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Escutar a cidade é cuidar de quem vive nela

Escutar a cidade é cuidar de quem vive nela

Por Marcus Muniz Maranhão, Auditor de Atividades Urbanas da Prefeitura Municipal de Vitória (ES), especialista em Cidades Inteligentes e em Política, Estratégia e Defesa Nacional e Segurança Pública / Foto: Divulgação / Crédito: @adronelina (arquivo: AG) / Arte: IA

Em 2026, Vitória reuniu dois reconhecimentos que poucas cidades conseguem ao mesmo tempo. Chegou ao primeiro lugar no Ranking de Competitividade dos Municípios, do Centro de Liderança Pública, que avaliou 423 cidades em 65 indicadores e superou Florianópolis, líder havia três anos. E foi apontada como a melhor cidade de porte grande do Sudeste no ranking As Melhores Cidades do Brasil, de VEJA NEGÓCIOS, com a Austin Rating. Planejamento urbano, contas equilibradas, educação e ambiente favorável aos negócios estão entre os motivos citados.

Resultados assim têm muitos autores. Mas, depois de 18 anos como Auditor de Atividades Urbanas da Prefeitura, tenho a convicção de que parte deles nasce de um trabalho que raramente vira manchete: o ordenamento cotidiano da cidade.

Planejar é essencial, mas um plano só se realiza quando alguém o faz valer na calçada, na obra, no terreno, na esquina. A orla renovada pelo programa Vitória de Frente para o Mar é um investimento coletivo enorme. Ela rende plenamente quando o entorno é seguro, acessível e bem cuidado, e é para isso que trabalha o auditor. Cidade competitiva é cidade previsível: regras que valem para todos, obras seguras, calçadas por onde se anda sem medo, um ambiente em que quem empreende, trabalha e mora sabe o que esperar.

A cidade comunica. A calçada obstruída diz que o direito de circular pode ser negociado. O terreno abandonado diz que ninguém responde por ele. A obra irregular consolidada ensina que a regra vale para uns e não para outros. É o que a Teoria das Janelas Quebradas, de Wilson e Kelling, formulada em 1982, tenta explicar: sinais persistentes de descuido enfraquecem a confiança dos moradores e abrem espaço para novas irregularidades. A teoria pede leitura equilibrada. Desordem não é sinônimo de crime, e pobreza não é infração. A fiscalização séria age sobre condutas e riscos objetivos, nunca sobre pessoas por sua condição social, e é assim que o auditor atua, com técnica, proporcionalidade e respeito.

Ele trabalha numa camada anterior à da polícia, a organização do espaço onde a vida acontece. Ao notificar o dono de um terreno abandonado, previne o acúmulo de lixo, a proliferação de vetores de doenças e a formação de um ponto escuro no meio do bairro. Ao desobstruir uma calçada, devolve ao idoso, à criança e à pessoa com deficiência o direito de andar sem disputar espaço com os carros. Ao embargar uma obra em área de risco, pode evitar uma tragédia que custaria vidas. Repetidas milhares de vezes, essas ações produzem o que nenhum ranking mede diretamente, mas todos refletem: a confiança de que a cidade funciona.

Há um efeito ainda menos visível. Quando o morador denuncia e vê o problema resolvido, entende que a cidade responde e que ele não está sozinho. Esse é o fundamento do que os estudiosos chamam de eficácia coletiva. Rua iluminada, transitável e ocupada por gente de verdade tem mais olhos atentos, e olhos atentos protegem.

Por isso defendo uma distinção simples: mediar é um método, resolver é um dever. O diálogo é o primeiro caminho nos conflitos que o admitem, como horários, ruídos pontuais e ajustes entre vizinhos. Mas não se medeia a permanência de uma obra em área de risco, a calçada interditada ou o descarte de resíduos que ameaça a saúde coletiva. Nesses casos, o interesse público é indisponível, e a ação do auditor, amparada no poder de polícia e no devido processo legal, é a resposta que a sociedade espera. E quando o morador teme represálias por denunciar o vizinho, o que sustenta a medida é a irregularidade objetiva, não a exposição de quem denunciou.

Vale, por fim, reconhecer quem está na ponta. O auditor vistoria obras, comércios e imóveis abandonados, e suas decisões atingem interesses econômicos concretos, o que torna a rotina de campo exigente e, por vezes, arriscada. Ele não é policial. Trabalho em equipe, avaliação prévia de risco, apoio da Guarda Municipal quando necessário e capacitação contínua permitem que a função seja exercida com segurança e legitimidade. Valorizar esses profissionais é valorizar a cidade que os rankings reconhecem.

Vitória completou 475 anos em setembro, no seu melhor momento de reconhecimento nacional. Cidade organizada não nasce só de boas leis nem de boas contas. Nasce também de quem, todos os dias, faz a regra valer com técnica e humanidade. A prosperidade e a paz social começam, muitas vezes, em algo tão simples quanto uma calçada livre, um terreno limpo e uma regra que vale para todos.

Escutar a cidade é cuidar de quem vive nela

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