Por Fabiana Tostes / FOLHA VITÓRIA / Foto-legenda: Anúncio da filiação de Amaro Neto ao PP / Crédito: Divulgação)
Os deputados federais Amaro Neto e Messias Donato anunciaram a saída do partido, numa articulação que contou com o Palácio Anchieta
O Republicanos, partido que no Estado constrói um projeto de oposição ao atual grupo que comanda o Palácio Anchieta, sofreu nesta quinta-feira (26) duas baixas importantes em seus quadros e um duro golpe na engrenagem de sua estratégia eleitoral.
Os dois deputados federais do partido – Amaro Neto e Messias Donato –, cotados para disputar a reeleição pelo Republicanos e dar musculatura à chapa federal, anunciaram que estão de saída da legenda.
E não se trata apenas de uma troca partidária – o que será visto com certa frequência entre muitos atores políticos daqui até abril.
Os dois desembarcam justamente em partidos que integram a base aliada do governador Renato Casagrande (PSB), que defendem um projeto político oposto ao do Republicanos.
A migração teve uma forte operação nos bastidores, uma ofensiva que contou não só com as digitais, mas com “muitas mãos” do governo do Estado – uma resposta à recente movimentação de aproximação entre os prefeitos de Vila Velha, Arnaldinho Borgo (PSDB); de Vitória, Lorenzo Pazolini (Republicanos); e de Colatina, Renzo Vasconcelos (PSD).
“Ajudar o nosso Estado”
Amaro vai integrar as fileiras do PP, conforme anúncio já feito na tarde de ontem (26), na sede estadual do partido. A mudança, de fato, deve ocorrer durante o período da janela partidária – que começa no próximo dia 6 – mas já está consolidada.
Ao falar sobre o novo abrigo partidário, Amaro apontou para o novo projeto político que pretende abraçar e também deu algumas alfinetadas – sem citar destinatários:
“Estou muito feliz, não se trata apenas de uma mudança de partido, mas sim uma escolha pelo futuro do Espírito Santo. Nada melhor do que estar ao lado de quem se dispõe a dialogar e fazer política para ajudar o nosso Estado. Então, me junto à federação União Progressista pela convergência de boas ideias, ao lado das lideranças que tão bem nos acolheram”.
O deputado estava filiado ao Republicanos desde 2018, quando disputou e foi eleito pela primeira vez à Câmara Federal. Na ocasião, foi o parlamentar mais votado (181.813 votos) da bancada federal capixaba.
Em 2022, foi reeleito – com uma votação bem menor (52.375 votos), mas ainda assim relevante para qualquer chapa federal.
A mudança pegou o mercado político de surpresa. Primeiro por ter sido construída nos bastidores, em sigilo. Segundo por ter envolvido a cúpula do Palácio Anchieta e até um prefeito do próprio Republicanos.
Ao falar sobre o novo quadro do partido, o presidente do PP e da federação União Progressista, deputado Da Vitória, revelou que a construção contou com a ajuda do vice-governador, Ricardo Ferraço (MDB) – pré-candidato ao governo do grupo que agora Amaro faz parte.
“A federação União Progressista fica muito feliz pela decisão do Amaro de vir para somar no nosso projeto. Essa é uma construção que estamos fazendo há tempo e contou com a participação do vice-governador Ricardo Ferraço”, afirmou.
Em sua vez de falar, Ricardo, que estava presente na sede do PP, citou o prefeito de Guarapari, Rodrigo Borges (Republicanos), como aliado na articulação.
“Estamos aqui para comemorar essa construção, que é fruto do diálogo, que contou com a participação também do prefeito Rodrigo Borges, que não se cansa de falar da ajuda do Amaro para ele chegar à Prefeitura de Guarapari”.
Rodrigo está de saída do Republicanos e deve ingressar no PP ou no União Brasil. No ato que apresentou Amaro no novo partido, também foram anunciadas as filiações, ao PP, dos prefeitos de Iconha, Gedson Paulino (Republicanos); de Jerônimo Monteiro, Zé Valério (PSD); e de Mimoso do Sul, Peter Costa (Republicanos).
Ou seja, o Republicanos perdeu, num único dia, dois deputados federais e três prefeitos – ou quatro, se for considerado que o PSD faz parte do mesmo grupo. Um revés significativo para quem está construindo um projeto majoritário no Estado.
“Jamais agirei com ingratidão”

Messias Donato e Euclério Sampaio (foto: Instagram)
Messias Donato também anunciou ontem sua saída do Republicanos. Ele estava no partido desde 2022, quando foi eleito à Câmara Federal com 42.640 votos.
Seu futuro abrigo partido ainda não foi definido, mas tudo indica que ele se filiará ao Podemos ou ao União Brasil. A decisão será tomada juntamente com o prefeito de Cariacica, Euclério Sampaio (MDB), de quem Messias é aliado.
Messias sempre deixou claro que sua prioridade seria caminhar em consonância com Euclério – mesmo integrando um partido de oposição ao grupo do qual o prefeito de Cariacica faz parte.
Na última entrevista que deu para a coluna De Olho no Poder, na série “Cidades e Desafios”, Euclério não chegou a defender que Messias deixasse o Republicanos. Disse apenas que o aliado iria apoiar Ricardo ao governo, onde estivesse filiado.
A entrevista, porém, foi anterior à aproximação entre o prefeito de Vila Velha, Arnaldinho Borgo (PSDB), e Pazolini, e a um episódio ocorrido nos últimos dias que pode ter sido a gota d’água para a decisão de Messias de deixar o Republicanos.
No início da semana, o deputado estadual Alcântaro Filho (Republicanos) fez um vídeo criticando uma fala de Euclério durante um culto num congresso evangélico que contou com a presença do governador e do vice.

Alcântaro postou vídeo com críticas a Euclério (foto: reprodução/Instagram)
Questionado pela coluna sobre o motivo de ter deixado o Republicanos, Messias deu a entender que o episódio somou para a decisão.
“O Republicanos me deu segurança para ter independência na Câmara dos Deputados. Porém, aqui no Espírito Santo, tenho uma relação de amizade e gratidão ao prefeito Euclério Sampaio que vai além da política e o Republicanos entrou em rota de colisão com o meu principal aliado”, afirmou.
Messias disse que dialogou com o presidente nacional da legenda, Marcos Pereira, e que ele teria compreendido sua decisão. “Jamais agirei com ingratidão ou trairei um parceiro que sempre me estendeu a mão, que é o prefeito Euclério Sampaio”.
A reação do Republicanos

Tão logo os anúncios de desfiliações vieram à tona, o presidente estadual do Republicanos, Erick Musso, tratou de mostrar, nas redes sociais, a reação do partido.
Postou uma foto com a vice-prefeita de Guarapari, Tatiana Perim (Republicanos), e anunciou que ela é pré-candidata à deputada federal. Tatiana faz oposição ao prefeito Rodrigo Borges, com quem rompeu no final do ano passado.
No mesmo município, Erick também filiou o ex-deputado estadual Carlos Von, que deve entrar na chapa estadual para tentar voltar à Assembleia.
Erick é pré-candidato a deputado federal e para fortalecer a chapa – que também conta com Alexandre Ramalho e Soraya Manato, secretários na gestão Pazolini – poderia “subir” com o deputado estadual Pablo Muribeca (Republicanos).
A princípio, o deputado seria candidato à reeleição, mas à luz dos últimos acontecimentos, poderia ser escalado para integrar a chapa federal no lugar dos desertores. Muribeca foi candidato a prefeito e passou para o segundo turno no maior colégio eleitoral do Estado (Serra).
Ainda assim, o Republicanos precisará de mais nomes com capilaridade para uma votação de médio porte, para fechar a chapa e ir para o jogo. Do contrário, corre o risco de entrar na disputa fragilizado, sem densidade eleitoral suficiente para transformar votos em cadeiras.
E o pior: sem uma chapa proporcional competitiva, o prejuízo não se limita à bancada federal – pode atingir em cheio o projeto majoritário da legenda, fazendo com que a disputa ao governo do Estado perca musculatura operacional.
Procurado pela coluna, Erick disse que o partido não se manifestaria a respeito das desfiliações.
Em tempo: o secretário estadual da Agricultura, Enio Bergoli, que já tinha informado à coluna que sairia do PSDB – após a mudança de comando da sigla –, confirmou ontem que se filiará ao PP para disputar a Câmara Federal. Ele esteve presente no anúncio de filiação de Amaro.