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Vitória e o mito do “ar mais limpo”

Por Eraylton Moreschi Junior, presidente da Juntos SOS Ambiental / Foto: Lucas Costa (Ales)

Divulgar que Vitória é uma das capitais brasileiras com o “ar mais limpo” para se viver é uma afronta aos seus moradores.

Há pelo menos 50 anos, partículas minúsculas de ferro invadem diariamente as casas da população de Vitória (ES). O chamado pó preto é uma mistura de partículas de minério de ferro, carvão e outros metais pesados, que se dispersam principalmente durante os processos industriais de beneficiamento e refino realizados por grandes empresas instaladas na região.

Apesar dos impactos contínuos, o plano de governo do prefeito reeleito não apresenta nenhuma solução concreta para o enfrentamento desse problema histórico.

O ar de Vitória carrega diariamente partículas sedimentáveis (PS) — o pó preto — que roubam saúde, reduzem a qualidade de vida da população e causam impactos negativos aos ecossistemas urbanos e costeiros. Ainda assim, o principal vilão da qualidade do ar na capital não é considerado no cálculo oficial do Índice de Qualidade do Ar (IQAr).

O que é o IQAr e suas limitações

O Índice de Qualidade do Ar (IQAr) é um valor numérico adimensional que varia de 0 a 400, calculado a partir de funções lineares descontínuas distribuídas em cinco faixas de classificação da qualidade do ar.

Os valores de referência utilizados no cálculo se baseiam nos valores-guia da Organização Mundial da Saúde (OMS – 2021) e nos padrões nacionais estabelecidos pela Resolução Conama nº 506/2024.

Os poluentes considerados no IQAr são:

  • Material particulado inalável (MP10)

  • Material particulado fino (MP2,5)

  • Ozônio (O₃)

  • Monóxido de carbono (CO)

  • Dióxido de nitrogênio (NO₂)

  • Dióxido de enxofre (SO₂)

A divulgação do IQAr se baseia no pior resultado entre os poluentes monitorados em cada estação. A metodologia segue o Guia Técnico de Qualidade do Ar do Ministério do Meio Ambiente (2025).

Atualmente, o Espírito Santo conta com duas Redes Automáticas de Monitoramento da Qualidade do Ar (RAMQAr) responsáveis por medir esses parâmetros e estimar o índice.

A grande omissão

Apesar de todo esse aparato técnico, as partículas sedimentáveis (PS), responsáveis pelo pó preto que afeta diretamente a população de Vitória, não entram no cálculo do IQAr. Isso cria uma falsa percepção de boa qualidade do ar e invisibiliza um problema ambiental crônico que compromete a saúde pública e o meio ambiente.

Enquanto o pó preto continuar fora dos indicadores oficiais, qualquer propaganda sobre “ar limpo” em Vitória será, no mínimo, enganosa.

Vitória e o mito do “ar mais limpo”