vamos continuar dialogando, ouvindo a todos e todas, com muita humildade. Esse processo é assim mesmo. Na reta de chegada, a gente vai construir a convergência. Tenho muita confiança naquilo que construímos até aqui.
O senhor acredita que a federação permanecerá no seu grupo?
Acredito que sim e trabalho nessa direção, até porque tenho com a federação o melhor relacionamento. Não apenas com Da Vitória e Marcelo Santos, mas também com toda a base do partido, que é muito próxima. Todo o movimento da federação é muito próximo a nós. E tanto Da Vitória e Marcelo Santos têm sido leais e corretos companheiros. Vamos continuar conversando para buscar um consenso, porque de fato a federação tem muita força, é muito importante e terá protagonismo não apenas nessa decisão. Terá também protagonismo em minha campanha e em meu governo.

Terá protagonismo na campanha, terá protagonismo no governo… e terá seu candidato a vice?
O que estou dizendo é que você precisa governar com todas as forças políticas que estiveram presentes na construção do projeto. Você mobiliza aliados e partidos políticos, e é absolutamente natural que você compartilhe o governo com quem participa da eleição. Você vai governar com adversários? Isso não tem cabimento, não tem pé nem cabeça.
Desculpe a insistência neste ponto, mas a Federação União Progressista tem uma reivindicação bem objetiva e já deixou claro que não abre mão disso: o preenchimento da vaga de vice na chapa do senhor. O senhor já assumiu o compromisso de atender a esse pleito, ou isso ainda não está definido?
É o que estou dizendo a você. Que acredito na nossa capacidade de diálogo e que vamos partir para um consenso entre todas as forças reunidas em torno do nosso projeto. O diálogo vai nos levar a um consenso, de maneira que possamos contemplar todas as forças políticas que estão do nosso lado. A política não é uma linha reta, como você está perguntando. Não é uma ciência exata. Linha reta é engenharia. Ricardo Ferraço, governador

A política envolve sentimento humano, e tudo que envolve sentimento humano envolve capacidade de articulação. Eu acredito nessa nossa capacidade. Eu já disse a você e repito que a federação é muito importante nesse nosso movimento.
Nos últimos dias, dentro da sua coalizão, tem havido um movimento crescente, puxado pelos prefeitos Euclério Sampaio e principalmente Enivaldo dos Anjos, a favor de Sérgio Vidigal, isto é, em defesa da tese de que o ex-prefeito da Serra é quem deve ser seu companheiro de chapa. O que acha da ideia?
Numa frente ampla como a que eu participo, todos têm direito a opinar, porque esta frente é fruto de um processo democrático como o que temos construído. Todos os nomes serão considerados por mim. O nome de Vidigal será considerado? Sim! Os nomes indicados pela federação estão sendo considerados? Sim! Não acredito na política da exclusão e sim na política da construção.
O senhor disse que, no final do dia, é o senhor quem vai decidir. Está se sentindo pressionado por aliados?
Não, absolutamente. Está tudo indo de maneira natural. Sigo tranquilo. É assim mesmo. Como diria Guimarães Rosa, “a vida é assim: às vezes aperta, às vezes afrouxa”…
“O que ela quer da gente é coragem”, diz o Riobaldo.
E quem está liderando um projeto como esse que lidero precisa ter a coragem de decidir da melhor maneira para construir a nossa convergência. Não tem colega menos ou mais importante. Todos são igualmente importantes e todos estarão nos ajudando na nossa construção. É claro que a federação vai ser protagonista durante e depois da nossa campanha, porque tenho muita convicção no projeto que estamos apresentando à população capixaba.


