Por Vitor Vogas / ES 360 / Foto: Arnaldinho discursa durante evento (26/03/2025) / Crédito: reprodução Instagram
Contraofensiva do Palácio Anchieta, com anúncio de Casagrande em favor de Ricardo Ferraço, colocou em risco a posição do prefeito e em xeque a manutenção de sua pré-candidatura. Arnaldinho reagiu na segunda de maneira mais elabora. Analisamos aqui sua reação por escrito.
Este foi o ano em que Arnaldinho Borgo (PSDB) se estabeleceu, por assim dizer, como um “articulista”. Ao longo de 2025, o prefeito de Vila Velha publicou três artigos no site A Gazeta, compartilhados por sua assessoria de imprensa, sempre em momentos cruciais de sua maratona para se candidatar a governador do Espírito Santo.
No primeiro, publicado em junho, lançou sua pré-candidatura. No segundo, poucas semanas depois, buscou consolidar-se como um player na disputa. No terceiro, publicado na segunda-feira (22), quatro dias após o governador Renato Casagrande (PSB) anunciar Ricardo Ferraço (MDB) oficialmente como seu pré-candidato à sucessão, o prefeito reagiu e reafirmou que segue vivo no páreo.
A blitzkrieg de Arnaldinho para assumir a presidência estadual do PSDB gerou um abalo no Palácio Anchieta e um grande risco de abalo na pré-candidatura de Ricardo Ferraço. Antes que o aliado/concorrente pudesse crescer no jogo e que a pré-candidatura de Ricardo pudesse ser colocada em dúvida por parte do mercado político, o Palácio se apressou e, tirando uma tonelada das costas, Casagrande fez o anúncio oficial – segundo ele, de maneira “final” e “definitiva”. Aí a situação se inverteu, e foi a vez de Arnaldinho se ver sob pressão. A contraofensiva do Palácio colocou em risco a posição do prefeito e em xeque a manutenção de sua pré-candidatura.
Era preciso responder rapidamente, e Arnaldinho assim fez. Num primeiro momento, ato contínuo ao anúncio de Casagrande, fez um post em suas redes sociais no qual procurou mostrar que ele mesmo não se deixou abalar e que a opção do governador por Ricardo em nada abala suas pretensões eleitorais. “A decisão sobre quem vai dar continuidade aos bons governos dos últimos 24 anos, de Paulo Hartung e de Renato Casagrande, será do povo, no dia 4 de outubro.”
Foi um primeiro curativo, um torniquete.
Quatro dias depois, veio o terceiro artigo do ano, intitulado “Renovação com experiência: o caminho que os capixabas apontam”. É uma resposta mais extensa e elaborada ao movimento do Palácio. Do texto, extraímos quatro destaques:
1. Arnaldinho segue inabalável (indomável, diriam alguns) em sua marcha rumo ao registro da candidatura em agosto de 2026, mesmo sem o apoio de Casagrande.
“A política só faz sentido quando está a serviço das pessoas. É com essa convicção que sigo firme na minha pré-candidatura a governador do Espírito Santo, movido por um sonho claro e legítimo: servir ainda mais aos capixabas e ajudar a construir um futuro melhor para o nosso Estado.”
2. O prefeito continua a se considerar um aliado e parceiro político do governador, o que se lê de maneira límpida neste trecho:
“Tenho uma relação política e administrativa sólida com o governador Renato Casagrande, construída ao longo de anos de trabalho, diálogo institucional e convergência em pautas essenciais para o desenvolvimento de Vila Velha e do Espírito Santo. Essa relação permanece baseada no respeito institucional e no compromisso com o bem coletivo”.
A afirmativa é muito importante para conter, ou “dar uma segurada”, numa primeira leitura apressada dada por alguns a seu post do dia 18: a de que sua insistência em se manter no páreo mesmo após o anúncio de Casagrande significaria um rompimento político do prefeito com o governador, ou poderia assim ser interpretada.
3. Terceiro e mais importante: é muito sintomático que, em nada menos que três passagens de um artigo relativamente curto, Arnaldinho tenha feito questão de reiterar a mensagem de que sua pré-candidatura não consiste em um projeto solo (ou “pessoal”, ou “individual”, adjetivos efetivamente usados por ele). Transcrevemos os trechos em questão:
. Preservar esse legado, aprimorá-lo e projetá-lo para o futuro é um compromisso com os capixabas – e não com projetos pessoais.
. […] sigo empenhado na construção de um projeto coletivo que nasce da escuta, da participação e da construção compartilhada. Não é um movimento individual, nem uma decisão isolada.
. Essa não é uma corrida individual. É uma jornada coletiva, que exige preparo, constância e espírito público.
Trata-se inequivocamente de resposta a Casagrande e a aliados do governador. Ao longo das últimas semanas, muitos destes, com maior ou menor reserva, têm manifestado críticas à obstinação de Arnaldinho em ser candidato a governador “a todo custo”, intensificadas por conta da maneira como o prefeito chegou ao comando local do PSDB – passando por cima de outros aliados governistas e à revelia do próprio Palácio Anchieta.
À boca pequena, alguns falam até em “ambição desmedida”. Medindo mais as palavras, o próprio governador exteriorizou essa visão interna de que a determinação férrea de Arnaldinho em manter a pré-candidatura em paralelo à de Ricardo poderia atender muito mais a um “projeto pessoal” que a um “projeto do grupo”:
“Projetos pessoais que não estejam em sintonia com o nosso projeto maior podem levar a fragilizar e enfraquecer o projeto maior. Então é bom que isso sempre esteja colocado na mesa para o debate”, discursou Casagrande, na presença de Ricardo e da militância do PSB, durante encontro estadual do seu partido, em Vila Velha, no último dia 7. Arnaldinho tinha acabado de chegar oficialmente à presidência estadual do PSDB.
A resposta de Arnaldinho veio agora, nas linhas do texto assinado por ele.
4. Esta, admitimos, é uma interpretação quiçá mais ousada, mas não passou despercebido aos nossos olhos, nem pode ter sido mera coincidência, o fato de que a palavra “responsabilidade” (com nuances de significado, mas sempre ela: “responsabilidade”) comparece nada menos que seis vezes, em seis diferentes parágrafos, em um texto de 582 palavras (menos de 4 mil caracteres). É muito.
Em três das seis aplicações, Arnaldinho refere-se a si mesmo; em outras duas, refere-se ao ciclo de governos de Casagrande e Paulo Hartung nos últimos 24 anos; numa delas, refere-se à “responsabilidade fiscal” que é uma das marcas de seu novo partido, o PSDB.
Ao lado da pecha de “impetuoso” e “ambicioso”, circula por círculos palacianos o adjetivo “irresponsável”.
Não falta quem pense que, com sua irredutibilidade, o prefeito de Vila Velha estaria sendo até “irresponsável”, na medida em que colocaria em risco a unidade do projeto de “preservação do legado de Casagrande” e perpetração desse grupo no poder, em benefício indireto de terceiros – adversários que agradeceriam por isso, como o prefeito de Vitória, Lorenzo Pazolini (Republicanos), e o ex-governador Paulo Hartung (PSD), por sinal citado positivamente por Arnaldinho em seu artigo, ao lado de Casagrande e no mesmo patamar que ele.
O artigo de Arnaldinho, de certo modo, também responde a isso. Abaixo, publicamos na íntegra o texto do prefeito, pondo em negrito as aparições da palavra “responsabilidade”.
Renovação com experiência: o caminho que os capixabas apontam
A política só faz sentido quando está a serviço das pessoas. É com essa convicção que sigo firme na minha pré-candidatura a governador do Espírito Santo, movido por um sonho claro e legítimo: servir ainda mais aos capixabas e ajudar a construir um futuro melhor para o nosso Estado.
Nos últimos 24 anos, o Espírito Santo avançou com estabilidade, responsabilidade e planejamento, sob a liderança de Paulo Hartung e de Renato Casagrande. Preservar esse legado, aprimorá-lo e projetá-lo para o futuro é um compromisso com os capixabas – e não com projetos pessoais.
Tenho uma relação política e administrativa sólida com o governador Renato Casagrande, construída ao longo de anos de trabalho, diálogo institucional e convergência em pautas essenciais para o desenvolvimento de Vila Velha e do Espírito Santo. Essa relação permanece baseada no respeito institucional e no compromisso com o bem coletivo.
Ao mesmo tempo, sigo empenhado na construção de um projeto coletivo que nasce da escuta, da participação e da construção compartilhada. Não é um movimento individual, nem uma decisão isolada. É uma caminhada construída passo a passo, a partir das conversas que já iniciamos com diferentes setores da sociedade e do contato direto com o cidadão comum, que diariamente manifesta apoio, carinho e incentivo, e que, a partir de agora, será ampliada para todas as regiões do Estado.
O que emerge dessas conversas – nas ruas, nas comunidades e nos diferentes espaços da sociedade – e também das pesquisas, é um recado claro dos capixabas: há desejo de renovação, mas sem abrir mão da experiência.
Governar é exercer liderança. Liderança que aponta caminhos, constrói confiança e une diferentes visões em torno de objetivos comuns. Liderar é garantir que o Espírito Santo siga avançando, com responsabilidade, visão de futuro e compromisso público.
Foi nesse contexto que aceitei o convite para me filiar ao PSDB, partido que passa a contribuir de forma ainda mais ativa nesse processo. Uma legenda que ajudou a estruturar o Brasil contemporâneo, com destaque para o Plano Real – um marco de estabilidade econômica que transformou a vida de milhões de brasileiros. Seus valores permanentes são a responsabilidade fiscal, o equilíbrio e o desenvolvimento com justiça social. À frente do partido no Espírito Santo, nosso foco é organizar, fortalecer e dialogar com a sociedade capixaba.
Essa pré-candidatura não se constrói contra ninguém. Ao contrário, contribui para fortalecer e dar continuidade ao projeto coletivo que vem conduzindo o Espírito Santo com responsabilidade ao longo das últimas décadas.
Sigo conciliando essa caminhada com a missão de governar Vila Velha, uma cidade reconhecida pela gestão fiscal responsável, pelos investimentos estruturantes, pela geração de empregos e pela melhoria da qualidade de vida. A experiência de Vila Velha demonstra que é possível fazer mais com planejamento, equilíbrio e sensibilidade social. E que boas práticas podem inspirar outros municípios e contribuir para o desenvolvimento do Espírito Santo, sempre respeitando as realidades, os desafios e as vocações de cada região.
A decisão sobre quem dará continuidade a esse ciclo de bons governos será do povo, no dia 4 de outubro. Até lá, sigo debatendo o presente e o futuro com responsabilidade, serenidade e compromisso com o bem comum.
Essa não é uma corrida individual. É uma jornada coletiva, que exige preparo, constância e espírito público. Com fé em Deus e na força do povo capixaba, confio que o Espírito Santo continuará avançando com trabalho, responsabilidade e participação social. Porque o futuro se constrói juntos – com liderança, compromisso e o engajamento de todos os capixabas.
Viva o Espírito Santo!
Arnaldinho Borgo
Prefeito de Vila Velha