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Os segredos de Evair de Melo na votação para o Senado

Os segredos de Evair de Melo na votação para o Senado

Por Vitor Vogas / A GAZETA / Foto-legenda: Sabatina CBN com Evair de Melo, candidato ao Senado Federal / Crédito: Fernando Madeira / Arte: IA

Surpreendendo pela arrancada final, o deputado Evair de Melo (Rep) foi um dos maiores vencedores das eleições parlamentares no ES. Analisando os dados do TSE, mostramos o que explica sua ótima performance, para além do evidente impulso da nova onda bolson.

Surpreendendo pela arrancada final, o deputado Evair de Melo (Rep) foi um dos maiores vencedores das eleições parlamentares no Espírito Santo, no último dia 4. Com quase 1 milhão de votos (24,39% dos válidos), elegeu-se senador como o segundo mais votado no Estado. Por muito pouco não chegou em 1º lugar, ficando a apenas 12,4 mil votos do ex-governador Renato Casagrande (PSB).

O que explica esse sucesso de Evair nas urnas?

Em primeiro lugar, pesou obviamente o vento (ou tufão) bolsonarista. A mesma onda que empurrou tantos candidatos do PL Brasil afora também impulsionou Evair, que, mesmo não sendo do PL, é um parlamentar sabidamente bolsonarista e muito identificado com o ex-presidente Jair Bolsonaro. Mas isso ainda explica pouco.

Se a explicação se resumisse à nova onda de extrema direita, a verdadeira candidata do PL, Maguinha Malta, teria tido tantos votos quanto ele ou até mais votos que Evair – e, no entanto, teve 221,2 mil a menos. Houve muitos votos casados em ambos, por parte, presumivelmente, dos eleitores mais bolsonaristas. Mas houve também muitos eleitores que votaram em Evair, mas não em Maguinha.

O primeiro segredo de Evair é um “voto invisível”, que não aparece muito nas redes sociais, mas que está espraiado pelo interior do Espírito Santo e que tem muito a ver com sua profunda conexão com a agricultura capixaba, cultivada desde os tempos em que presidiu o Incaper: o voto da roça, do homem do campo, do produtor rural.

Na verdade, Evair quase venceu no mesmo número de cidades que Casagrande. Isoladamente, Casagrande foi o mais votado em 39 municípios; Evair, em 38. Já na pequena Divino de São Lourenço, os dois dividiram a 1ª posição, com 1.923 votos para cada um.

Na Grande Vitória, porém, Evair só ganhou em Guarapari. Nos outros seis municípios da região, Casagrande prevaleceu. Em Vila Velha e Vitória, a diferença até foi pequena. Mas, em Viana, Serra e Cariacica, o ex-governador ganhou por muito.

Por outro lado, se excluirmos da conta a Região Metropolitana, Evair foi o candidato mais votado no interior do Estado. Das 71 cidades interioranas, ele venceu isoladamente em 37, incluindo Linhares, Colatina e Cachoeiro de Itapemirim (cidades que se consolidaram como colégios eleitorais bolsonaristas nos últimos anos). Dos quatro municípios mais populosos do interior, Casagrande só ganhou em São Mateus.

Evair venceu em quase todas as cidades da Região Serrana (tanto a Central Serrana como a Sudoeste Serrana). É a região de onde ele vem e é também um bolsão bolsonarista. O deputado também dominou as regiões do Caparaó, Central Sul e Litoral Sul.

Mas o que mais chama a atenção na performance de Evair é a pulverização de seus votos e a sua altíssima regularidade. Ele não só foi o candidato mais votado no interior como foi bem votado em praticamente todas as cidades, das menores às maiores.

Evair ficou entre os dois candidatos mais votados em 76 dos 78 municípios capixabas. As duas exceções foram Apiacá, na divisa com o Rio de Janeiro, e Conceição da Barra, na divisa com a Bahia. Nas duas cidades, Casagrande foi o mais votado, e o senador Fabiano Contarato (PT) chegou em 2º.

Nem Casagrande conseguiu tamanha regularidade. O ex-governador chegou em 3º ou até em 4º lugar em um número maior de cidades. Em alguns municípios altamente permeáveis ao bolsonarismo, Casagrande chegou atrás de Evair e também de Maguinha.

Isso ocorreu, por exemplo, em Linhares, Domingos Martins, Santa Maria de Jetibá e Venda Nova do Imigrante, terra natal de Evair, onde Flávio Bolsonaro (PL) teve 72,23% dos votos válidos no 1º turno para presidente. Também ocorreu em Iúna e Irupi (no Caparaó), em Guarapari e em cidades do Litoral Sul, como Marataízes, Itapemirim e Rio Novo do Sul.

Em Colatina, Casagrande registrou sua pior colocação: com 17,90% dos votos válidos, chegou em 4º lugar, atrás de Evair (26,56%), Maguinha (20,94%) e Sérgio Meneguelli (18,20%).

Vantagem sobre Maguinha construída no interior

O cruzamento dos dados nos dá outro indicativo de como a vantagem de Evair sobre Maguinha foi construída no interior: o voto do campo, não necessariamente ideológico, ou não estritamente ideológico, que ele tem, mas ela não.

Comparemos os resultados de ambos na Grande Vitória.

Na Serra, Evair obteve 92.510 votos (19,46% dos válidos); Maguinha, 91.789 votos (19,31% dos válidos). Quase a mesma marca. Como podemos deduzir, foi o voto casado do bolsonarismo, movido exclusivamente pelo critério ideológico.

Algo muito parecido se deu em Cariacica, onde Evair alcançou 70.198 votos (19,34% dos válidos), enquanto Maguinha recebeu 67.844 (18,69% dos válidos). De novo: basicamente, o voto casado.

De igual modo, em Viana, a votação dos dois foi muito parelha: 14.881 votos para Evair (19,93% dos válidos), contra 14.672 para Maguinha (19,65% dos válidos).

Em toda a Grande Vitória, Evair teve 406.988 votos (21,01% dos válidos), enquanto Maguinha teve 376.463 (19,44% dos válidos). O deputado só teve 30 mil votos a mais que a filha de Magno na região.

Já no interior (descartando-se os sete municípios da Grande Vitória), Evair conquistou 575.990 votos (27,51% dos válidos), enquanto Maguinha só obteve 385.259 (18,40% dos válidos). Foram 190 mil votos a mais.

 

Evair de Melo e Maguinha

Evair de Melo e MaguinhaReprodução do Instagram

 

As alianças estratégicas de Evair

Certamente também contaram muito a favor de Evair as alianças que ele estabeleceu com aliados históricos de Casagrande, de certo modo tirando-os do ex-governador: Da Vitória (PP), Gilson Daniel (Podemos) e Marcelo Santos (União).

Os três foram candidatos a deputado federal. Os três têm ramificações políticas pelo interior do Estado. Os três conseguiram se eleger para a Câmara dos Deputados – os dois primeiros se reelegeram com mais de 100 mil votos.

Foram três verdadeiros vazamentos no palanque de Casagrande. Chateados com o ex-governador, por julgarem que ele concentrou esforços na campanha de Manu Pedroso (PSB) – também eleita deputada federal –, Da Vitória, Gilson e Marcelo, que presidem os respectivos partidos no Espírito Santo, não fizeram campanha em prol de Casagrande para o Senado.

Em vez disso, fizeram parceria com Evair, adversário político de Casagrande.

Vejam, por exemplo, como o candidato do Republicanos foi bem votado em cidades do Caparaó, onde Gilson é muito influente, assim como em Colatina e cidades vizinhas, reduto de Da Vitória.

O apoio de Pazolini

A favor de Evair também contou, sobretudo em Vitória, o apoio da prefeita Cris Samorini (PP) e, principalmente, o de Lorenzo Pazolini (Rep), candidato a governador e correligionário de Evair. Na Capital, ele ficou atrás de Casagrande por 7,2 mil votos, mas teve 17,8 mil votos a mais que Maguinha.

 

O deputado federal Evair de Melo, o candidato ao governo Lorenzo Pazolini e o presidente estadual do Republicanos, Erick Musso, em convenção do partido

O deputado federal Evair de Melo, o candidato ao governo Lorenzo Pazolini e o presidente estadual do Republicanos, Erick Musso, em convenção do partidoVitor Vogas

 

O apoio de Hartung

Em alguma medida, pode também ter contado o apoio do ex-governador Paulo Hartung (PSD), que chegou a gravar declaração de apoio para Evair. Foi o único candidato explicitamente apoiado por Hartung nesta campanha estadual, até agora.

 

Paulo Hartung declarou apoio a Evair de Melo para senador do ES

Paulo Hartung declarou apoio a Evair de Melo para senador do ES – Reprodução

 

A doída derrota de Casagrande em casa

No município de Castelo, sua terra natal, Casagrande ficou muito atrás de Evair. O candidato do Republicanos atingiu 40,27% dos votos válidos na cidade, quase o dobro dos 20,36% obtidos pelo ex-governador. Com 19,54%, Maguinha não chegou em 2º lugar por pouco.

Nos últimos pleitos, Castelo também tem se firmado como um reduto ultraconservador.

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