Por Leonardo Medeiros Simonetti: administrador, pós-graduado em Gestão de Segurança e possui MBA Corporativo em Safety e Security. Atua no segmento de segurança desde 2008 como gestor de segurança. Membro da ABSEG, participou de diversos comitês de segurança. É conselheiro municipal de segurança em Vitória/ES, além de instrutor de armamento e tiro e piloto de drone operacional / Foto: Divulgação
Nas últimas semanas, o Espírito Santo voltou os olhos para um tema que deveria ser prioridade permanente: o investimento (ou a falta dele) em Educação. A análise do Tribunal de Contas do Estado (TCE-ES) apontou que a prefeitura de Guaçuí descumpriu os percentuais mínimos obrigatórios (25% da receita) para aplicação na área, resultando em parecer pela rejeição das contas. O caso ganhou repercussão não apenas por sua gravidade técnica, mas pelo alerta que representa: quando a Educação é negligenciada, toda a sociedade sente.
Mas o que é investir corretamente em Educação?
Muitas vezes, o debate público se concentra em questões visíveis: quadras pintadas, novos uniformes, brinquedos no recreio. E embora tudo isso tenha sua importância, há aspectos invisíveis – e urgentes – que seguem ignorados. Um deles é a segurança dentro do ambiente escolar.
Em muitos conselhos escolares, compostos por pais, alunos, professores, servidores e diretores, as decisões sobre onde aplicar os recursos são tomadas democraticamente. O problema é que, com frequência, o que se vê ganha mais peso do que o que realmente impacta. Investe-se em uma mesa de jogos, enquanto uma pia permanece sem proteção ou um fio desencapado segue exposto, gerando riscos. Em outros casos, gasta-se com decoração, mas se esquece de preparar a equipe para reagir a uma emergência, como um incêndio ou uma tentativa de invasão. E não é exagero: a realidade das escolas brasileiras tem mostrado que a segurança deixou de ser uma questão prioritária.
Segundo dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil registrou 40 ataques violentos a escolas entre 2002 e 2023. Só em 2023, houve 8 ataques com vítimas fatais, sendo o maior número já registrado em um único ano. Importante lembrar que, por trás desses números, há uma subnotificação preocupante: situações de ameaça, agressão e pânico muitas vezes não chegam às estatísticas formais. E mesmo quando não há vítimas, o trauma vivido por alunos e educadores permanece. E vivemos isso muito perto em Aracruz.
É neste cenário que a cultura de segurança escolar precisa ser vista como parte essencial da Educação. Cultura essa que vai além de muros altos e câmeras de vigilância. Ela passa pela formação de toda a comunidade escolar: ensinar como agir diante de uma situação de risco, como prevenir acidentes no cotidiano e como lidar com o medo. Essa é uma responsabilidade de gestores, conselhos e da sociedade.
Rafael Luz, CEO da empresa Guardião Escolar, foi um dos entrevistados nesta matéria. A empresa realizou recentemente o treinamento de 18 mil alunos em uma rede privada do Espírito Santo, com foco em segurança e prevenção. Ex-policial militar em São Paulo e bombeiro militar no Rio de Janeiro, Rafael é o único brasileiro certificado pelo protocolo norte-americano ALICE (alerta, lockdown/bloqueio, informar/comunicar, conter/contra-ataque e evacuar), referência mundial na resposta a ameaças em ambiente escolar.
“Quando idealizamos a Guardião Escolar em 2017, tivemos como prioridade levar segurança para o ambiente de acolhimento e ensino de todas as escolas do Brasil. Ainda temos esperança de conseguir levar esse projeto à rede pública – até porque eu sou fruto do ensino público”, afirma Rafael Luz.
A experiência mostra que é possível capacitar alunos, professores e funcionários de maneira simples e acessível. Em simulações realizadas, crianças da Educação Infantil aprenderam como identificar perigos, buscar locais seguros e chamar ajuda. Nas turmas do Ensino Fundamental e Médio, foram apresentados cenários de evacuação, primeiros socorros e protocolos de resposta. Tudo de forma lúdica, respeitando o nível de maturidade de cada idade.
Fica, então, a pergunta: o que falta para que a segurança seja tratada como parte integrante da Educação pública?
A resposta pode estar na mudança de mentalidade. Deixar de ver segurança como custo e passar a enxergá-la como investimento – tal como o material didático, o transporte escolar ou a merenda. Criar uma cultura que valorize o que não se vê, mas que protege a todos. Afinal, um aluno só pode aprender de verdade quando se sente seguro. Um professor só consegue ensinar com plenitude quando sabe que está amparado. E uma escola só cumpre seu papel social quando é, antes de tudo, um espaço de proteção.
Investir o percentual correto na Educação, como exige a lei, é o mínimo. Mas ir além e aplicar com sabedoria, considerando o que impacta diretamente a vida de cada estudante, é o verdadeiro compromisso com o futuro.