Por Vitor Vogas / A GAZETA / Foto-legenda: Ricardo Ferraço, Renzo Vasconcelos e Renato CasagrandeReprodução do Instagram / Arte: IA
Vista com desconfiança no Palácio Anchieta, a guinada de Renzo Vasconcelos pode não passar de um grande blefe, mas obter o apoio do PSD e do prefeito de Colatina seria um gol de placa para a dupla.
Nos últimos tempos, Paulo Hartung voltou a cultivar a barba. Renato Casagrande e Ricardo Ferraço, não. Esses dois, no entanto, estão com as barbas de molho ante a aproximação eleitoral do Partido Social Democrático (PSD).
Nesta quarta-feira (22), dois dias após descolar-se da coligação de Lorenzo Pazolini (Republicanos), Renzo Vasconcelos, presidente estadual do PSD, reuniu-se com Ricardo na Residência Oficial e manifestou o interesse do partido em entrar na sua chapa majoritária. O prefeito de Colatina jura que não está blefando.
No Palácio Anchieta, desconfia-se que Renzo no fundo só esteja fazendo isso para melhorar a própria posição nas negociações com o grupo de Pazolini e pressionar Magno Malta (PL) a aceitar abrir espaço ao PSD na coligação do ex-prefeito de Vitória.
Pelo sim, pelo não, mesmo vendo com certa desconfiança esse approach de Renzo, Ricardo e seu núcleo político também sabem que não podem perder a chance: já que a oportunidade se abriu, num momento decisivo do calendário eleitoral, precisam levá-la muito a sério e tentar obter a adesão do PSD. Sem exagerar nas concessões. E com a devida aquiescências dos parceiros que já estão no projeto há muito tempo.
O que Ricardo e Casagrande ganhariam com isso? Muito.
Em primeiro lugar, mais que conseguir a adesão de mais um forte partido, trata-se de retirar esse mesmo partido da frente adversária. Para Ricardo, agregar o PSD à sua coligação significaria, antes de tudo, tirá-lo da coligação de Pazolini – hoje, segundo a última pesquisa Quaest da Rede Gazeta, seu maior concorrente eleitoral, no cenário sem Paulo Hartung.
Na propaganda eleitoral gratuita, com a quarta maior bancada na Câmara dos Deputados (quase 50 parlamentares), o PSD assoma quase 1 minuto para os candidatos ao governo e ao Senado, por bloco de 10 minutos, segundo a estimativa de Renzo.
Isso sem falar no apoio de um político popular como o deputado Sérgio Meneguelli e o endosso pessoal do próprio Renzo, com a máquina da Prefeitura de Colatina, terceira maior cidade do Norte do Estado, também redirecionada em prol da campanha do atual governador.
Entre as dez cidades mais populosas do Espírito Santo, exceto Vitória, Colatina é, até o momento, a única cujo governante não está comprometido com a campanha de Ricardo.
“Para o Palácio Anchieta, esse é um acordo que vale ouro”, resume um aliado de Ricardo no MDB.
“Acho que é consenso de todos: onde o PSD estiver, o candidato a governador estará no 2º turno”, afirma Renzo, sem modéstia. “Tenho dois dos maiores ativos do Estado, que se chamam Paulo Hartung e Sérgio Meneguelli. Essas duas figuras de fato pesam na balança eleitoral, onde estiverem.”
Aqui estamos falando em hipótese, mas, se a migração do PSD para o palanque de Ricardo realmente se confirmar, será preciso separar essas “figuras”. Meneguelli na certa não terá a menor dificuldade em apoiar Ricardo e pedir seu segundo voto para Casagrande.
Mas será inimaginável a presença de Hartung em tal campanha. Mais provável que, nessa hipótese, o ex-governador se recolha, não participe da campanha no Espírito Santo e se concentre na eleição nacional e em suas atividades profissionais, baseadas há anos em São Paulo.
E como fica Rose de Freitas?
Para a viabilização desse arranjo com o PSD, quem pode acabar sendo sacrificada é Rose de Freitas (MDB), pré-candidata ao Senado. No momento, a ex-senadora ainda “segura” a segunda vaga na coligação liderada por Ricardo – até por falta de outro aliado disposto a encarar essa disputa.
Mas, reservadamente, estrategistas de Casagrande sempre se mantiveram abertos à possibilidade de avaliar alguma alternativa que surgisse de última hora e que pudesse ser politicamente mais vantajosa para a coligação governista.
Bem, essa oportunidade se apresenta agora, na figura de Sérgio Meneguelli. Para atrair o PSD, estará Ricardo Ferraço disposto a substituir Rose por Meneguelli como segundo candidato ao Senado, ao lado de Casagrande?
Uma coisa é certa: assim como Ricardo, Rose é do MDB, e esse sempre foi um “senão” para a candidatura da ex-senadora. Numa coligação tão ampla, com tantos partidos aliados, o MDB hoje ocupa duas candidaturas majoritárias. O argumento para demover Rose já está pronto, portanto.
Difícil será persuadir a ex-senadora disso.
A intenção de postergar ao máximo a escolha do segundo candidato ao Senado na chapa de Ricardo foi um dos fatores que levaram o MDB a adiar sua convenção para o dia 5, data limite do prazo.
Nessa disputa interna, o maior trunfo de Rose é a excelente relação mantida por ela com Baleia Rossi (presidente nacional do MDB) e outros dirigentes nacionais do partido, construída ao longo das décadas em que esteve no Congresso Nacional.
A direção nacional do MDB já até publicou na terça-feira (21), em seu Instagram, um post sobre a convenção no Espírito Santo mdestacando as candidaturas de Ricardo e também de Rose. Quase com o mesmo destaque.
A primeira-dama de Colatina
Na mesa de negociações com Ricardo, também entra a possibilidade de escalação de Lívia Vasconcelos (PSD), primeira-dama de Colatina, como candidata a vice do atual governador.
Por ora, o posto é disputado pelo Podemos e pela Federação União Progressista (com vantagem para esta última, até pelo seu porte bem maior).
Mas o próprio presidente estadual da federação, Josias da Vitória (PP), tem operado nos bastidores como um dos incentivadores do ingresso do PSD no movimento governista. Da Vitória é pré-candidato à reeleição na Câmara dos Deputados, aliado de Renzo e, com isso, também tende a ver a própria campanha a deputado fortalecida em seu próprio reduto, Colatina.
É uma hipótese ainda bem distante, mas, supondo que Lívia se torne companheira de chapa de Ricardo, será uma situação das mais insólitas: há meses, ela vinha sendo tratada como uma das favoritas para ocupar a mesma posição, mas na chapa de Pazolini.


