Por Vinícius Baptista / SIM NOTÍCIAS / Foto: Divulgação / Arte: IA
O Espírito Santo está matando menos. Mas isso não significa, necessariamente, que o capixaba esteja se sentindo mais seguro. Sendo um dos temas que mais preocupam os brasileiros em geral, não é de se estranhar que a segurança pública tenha sido um dos assuntos que geraram um dos climas mais tensos no debate promovido pelo Grupo Sim com os candidatos ao Governo do Estado, na última sexta-feira.
Se, nas ruas, a polícia trava suas guerras diárias contra o crime, no estúdio o que se viu foi uma guerra de narrativas protagonizada, principalmente, por Lorenzo Pazolini (Republicanos) e Ricardo Ferraço (MDB). Já o candidato Helder Salomão (PT), como não foi provocado nessa área, não teve uma participação tão incisiva no debate sobre o assunto.
É inegável que os índices de homicídios caíram no Espírito Santo nos últimos anos. De um lado, há um dado objetivo e difícil de contestar: 2025 terminou com 796 homicídios, o menor número da série histórica levantada pela Secretaria Estadual de Segurança Pública, iniciada em 1996. Pela primeira vez em quase 30 anos, o Estado ficou abaixo da marca de 800 assassinatos.
Mas também há espaço para a crítica. Em 2012, segundo ano do primeiro mandato do governador Renato Casagrande (PSB), o Espírito Santo foi considerado o segundo Estado mais violento do Brasil, perdendo apenas para Alagoas. Na última eleição, Casagrande, já tendo Ricardo como seu vice, prometeu colocar o Estado entre os cinco mais seguros do Brasil. Não conseguiu. Houve avanços, mas ainda estamos em 14º lugar no ranking dos entes federativos mais violentos do país.
É nessa contradição que se encontra boa parte da disputa sobre segurança pública no debate entre os candidatos ao Palácio Anchieta.
Se o assunto é violência contra as mulheres, o debate fica ainda mais acalorado. Pazolini sabe disso e começou sua fala prestando condolências às famílias de duas mulheres vítimas de feminicídio na noite anterior ao programa. “O Espírito Santo é o Estado mais violento para as mulheres da Região Sudeste”, afirmou.
Pazolini ainda teceu críticas ao efetivo das forças policiais do Estado que, segundo ele, está defasado. “A Polícia Civil só tem praticamente metade do seu efetivo nomeado e trabalhando. Nós temos 42% dos cargos de policiais civis que estão desocupados. (…) Na Polícia Militar nós temos um déficit de 2.000 vagas. Nós temos os presídios com mais de 11.000 presos além da capacidade. Por isso as organizações criminosas estão dominando o Espírito Santo. Por isso tantos crimes, as facções. Por isso que você está sofrendo. Hoje, mais de 98% das mulheres capixabas já tiveram que alterar a sua rotina por conta da violência e da insegurança”, afirmou o ex-prefeito de Vitória.
Já Ricardo usou os números favoráveis de seu governo para responder e dizer que o concorrente estava faltando com a verdade.
“Nós estamos fazendo, nesse período de governo, de 2022 a 2026, a maior recomposição do efetivo da Polícia Militar. Lembrando que, no governo anterior ao nosso, nós chegamos a ficar quatro anos sem concurso público na Polícia Militar. Nós estamos fazendo a maior recomposição também na Polícia Civil do Estado do Espírito Santo. Estamos agora em andamento com um concurso público para 1.052 novos investigadores oficiais da nossa Polícia Civil. Nós reestruturamos a Polícia Penal, reestruturamos a Polícia Científica. Na prática, nós temos muitos desafios ainda na segurança pública do Estado do Espírito Santo, mas seguramente nós estamos avançando muito e nós vamos continuar ampliando os nossos efetivos das forças de segurança e gerando oportunidade para que nós possamos construir um ambiente de prosperidade”, pontuou Ferraço.
“Ele foi prefeito de Vitória durante cinco anos e só contratou 102 profissionais para a Guarda Municipal, enquanto somente nós nesse período de governo contratamos 8.400 profissionais para as nossas forças de segurança”, completou.
Mas precisamos levar em conta que segurança pública não se refere apenas aos homicídios. Ela está no medo de ter o celular roubado, na violência dentro de casa, no receio de circular por determinados lugares, na presença do tráfico e na percepção — correta ou não — de que o Estado consegue proteger seus cidadãos.
É justamente aí que as narrativas começam a se separar. Quando um candidato fala em segurança pública, está falando de homicídios? De crimes patrimoniais? De policiamento? De combate às organizações criminosas? De prevenção? Ou da sensação de segurança?
No debate, cada candidato escolheu os números, os problemas e as soluções que melhor sustentam sua narrativa. E talvez o ponto mais interessante esteja menos na disputa sobre quem apresentou o número mais impressionante e mais naquilo que cada um decidiu deixar de fora.
Porque, em segurança pública, escolher o indicador também é escolher a história que se quer contar.



