Por Vitor Vogas / ES 360 / Foto-legenda: Empolgado, Casagrande abraça Ricardo em evento do PSB (07/12/2025) / Crédito: reprodução Instagram
E mais: em clima de pré-lançamento, evento do PSB no último domingo dissipou aquele 1% de dúvida que ainda pudesse resistir… Saiba aqui por que Ricardo será o escolhido e por que Casagrande não abre mão do seu Plano A
O governador Renato Casagrande (PSB) anunciará o vice-governador Ricardo Ferraço (MDB), muito em breve, como o pré-candidato oficial dele mesmo, do seu governo e da coalização governista (incluindo grande parte dos partidos que compõem a sua ampla base). O anúncio deve ser feito nas próximas duas semanas, antes do Natal.
Casagrande já vinha falando de sua intenção de anunciar seu candidato até o fim do ano. Não existe mais, a esta altura, qualquer chance de que esse anúncio seja outro que não a confirmação de Ricardo.
Isso dará ao vice-governador um novo status no processo eleitoral. Não que houvesse, a esta altura, grandes dúvidas. Desde o fim do ano passado, quando passou a tratar mais diretamente sobre a própria sucessão e listar aliados que poderiam sucedê-lo com seu apoio, Casagrande fez questão de apontar seu vice como um “candidato natural”. Ao longo deste ano, progressivamente, foi vocalizando sua preferência por Ricardo, tratando-o cada vez mais, em gestos, discursos e entrevistas, como o nome prioritário do projeto liderado por ele.
Se restava ainda 1% de dúvidas quanto a essa resolução de Casagrande, o encontro estadual do PSB, partido do governador, no último domingo (7), serviu para dissipá-las. Antes do momento mais aberto, com discursos para a militância, houve uma reunião fechada do Diretório Estadual do PSB. Nela, os dirigentes partidários referendaram sua decisão – aliás, já anunciada – de apoiar Ricardo Ferraço na eleição ao Governo do Estado em 2026. Este é um primeiro ponto.
Se alguém puder me explicar como o partido do governador, que o tem como grande referência, define um nome, e o próprio governador define outro, ganhará um curso grátis de Ciência Política na Universidade de São Nunca, com tudo pago pela coluna. Não faria o menor sentido. E não vai acontecer.
Mas não é só isso. Na mesa de autoridades, Ricardo sentou-se ao lado de Casagrande. Em seu discurso, falou como o pré-candidato do PSB e, mais importante, do governo do PSB. E avisou a todos:
“Tô pronto! Pronto, determinado. Com muito amor no coração, com muita vontade. […] Eu tô é com muito tesão pra debater o presente e o futuro do Espírito Santo!”
“Eu saio de casa todo dia com muita fé e com muita confiança de que a gente vai continuar juntos e que o Espírito Santo vai continuar nesse mesmo rumo e nesse mesmo ritmo. […] Tô pronto pra jogar na posição que dê conforto ao nosso governador, porque nós confiamos no seu discernimento e na sua decisão.”
Aí veio o discurso mais aguardado, a cereja do bolo, o arremate de Casagrande… E o governador também, do início ao fim, tratou Ricardo como the chosen one (o ungido; o escolhido).
Todo o clima do evento foi de pré-lançamento de Ricardo, com direito a uma considerável tietagem ao vice-governador. Encerradas as falas, o escolhido por Casagrande posou para um mar de selfies com militantes do PSB – quase rivalizando com Casagrande nesse quesito –, e o colunista precisou esperar alguns minutos para lhe fazer duas perguntas.
Uma delas foi justamente se Casagrande o anunciará em breve.
“O governador Casagrande tem de minha parte o tempo que ele considerar adequado e necessário para fazer essa reflexão. Eu sou parte do movimento liderado pelo governador Casagrande. E a decisão que ele julgar mais confortável é o caminho que eu vou percorrer”, declarou Ricardo.
Aí fizemos a mesma pergunta para Casagrande, que respondeu assim: “Até o fim do mês vou identificar quem é o candidato do projeto. Ainda não posso antecipar nome”.
Insistimos: “Depois de tudo o que o senhor falou aqui hoje, há alguma chance de não ser o Ricardo?”
Ele, por cautela (não atropelar os outros partidos da base com cujos dirigentes ainda vai conversar; não descumprir o próprio cronograma estabelecido por ele), preferiu seguir a esconder algo que já está escancarado: “Eu ainda não indiquei ninguém”.
Mas voltemos ao discurso de Casagrande para sua militância:
“O partido aqui já expressou a vontade de que Ricardo seja o nosso candidato a governador. Nos próximos dias, ouvirei os nossos outros partidos aliados. Neste mês de dezembro, quero anunciar a posição oficial do governador. Nosso desejo é, naturalmente, até a hora da decisão final, conseguir unir toda uma base que temos no Estado em torno de um projeto único. É o trabalho que vou fazer até a última hora. Vou lutar até o último momento para agregar forças que não tenhamos conseguido agregar até agora”.
O governador destacou números de sua administração, como investimentos em infraestrutura, a diminuição dos homicídios (“Vamos fechar com menos de 800 este ano”, cravou) e “uma revolução na educação” (“Hoje, em nossa rede estadual, não devemos nada a nenhuma rede particular do Espírito Santo”). E pregou a continuidade (representada, neste contexto, pelo homem ao seu lado):
“Não podemos entregar isso de qualquer jeito a quem não tem compromisso em preservar esse legado. Foi uma luta preservar esse legado! Vocês viram os ataques contra a nossa imagem, contra a imagem do PSB e contra o nosso legado em 2015 [depois da derrota eleitoral para Paulo Hartung em 2014]! Qual é o projeto que tem mais partidos? É o nosso! Qual é o que tem mais apoios de prefeitos e lideranças? É o nosso! Qual tem mais resultados para mostrar? É o nosso!”
Por que Ricardo?
Os motivos da preferência de Casagrande por Ricardo já foram minuciosamente abordados aqui. Em síntese, vão da previsibilidade que é marca política de Casagrande ao conforto que essa alternativa lhe dá (pois lhe permite renunciar em abril, passar a bola para Ricardo e ser candidato a senador), passando ainda pelo bom trânsito de Ricardo junto ao meio empresarial, sua capilaridade pelo interior do Estado, a coalizão de forças partidárias reunidas por Casagrande em torno dele, o fato de ele figurar bem em pesquisas e, acima de tudo, a grande aposta do governo na transferência da popularidade e do capital político de Casagrande para ele.
Lembremos que Ricardo estará no cargo, indo na verdade para a reeleição como governador de fato e de direito. A grande aposta, neste caso, é que Ricardo também herde a aprovação de um governo que reúne resultados um múltiplas áreas e que hoje, como provam as pesquisas, é muito bem avaliado.
Pelo que a coluna ouviu de fontes ligadas a Casagrande, o governador está “ansioso” para fazer esse anúncio e tirar de vez das costas esse peso. Sim, “ansioso”: foi esse o adjetivo que ouvimos de uma fonte.
Movimento de Arnaldinho “não pegou nada bem” no Palácio
Ao mesmo tempo, não pegou nada bem, no Palácio Anchieta, o movimento de Arnaldinho de assumir a presidência estadual do PSDB, passando por cima da direção estadual então vigente, cujo presidente era ninguém menos que o líder do governo na Assembleia, Vandinho Leite.
Em seu discurso no evento do PSB, o próprio governador não disfarçou sua insatisfação, ainda que escolhendo palavras polidas e contidas. Destacou a importância de proteger o “projeto maior”, que é a preservação de seu legado. Na entrevista dada à coluna logo depois, Casagrande foi um pouco além: “Projetos pessoais que não estejam em sintonia com o nosso projeto maior podem levar a fragilizar e enfraquecer o projeto maior”.
Fontes da entourage de Casagrande, falando sob anonimato, foram menos contidas. Em nossa apuração, ouvimos expressões como “tirânico” e “tirania”, em referência a Arnaldinho e seu movimento de “tomada do PSDB”. De outra fonte, ouvimos que a análise interna é a de que, nesse episódio, ele provou ter uma “ambição desmedida”.
O movimento de Arnaldinho, de certo modo, também precipita o anúncio de Casagrande em direção a Ricardo. Se não o leva a antecipar o anúncio, faz com que este agora seja inadiável, até para ceifar pela raiz eventual crescimento de Arnaldinho e enfraquecimento de Ricardo, defecções e dúvidas (“será?”, “e se?”, “e agora?”). É tudo o que o governo não quer.
Noves fora, o resumo é o seguinte:
O quê: O governador anunciará solenemente seu pré-candidato a governador, que representará ele mesmo, seu governo, o PSB e um grupo de partidos que fazem parte da coalizão governista (o MDB, o Podemos e o PDT podem ser botados na conta; os outros não estão tão certos).
Quem: Ricardo Ferraço (MDB).
Como: É possível que o governador o faça em uma entrevista coletiva, ou no balanço de fim de ano a ser realizado na Grande Vitória, ou em uma entrevista marcada especificamente para isso.
Quando: Possivelmente, antes do Natal.
Onde: Não sei. Pode ser no Palácio Anchieta, embora não seja aconselhável tratar de tema partidário e eleitoral no espaço institucional.
Por quê: Pelas razões expostas acima.
Seria Arnaldinho, hoje, o que foi o próprio Casagrande na eleição de 2010?
No bunker de Arnaldinho, sob sigilo, fontes vinculadas ao prefeito de Vila Velha argumentam que ele não fez nada diferente do que o próprio Casagrande o autorizou e o encorajou a fazer – afinal, Casagrande sempre “liberou” Arnaldinho a se movimentar eleitoralmente e buscar viabilizar a própria pré-candidatura.
Também alegam, como fez o próprio prefeito em entrevista coletiva na última quinta-feira (4), que não há precedente de político que tenha chegado à presidência estadual de um partido no Espírito Santo combinando com a direção local… Aqui, permito-me atalhar, há fortíssimas controvérsias, a não ser que estejamos restringindo a análise a partidos desprovidos de democracia interna, mas este não é o momento de nos aprofundarmos neste fator.
Por fim – eis o ponto mais interessante –, argumentam que Casagrande fez, em 2010, algo muito parecido com o que busca agora fazer Arnaldinho: determinado a se candidatar ao Palácio Anchieta pelo grupo do então governador, Paulo Hartung, o então senador perseverou e manteve sua pré-candidatura, contra o então favorito do grupo – o mesmo vice-governador –, até abril do ano eleitoral… quando Hartung, para evitar a cisão do grupo, acabou optando por Casagrande em detrimento de Ricardo Ferraço.
Os apoiadores de Arnaldinho apostam que a história possa se repetir, dezesseis anos depois. Nessa peça com papéis trocados, por uma dessas ironias do destino das quais a política é repleta, Casagrande seria, hoje, o que foi Hartung em 2010, enquanto Arnaldinho seria o que foi o próprio Casagrande…
Ricardo seria ele mesmo.