Por Vitor Vogas / SIM NOTÍCIAS / Foto-legenda: Lorenzo Pazolini, em discurso de despedida do cargo de prefeito na Câmara de Vitória / Crédito: Reprodução YouTube
“O que eles querem falar nós não queremos ouvir. O que eles querem falar não pode ser dito aqui abertamente.” Palavras do ex-prefeito de Vitória, em discurso na pousada de Manato, em Pedra Azul. Confira aqui nossa análise da fala e o que ela nos revela sobre a estratégia do pré-candidato do Republicanos
O ex-prefeito de Vitória Lorenzo Pazolini (Republicanos) tem moldado seu discurso eleitoral em eventos de pré-campanha pela Grande Vitória e pelo interior do Espírito Santo. Um importante exemplo foi dado por ele na noite da última quarta-feira (13), na pousada do ex-deputado federal Carlos Manato (Republicanos), um de seus apoiadores, em Pedra Azul. Diante de representantes da política e da sociedade civil organizada da região, o pré-candidato a governador fez uma fala contundente.
Sem citar nomes, o ex-prefeito rebateu alegações recorrentes de que ele não seria um “homem do diálogo”. Assumiu com força o discurso anticorrupção. E deixou algumas farpas em oponentes não especificados.
“Dizem: ‘O Pazolini não dialoga. Pazolini não conversa. Pazolini não quer ouvir’. Mas o que eles querem falar nós não queremos ouvir”, afirmou o ex-prefeito, sob aplausos.
E prosseguiu:
“O que eles querem falar não pode ser dito aqui abertamente neste salão. Fica fechado dentro de sala, nas noites, nas madrugadas, nos encontros secretos e sigilosos que nós sabemos que acontecem. A preocupação deles não é o povo. A preocupação deles são projetos pessoais, resolver a vida de A, de B, de C, de D… O povo não é lembrado nem no Z do alfabeto.”
A estratégia discursiva: como ler as palavras de Pazolini?
Em primeiro lugar, Pazolini sinaliza que pretende entrar na campanha investindo na imagem de “honestidade a toda prova” – intenção que já indicara, aliás, em seu “discurso de despedida” do cargo, durante a posse da sucessora, Cris Samorini (PP), na Câmara de Vitória, no dia 6 de abril.
Na ocasião, ele chegou a exibir as duas mãos abertas, no gesto clássico de “incorruptibilidade”, e “legendou” o próprio gesto dizendo: “Saio da Prefeitura de Vitória com as duas mãos limpas! Da forma como entrei, eu estou saindo!”
Em segundo lugar, Pazolini, com essa fala, procura estabelecer um contraponto às críticas de setores da política capixaba, sobretudo adversários, segundo os quais ele “não dialoga” e tem dificuldade de articulação política. Rechaça, ainda, a pecha de homem público isolado, centralizador e individualista, frequentemente atribuída a ele por opositores.
Por fim, no mesmo embalo, o ex-prefeito de Vitória deixa uma alfinetada em potenciais rivais eleitorais (de novo: ele não nominou ninguém), sugerindo que “eles”, ao contrário dele próprio, não teriam preocupação real com o povo e seriam dados a acordos e negociações que não podem ser trazidas a público. Insinua, assim, a existência de postura não republicana… por parte de quem? Por parte “deles”. O sujeito da oração de Pazolini não foi identificado. Coube no pronome “eles”.
Das palavras do ex-prefeito de Vitória, pode-se depreender uma contraposição na linha “eu versus eles”, ou “nós versus eles”, cindidos por um critério ético.
Sob anonimato, um estrategista de Pazolini confirma à coluna que o objetivo do discurso é esse mesmo:
“O contexto da declaração é justamente rebater a ideia de isolamento político. Pazolini reposiciona o conceito de diálogo, afirmando que sua prioridade não é o diálogo baseado em acordos de bastidores, troca de favores ou composição voltada exclusivamente para interesses eleitorais e políticos. Na fala apresentada por ele, existe uma separação clara entre o diálogo republicano, institucional e voltado ao interesse coletivo; e a política tradicional baseada em negociações que não geram benefícios reais para a população”, explica o membro do staff de Pazolini, que não se inclui naquele “eles” dito pelo pré-candidato, mas prefere também não ser identificado.



