Por Vitor Vogas / SIM NOTÍCIAS / Foto-legenda: O prefeito de Vila Velha, Arnaldinho Borgo, o governador Renato Casagrande e o vice-governador Ricardo Ferraço / Crédito: Divulgação
Segundo os “termos” de um novo acordo em construção entre o prefeito de Vila Velha e o governo, chapa do PSDB à Câmara dos Deputados, hoje muito frágil, poderá ser encorpada por aliados do Palácio Anchieta hoje em outros partidos aliados, por influência direta de Casagrande e Ricardo Ferraço
Antes de anunciar sua decisão de permanecer na Prefeitura de Vila Velha e não disputar as eleições deste ano, Arnaldinho Borgo voltou a dialogar com interlocutores do Governo do Estado (uma coisa, aliás, tem tudo a ver com outra). Reabertas há poucos dias, as conversas estão em andamento.
Presidente estadual do PSDB desde dezembro, Arnaldinho precisa “salvar” a sua chapa de candidatos à Câmara dos Deputados. Por sua vez, constrangimentos à parte, o governo Casagrande (PSB) tem interesse em puxar Arnaldinho de volta para sua base, de uma vez por todas, e para a campanha de Ricardo Ferraço (MDB) à reeleição no segundo semestre.
De acordo com nossa apuração, na retomada das negociações com o Palácio Anchieta após o namoro público com Lorenzo Pazolini (Republicanos), o prefeito de Vila Velha não se viu em posição de fazer nenhuma exigência. Mas a reaproximação passa fundamentalmente por uma condição: auxílio do Governo do Estado no fortalecimento da chapa do PSDB à Câmara dos Deputados.
Para puxar Arnaldinho de volta, o governo Casagrande se dispôs a entrar em campo para ajudá-lo a remodelar e encorpar a chapa de federais do partido.
Ao receber o cargo de presidente estadual do PSDB, Arnaldinho assumiu um compromisso com o presidente nacional, Aécio Neves: formar uma chapa competitiva no Espírito Santo, em condições de eleger pelo menos um deputado federal no Estado. Tal é a prioridade da cúpula nacional.
Mas, sendo muito realista, a chapa do PSDB-ES no momento precisa mesmo de reforços. Urgentemente.
No Espírito Santo, uma chapa completa para a Câmara precisa ter 11 candidatos, sendo pelo menos quatro mulheres. Hoje, a do PSDB está baseada no tripé Victor Linhalis (atual deputado federal), Luiz Paulo Vellozo Lucas (ex-prefeito de Vitória) e Neucimar Fraga (ex-prefeito de Vila Velha).
Para garantir a eleição de um federal no Espírito Santo, dirigentes estimam que uma chapa precisará atingir perto de 200 mil votos nas urnas, no dia 4 de outubro (soma dos votos na legenda com os votos de todos os candidatos da chapa).
Sem nenhum demérito ou crítica aos que já se encontram na chapa do PSDB-ES, qualquer análise objetiva, no estrito pragmatismo, leva à conclusão de que a atual escalação não chegará perto de bater o número mágico. A prioridade de Arnaldinho é a reeleição de Victor Linhalis, seu fiel escudeiro político, mas tal objetivo, no momento, está longe de ser tangível.
Em 2022, com apoio forte de Arnaldinho e da Prefeitura de Vila Velha, Victor obteve 53.483 votos.
Neucimar não ganha uma eleição desde que venceu a de prefeito do mesmo município, em 2008. No pleito deste ano, o que ele realmente sempre quis é ser candidato a deputado estadual (o que não está de todo descartado), eleição que ele sabe estar mais a seu alcance, condizente com seu atual tamanho.
O jejum de Luiz Paulo é ainda mais longo: vinte anos sem se eleger para um mandato, desde que alcançou uma vaga na Câmara dos Deputados, em 2006.
Nos últimos 14 anos, os dois ex-prefeitos disputaram muitas eleições, inclusive para deputado federal, mas com votação cada vez menor.
Tábua de salvação
No diálogo com Arnaldinho, o governo Casagrande topou jogar-lhe a boia de salvação.
Mas não é propriamente uma boia, e sim uma tábua. Uma tábua estendida entre dois barcos: o de Arnaldinho e o da ampla coalizão governista, formada por vários partidos (PSB, MDB, PDT, Podemos, União Brasil e PP).
A ideia é que, por essa tábua, por influência direta de Casagrande e Ricardo Ferraço, candidatos a deputado federal hoje na chapa de outras siglas se transfiram para o barco/chapa do PSDB.
O prazo está apertado, mas ainda dá tempo. Quem quer ser candidato ainda pode trocar de partido até o dia 4 de abril.
Nessa urgente “Operação Salvamento da Chapa do PSDB”, especula-se que possam migrar pré-candidatos hoje bem instalados nas chapas de outras siglas governistas, como o Podemos e a Federação União Progressista (União Brasil + PP).
Um dos que analisa a ideia de entrar no PSDB é o deputado estadual Bruno Resende. O oncologista de Cachoeiro de Itapemirim quer ser candidato a federal. No momento, está filiado ao União Brasil. Em dezembro, chegou a anunciar sua intenção de migrar para o Podemos.
Mas Resende ficou contrariado com a decisão do Podemos de filiar o também médico Serginho Vidigal, filho do ex-prefeito da Serra de mesmo nome. Entende que Serginho é um concorrente muito forte dentro da mesma chapa. “Meu pai foi prefeito de Mimoso do Sul. O dele foi prefeito da Serra”, compara.
Resende admite estar dialogando com alguns partidos. “Nada fechado ainda.” Sobre possível entrada no PSDB, ele tem conversado especificamente com Luiz Paulo.
A reação negativa na Federação União Progressista
Entretanto, a ideia de “terem de ajudar” Arnaldinho a esta altura dos acontecimentos não desceu nada bem entre os dirigentes da Federação União Progressistas, como os deputados Josias da Vitória (PP) e Marcelo Santos (União).
Entre aliados de peso do governo, a leitura é a de que Arnaldinho submeteu o próprio Casagrande a uma humilhação pública, sem a menor necessidade, durante o Carnaval de Vitória; depois, teria ficado encurralado (ou se encurralado, por suas próprias escolhas); agora, não teria cabimento eles terem de mexer nas próprias chapas, ou ceder candidatos, só para salvar o prefeito de Vila Velha.
Mas aí é que está o ponto: ainda é “o prefeito de Vila Velha”. E seguirá sendo durante a campanha.
Com 80 anos somados de atividade política, Casagrande e Ricardo Ferraço têm perfeita consciência de que, apesar de tudo, o apoio eleitoral de Arnaldinho (alguém com quase 80% dos votos válidos numa cidade de meio milhão de habitantes) pode ser essencial em uma disputa majoritária.
Não se pode desprezar esse ativo, que agora volta a bater às portas do Palácio Anchieta (com menor poder de barganha). Se o único pedido é tão simples… por que não operar para atendê-lo?
Além de Bruno Resende, especula-se que possa ser remanejado para o PSDB o secretário estadual de Agricultura, Enio Bergoli. O secretário, aliás, já estava antes no PSDB, mas entrou há poucos dias na Federação União Progressista.
Outros cotados para serem envolvidos na operação são o jornalista Philipe Lemos e o diretor-presidente do Incaper, Alessandro Broedel. Os dois estão no Podemos desde dezembro. Mas é preciso combinar com o presidente estadual do partido, Gilson Daniel. Também ali há uma forte resistência.
Juninho Corrêa entra no aquecimento
“Efeito cascata”, “efeito borboleta”, “reação em cadeia”… chame como quiser. O fato é que, quando se trata de política, uma corrente de ar em Vitória pode gerar um deslocamento até em… Cachoeiro de Itapemirim.
Em reação à possível saída de Bruno Resende (para o PSDB ou outa sigla), a Federação União Progressista apressou-se a colocar no aquecimento um possível substituto na chapa, pertencente ao mesmo reduto: o vice-prefeito de Cachoeiro de Itapemirim, Juninho Corrêa.
Juninho ainda está no Novo, mas, até o dia 4 de abril, poderá se filiar ao PP e concorrer a deputado federal na chapa da Federação União Progressista. Para se manter habilitado a disputar, ele foi exonerado, a pedido, do cargo de secretário municipal de Educação de Cachoeiro, no qual estava havia apenas dois meses.
O prefeito de Cachoeiro é Theodorico Ferraço. Além de ser filiado ao PP, o prefeito é pai de Ricardo Ferraço. Por evidente, faz parte da coalizão governista.
“Estamos fazendo uma construção com Ferração e Ricardo Ferraço”, admitiu Juninho à coluna.
Se Bruno Resende for para algum partido de fora da base de Casagrande e Ricardo (como o Republicanos, de Pazolini), a Federação União Progressista lançará Juninho Corrêa também a deputado federal, para tirar votos de Resende no sul do Estado. A exoneração, portanto, serviu de “ameaça” a Resende.
Mas, se o deputado e oncologista for reinstalado na chapa do PSDB – dentro desse “novo acordo” em construção com Arnaldinho, explicado acima –, todos os interesses poderão ser reacomodados.