Por Coluna Vitor Vogas / SIM NOTÍCIAS / Foto: Divulgação
Pragmatismo de Flávio pode levar PL ao palanque de Pazolini, enquanto Evair é mesmo priorizado por Jair Bolsonaro e Arnaldinho não está no radar do partido do ex-presidente
Em documento deixado em uma sala na sede do Partido Liberal (PL), em Brasília, vazado e publicado pela imprensa na última quarta-feira (25), o senador Flávio Bolsonaro expôs em que pé estão, no momento, as estratégias do partido para a construção dos palanques eleitorais em todos os estados brasileiros, incluindo o Espírito Santo.
Intitulado “Situação nos Estados”, o documento contém uma série de anotações feitas à mão pelo presidenciável do PL, após ter discutido estado por estado com líderes locais da legenda. Além das estratégias, o registro revela impasses regionais e a avaliação sobre alguns pré-candidatos.
Flávio confirmou a veracidade das anotações. Mas, para botar panos quentes, afirmou que os registros não expressam necessariamente sua posição pessoal e refletem “sugestões” recebidas em uma série de reuniões com senadores e deputados federais do PL ao longo da quarta-feira (25) – incluindo o senador Magno Malta, presidente do partido no Espírito Santo. O manuscrito gerou grande desgaste com aliados, e Flávio passou a quinta-feira (26) dando telefonemas para se desculpar com alguns deles.
Na seção do documento dedicada ao Espírito Santo, como candidato ao governo, consta o nome do prefeito de Vitória: “Lorenzo Pazolini (Rep)”.
Já no tópico “Senado”, dois nomes foram listados: Evair de Melo (hoje no PP) e Maguinha Malta (PL).
À mão, Flávio fez uma rasura, corrigindo o partido atribuído a Evair: riscou “(PL)” e mudou para “(PP)”. Do nome do deputado, puxou uma seta e escreveu “JB” (vinculando Evair diretamente ao pai, Jair Bolsonaro).
Flávio ainda registrou: “Conversa c/ Magno”.

Por meio de sua assessoria, Magno correu para desmentir qualquer definição de apoio ou candidatura (exceto a da sua filha Maguinha para o Senado, da qual ele não abre mão). “No que diz respeito ao Espírito Santo, é importante esclarecer que não procede o conteúdo divulgado em listas extraoficiais que circulam na internet.”
Em todo caso, as anotações vazadas nos levam a fazer três constatações: uma referente a Pazolini, outra a Evair e uma terceira relativa aos nomes ausentes da lista.
1. Pragmatismo de Flávio pode levar PL ao palanque de Pazolini
Desde abril do ano passado, Magno Malta admite a possibilidade de candidatura própria do PL a governador do Espírito Santo, em vez de uma aliança com Pazolini. Em críticas claramente endereçadas ao prefeito de Vitória, mesmo sem citar o nome dele, Magno se queixa da falta de posicionamentos públicos de Pazolini em defesa de Jair Bolsonaro.
No dia 22 de dezembro, em ato de pré-campanha em Vitória já como presidenciável do PL, o próprio Flávio Bolsonaro declarou, em entrevista coletiva, ao lado de Magno, que o partido teria “palanque completo” no Espírito Santo:
“A única certeza que eu tenho é que vamos caminhar com quem sempre caminhou com a gente. Essa é a diretriz aqui, e ainda vamos avaliar qual vai ser o cenário, mas temos tudo aqui para ter um palanque completo para disputar uma eleição em 2026 de forma muito competitiva e dando esperança para o nosso povo aqui no Espírito Santo”.
Surgiram muitas especulações e até desentendimentos entre mandatários do PL no Estado. Enquanto o deputado Gilvan da Federal, por exemplo, defendeu a filiação e o lançamento do ex-prefeito de Linhares Guerino Zanon, o vereador de Vitória Dárcio Bracarense defendeu com unhas e dentes que o próprio Magno seja candidato a governador.
Principalmente no tocante às declarações de Flávio, suas próprias anotações revelam que tudo pode não ter passado de um grande jogo de cena. Na verdade, na definição da estratégia do PL nacional para o Espírito Santo, o velho pragmatismo político pode estar a falar mais alto, em favor da tese de apoio a Pazolini. E Flávio entende de pragmatismo.
Carlos e Eduardo Bolsonaro engoliram e regurgitam a doutrina de Olavo de Carvalho. Podem ser considerados dois fanáticos do ponto de vista ideológico. Flávio, não. Sem renegar a cartilha do pai – carregada de delírios e teorias que contradizem fatos –, o primogênito de Jair é, de longe, o Bolsonaro mais pragmático, muito mais que os irmãos e o próprio pai.
Entre todos os membros do clã, o filho 01 é o “político” no sentido mais estrito: sabe “jogar o jogo”, articular-se para fora da bolha, praticar a “política real” (aquela que exige convívio, diálogo e acordos até com adversários, oportunamente, para atingir objetivos estratégicos). Tem uma visão, enfim, bem mais objetiva da política.
Ora, esse Flávio Bolsonaro na certa tem a consciência de que a chance maior de a “direita conservadora” chegar ao poder no Espírito Santo, hoje, repousa em Lorenzo Pazolini.
Segundo fontes do próprio partido, Magno no fundo não tem o desejo pessoal de ser candidato a governador. “Tem medo de ganhar”, diz um integrante do PL, com certa ironia. O senador nunca foi gestor de nada nem exerceu cargo no Poder Executivo. Desde os anos 1990, todos os seus mandatos foram parlamentares. Seu habitat é o Senado, onde ele se sente realizado e tem mais quase cinco anos de mandato.
O Republicanos de Pazolini é aliado nacional do PL – vide a aliança da sigla de Bolsonaro com o governador Tarcísio de Freitas, pré-candidato à reeleição em São Paulo. Em 2022, os dois partidos estiveram juntos na coligação de Jair Bolsonaro, derrotado por Lula (PT).
Além disso, sob a ótica do PL, na certa é muito melhor ver eventual chegada de Pazolini ao Palácio Anchieta do que, por exemplo, a de Ricardo Ferraço. A eleição do atual vice-governador representaria a continuação, no poder estadual, do grupo político de Renato Casagrande, numa coligação com o MDB de Ricardo, o PSB de Casagrande e outros partidos da base do governo Lula.
Declaradamente de direita, Pazolini nunca abraçou publicamente o bolsonarismo, não obstante um ou outro aceno (homenagem à então ministra Damares Alves enquanto era deputado estadual; um post no ano passado defendendo a anistia a participantes dos atos golpistas de 8 de janeiro e criticando, nas entrelinhas, a postura do STF).
Será bem interessante conferir, nos próximos meses:
a) até que ponto esse pragmatismo do herdeiro político de Bolsonaro poderá impelir o PL a subir no palanque de Pazolini numa coligação com o Republicanos no Espírito Santo;
b) até que ponto o próprio Pazolini está disposto a fazer concessões e, para ter o apoio do PL, completar o abraço no bolsonarismo, inclusive pedindo votos para Flávio (como o PL há de querer);
c) até que ponto a polarização presidencial entre o lulismo e o bolsonarismo terá influência na disputa estadual.
A tal “conversa c/ Magno”, planejada por Flávio Bolsonaro, certamente passa por isso.
A “cola” de Flávio, enfim, pode colar o PL a Pazolini… Vamos ver se cola.

2) Evair é mesmo priorizado por Jair Bolsonaro
Já no fim de 2024, o deputado Evair de Melo (apoiador, vale lembrar, de Pazolini), foi citado pelo próprio Jair Bolsonaro, em entrevista a um podcast, como o preferido dele para ser candidato a senador no Espírito Santo.
O deputado de terceiro mandato foi um dos primeiros capixabas a embarcar na primeira campanha de Bolsonaro à Presidência, já em 2017. No governo Bolsonaro, foi um dos seus vice-líderes na Câmara Federal.
A anotação à mão de Flávio, com uma seta apontando para “JB” (Jair Bolsonaro), sinaliza que Evair está na “cota pessoal” do pai, isto é, a ideia de lançar Evair ao Senado atende a um desejo direto do ex-presidente da República.
No início do mês, o próprio Evair declarou, em entrevista a este espaço, que tem dialogado com Magno sobre as eleições estaduais, na tentativa de convencer o presidente estadual do PL a lançar um só candidato ao Senado para unificar as forças e os votos da direita bolsonarista: ele mesmo ou Maguinha. A informação foi prontamente desmentida por Magno.
Do apontamento de Flávio, incluindo Evair e Maguinha, não é possível inferir se a ideia seria lançar ambos ou apenas um dos dois. Em alguns estados, as forças leais a Bolsonaro devem lançar mais de um candidato. Em outros, devem se concentrar em um. Fato é que o bolsonarismo está perseguindo a eleição do maior número possível de senadores, a fim de caçar ministros do STF.
Vale observar também a rasura feita à mão por Flávio no partido atribuído a Evair: riscou “(PL)”, como grafado no papel impresso, e corrigiu para “(PP)”.
O partido atual de Evair realmente é o PP. Mas o fato de ele ter sido relacionado como membro do PL pode indicar que a direção nacional da sigla já trata Evair, na prática, como um correligionário, ou já está contando com sua filiação.
De fato, para realmente ser candidato a senador, é provável que Evair precise se transferir do PP para o PL na próxima janela partidária, até o dia 4 de abril. O espaço para isso no PP ficou muito curto para ele. Como noticiamos aqui na última quinta-feira (26), o PP acaba de fechar apoio a Ricardo Ferraço para governador, pelas mãos do também deputado federal Josias da Vitória, presidente estadual do PP e da Federação União Progressista (União Brasil com PP). Se esse acordo não for “desfeito” pela direção nacional da federação, ficará muito difícil para Evair “se criar” ali.
Ele terá de se entender com Magno.
3) Arnaldinho não está no radar de Flávio
Na política capixaba, o mês de fevereiro foi marcado pela aliança eleitoral entre Pazolini e o prefeito de Vila Velha, Arnaldinho Borgo (PSDB), também pré-candidato a governador. O acordo entre eles prevê que ambos renunciarão até o dia 4 de abril, no limite do prazo legal imposto pelo calendário eleitoral. Só um dos dois será candidato a governador, com o apoio do outro.
E esse “outro” poderá se tornar um dos dois candidatos a senador na mesma coligação. Arnaldinho quer ser o candidato a governador, mas já não descarta a possibilidade de concorrer ao Senado.
Todavia, as anotações de Flávio deixam claro que, do ponto de vista do PL, o nome de Arnaldinho não está no radar; no momento, nem é considerado pelo partido de Bolsonaro numa coligação eventualmente encabeçada por Pazolini, com o apoio do PL.
Como já demonstrou nas eleições de 2024, o PL é “guloso”, especialmente no Espírito Santo. Não é absurdo pensar que pode querer lançar dois candidatos ao Senado (Maguinha e Evair, em caso de migração do deputado). Mas, se só um desses dois for candidato no desenho esboçado por Flávio, restaria uma segunda vaga ao Senado na coligação de Pazolini. Esta, em tese, poderia ser ocupada por Arnaldinho.
A exclusão do prefeito de Vila Velha, nos apontamentos de Flávio, também vale para o PSD.
No Espírito Santo, o partido de Gilberto Kassab também está aliançado com Pazolini e Arnaldinho. E também pode querer ter candidato ao Senado nessa coligação de direita. O ex-governador Paulo Hartung, já no PSD, é um potencial candidato. Outro nome é o do deputado estadual Sérgio Meneguelli. Ele estuda entrar no PSD para se candidatar a senador.
Se o PL firmar mesmo apoio a Pazolini para governador, obviamente, não caberá todo mundo na chapa.
A nota de Magno à imprensa, na íntegra
Na tarde desta quarta-feira (25), o Partido Liberal promoveu uma reunião de orientação com seus senadores e deputados federais para alinhamento jurídico e estratégico com vistas ao ano eleitoral. O encontro também tratou de encaminhamentos específicos em alguns estados, entre eles Santa Catarina, onde já há pré-candidatos definidos.
No que diz respeito ao Espírito Santo, é importante esclarecer que não procede o conteúdo divulgado em listas extraoficiais que circulam na internet. No estado, há apenas uma definição formal até o momento: a pré-candidatura de Maguinha Malta ao Senado pelo partido. Quanto à disputa pelo Governo do Estado, não há qualquer deliberação tomada.
O partido seguirá conduzindo o processo com responsabilidade e diálogo. O senador Flávio Bolsonaro defende que a legenda exerça protagonismo nos estados, e no Espírito Santo não será diferente. O PL possui quadros qualificados para a disputa majoritária e proporcional e atuará de forma organizada para fortalecer sua bancada federal, com foco na ampliação da representação partidária.
Reafirmamos que as decisões serão determinadas no momento oportuno, dentro das instâncias partidárias e com base em critérios políticos e eleitorais sólidos. Especulações não interferem no planejamento da sigla.
Senador Magno Malta
Presidente do PL-ES