Por Eraylton Moreschi Junior, presidente da Juntos SOS Ambiental / Foto: Lucas Costa (Ales)
A Plenária Capixaba garantiu espaço democrático para que a JUNTOS SOS ES Ambiental apresentasse ao cidadão capixaba contestação e esclarecimentos técnicos e científicos acerca de informações veiculadas no telejornal Boa Noite ES, exibido em 01 de janeiro de 2026, pela Rede Gazeta, na reportagem intitulada “Pó Preto na Grande Vitória”.
A solicitação de direito de contestação foi motivada por declarações consideradas desprovidas de fundamentação técnica e científica, além de marcadas por negacionismo ambiental, atribuídas ao secretário estadual de Meio Ambiente.
A colaboração mútua e o respeito ao contraditório são essenciais para o fortalecimento da comunicação responsável e do debate público qualificado, especialmente em temas que envolvem saúde pública, meio ambiente e qualidade de vida.
Impactos do pó preto na saúde da população
A reportagem afirma que o pó preto é apenas um incômodo visual. Contudo, a realidade vivida pela população da Grande Vitória é distinta.
Vitória é conhecida popularmente como a “capital das doenças terminadas em -ite”, expressão que reflete um grave problema de saúde pública associado à poluição atmosférica. Estudos científicos e profissionais da saúde relacionam diretamente o material particulado — conhecido como pó preto — ao aumento de doenças inflamatórias, entre elas: Rinite, Sinusite, Bronquite, Amigdalite, Faringite e Otite
Além disso, a exposição crônica à poluição do ar agrava doenças como asma e DPOC, eleva o risco de doenças cardiovasculares e está associada ao câncer de pulmão. Pesquisas indicam ainda maior incidência de alergias em crianças e adolescentes da Grande Vitória quando comparada a outras regiões.
Monitoramento da qualidade do ar e inconsistências nos índices oficiais
Embora o IEMA afirme que 98% da qualidade do ar é classificada como “boa”, esse dado não reflete a realidade percebida pela população.
Isso ocorre porque o Índice de Qualidade do Ar (IQAR) não considera a poeira sedimentável (pó preto) em seu cálculo. Pesquisa de satisfação conduzida por mestres e doutores da UFES demonstrou que níveis de 10 g/m² em 30 dias incomodam cerca de 73% da população capixaba.
O pó preto é composto majoritariamente por partículas de minério de ferro, carvão e metais pesados, oriundas principalmente do Complexo de Tubarão (Vale e ArcelorMittal), configurando um problema ambiental crônico da Região Metropolitana da Grande Vitória.
Sobre a falsa afirmação de que o pó preto “não faz mal à saúde”
A declaração do secretário estadual de Meio Ambiente de que o pó preto “não faz mal à saúde porque sedimenta” revela desconhecimento técnico.
Tudo o que sedimenta esteve anteriormente em suspensão. Estudos demonstram que 95% das partículas do pó preto são inaláveis, sendo os grãos visíveis aglomerados de nanopartículas.
Pesquisa conduzida pela cientista Iara de Matos (2016, com complementações em 2020) comprovou que, em ambientes úmidos — como os pulmões — 100% desses aglomerados se dissociam em partículas menores, capazes de penetrar e serem absorvidas pelas células humanas.
Além disso, o pó preto sofre:
Ação hídrica, com transporte para corpos d’água e redes pluviais;
Ação eólica, com ressuspensão, retornando ao ar e sendo novamente inalado.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece o material particulado como a maior ameaça ambiental à saúde humana, responsável por milhões de mortes prematuras todos os anos.
Ineficiência dos Termos de Compromisso Ambiental (TCAs)
Os Termos de Compromisso Ambiental firmados em 2018 entre governo, empresas e Ministério Público não alcançaram a redução esperada da poluição, especialmente em condições climáticas adversas.
A JUNTOS SOS ES Ambiental destaca que:
Os TCAs se mostraram ineficientes e ineficazes;
Há desconhecimento público sobre o cumprimento das NRs 005, 006 e 007;
Os acordos foram utilizados para encerramento de Ações Civis Públicas sem solução definitiva do problema.
A entidade recomenda que órgãos públicos exijam medidas efetivas de contenção das emissões, com rigor no cumprimento das legislações estadual e municipal, garantindo saúde, qualidade de vida e proteção dos ecossistemas.
Greenwashing e inconsistências nos dados das empresas
A ArcelorMittal reconhece sua responsabilidade ambiental, mas a Vale afirma redução de 93% das emissões sem certificação ou acreditação independente dos dados pelo IEMA.
Importante destacar que essa meta de redução de 93% já havia sido anunciada em 2018, com prazo até 2023, e foi contestada à época por organizações ambientais por falta de comprovação técnica.
A JUNTOS SOS ES Ambiental agradece à Plenária Capixaba pelo espaço de esclarecimento ao cidadão capixaba.
O pó preto impacta diretamente a saúde, a qualidade de vida da população e os ecossistemas periféricos, e não pode ser tratado com superficialidade ou negacionismo.