Por Vitor Vogas / ES 360 / Foto: Divulgação
E mais: como a coluna interpreta o post revelador do prefeito de Vila Velha, mais determinado que nunca a também manter-se no páreo rumo ao Palácio Anchieta
A primeira reação de Arnaldinho Borgo (PSDB) ao anúncio do governador Renato Casagrande (PSB) de que apoia Ricardo Ferraço (MDB) para sua sucessão indica que o prefeito de Vila Velha não está nem um pouco disposto a recuar dessa disputa. Ao contrário, sinaliza que Arnaldinho está determinado a manter sua candidatura até o fim, mesmo sem o apoio de Casagrande, registrá-la em agosto do ano que vem e se apresentar como opção de voto aos eleitores capixabas no dia 4 de outubro – data do 1º turno das próximas eleições gerais.
Dobrando a aposta, o prefeito de Vila Velha postou em suas redes sociais que “a decisãosobre quem vai dar continuidade aos bons governos dos últimos 24 anos, de Paulo Hartung e de Renato Casagrande,será do povo, no dia 4 de outubro”.
Os grifos são do próprio prefeito, já vieram assim no post. Ao frisar que “a decisão será do povo”, Arnaldinho sublinha a mensagem de que, apesar do peso da decisão oficial de Casagrande (a escolha do candidato do governador, anunciada na última quinta-feira), a decisão que mais importa (ou a única que realmente importa) é a do eleitorado capixaba, a ser manifestada nas urnas, por meio do sufrágio universal.
O prefeito sugere, ainda, que a eleição não será definida antecipadamente por decisões tomadas em gabinetes à revelia da população, decisões essas que não se sobrepõem à soberana vontade popular.
Não deixa de ser uma alfinetada em Casagrande e Ricardo Ferraço.
O fato de o prefeito ter incluído Casagrande e Paulo Hartung, nêmesis do atual governador, na mesma prateleira de “bons governos dos últimos 24 anos”, também não é agradável a Casagrande, mas não chega a ser uma novidade.
Desde junho, inclusive em artigo publicado na imprensa local, Arnaldinho tem defendido a tese de que, após essa quadra de 24 anos de bons governos (com Casagrande e Hartung se alternando no poder), o pleito de 2026 marcará o encerramento de um ciclo político geracional no Espírito Santo, dando ensejo à ascensão de uma nova geração de jovens políticos capixabas, da qual ele próprio seria um expoente. Para Arnaldinho, o eleitor capixaba dará preferência para representantes dessa nova geração de gestores e líderes políticos.
No mesmo post, feito logo após o anúncio de Casagrande, Arnaldinho completa:
“Até lá [dia 4 de outubro], sigo debatendo o presente e o futuro com diálogo, humildade, responsabilidade, amor e muita energia, ouvindo todos que desejam contribuir, sempre pelo bem do Espírito Santo.”
A foto escolhida para ilustrar a postagem é a mais “institucional” possível, em cada detalhe: o terno e gravata, o olhar, a pose, até a posição das mãos.
Seria precipitado afirmar, neste momento, que a reação imediata de Arnaldinho representa o “rompimento” do prefeito com Casagrande e com o movimento político-eleitoral liderado pelo governador no Espírito Santo.
Mas, com essa reação, o prefeito certamente dá mais um passo em direção à porta de saída do projeto de Casagrande, reafirmando a busca por maior autonomia para realizar seus próprios movimentos na arena eleitoral capixaba.
O primeiro passo, com profundo impacto, já havia sido dado no início de novembro, quando o prefeito, em jogada veloz e surpreendente (até para o Palácio Anchieta), chegou oficialmente à presidência do PSDB no Espírito Santo, dando um clássico “chega pra lá” em aliados governistas como o deputado Vandinho Leite, por designação do tucano-mor Aécio Neves e com carta branca do presidente nacional do partido para construir sua candidatura a governador do Espírito Santo.
No dia 4 de dezembro, na entrevista coletiva que deu logo após receber o endosso público de Aécio, Arnaldinho já fez uma significativa modulação em seu próprio discurso. Até então, vinha repetindo que ele, Casagrande e Ricardo estariam juntos, no mesmo projeto eleitoral, em 2026. Não chegou a “desdizer” isso. Até reafirmou que pode não ser candidato e, nesse caso, apoiar Ricardo em Vila Velha.
Mas, questionado se descarta entrar no páreo contra Ricardo, ele preferiu não refutar essa possibilidade. Em vez disso, respondeu que “depende de vários fatores”:
Igualmente emblemático foi o fato de que, nesta semana, enquanto Casagrande preparava seu anúncio definitivo em favor de Ricardo, Arnaldinho esteve em Brasília e se encontrou novamente com Aécio Neves, mas desta vez como presidente estadual de fato e de direito do PSDB.
Se tivermos de resumir o ano político de Arnaldinho, o título do resumo seria “a busca de um partido para chamar de seu”.
O prefeito passou o ano inteiro à procura de um partido que pudesse controlar no Espírito Santo, não só para abrigar sua pré-candidatura mas para ter a plena certeza de que, se quiser mesmo ser candidato, terá a legenda para isso. Bem, agora ele tem o que buscava. E, a partir do momento em que enfim o alcançou, o discurso foi subindo de volume: ele passou a se mostrar cada vez mais determinado a ir até o fim.
Enquanto isso, “até o fim” irá Casagrande com Ricardo, conforme ele mesmo afirmou, em resposta à coluna na quinta-feira, logo após o “anúncio oficial”. Segundo o governador, sua decisão de apoiar Ricardo é final, definitiva e irrevogável. “É lógico! Está à prova de tudo, daquilo que está sob o nosso controle.”
E o que é que pode não estar sob seu controle? Casagrande responde, passando a bola para Ricardo: “Ele não querer ser candidato…”
Ah, mas ele também o quer… E aí é o próprio vice-governador quem intervém: “Só Deus tira o meu propósito de suceder o governador Casagrande e dar continuidade àquilo que nós estamos fazendo. É isso.” Ou seja, o que não está sob o controle da dupla é o “divino”, o “de força maior”.
MINIENTREVISTA
Especificamente sobre Arnaldinho, dirigimos algumas perguntas a Casagrande e a Ricardo. Reproduzimos abaixo as respostas de ambos:
Um nome que precisa ser trazido a esta conversa é o do prefeito de Vila Velha, Arnaldinho Borgo. Onde é que ele se encaixa hoje no projeto de vocês, liderado pelo senhor?
Casagrande: Ele se encaixa de acordo com as conversas que a gente vai ter. Neste momento, ele quer fazer um movimento de tentar viabilizar a sua candidatura. Então, também, de forma muito respeitosa, nós temos que dar a ele o tempo que ele deseja. Ele será sempre bem-vindo ao projeto que eu estou liderando. Se ele estiver no projeto, ele tem que sentar na mesa para a gente conversar. Mas não cabe agora a gente especular sobre uma decisão que ele tomou de tentar viabilizar uma pré-candidatura. Então, tem que dar tempo a ele.
Ameaça a unidade do grupo e do projeto?
Casagrande: Não, não. Não ameaça a unidade do grupo, porque nós estamos com pontes, nós estamos conversando com Arnaldinho. Eu estou conversando com Arnaldinho. Arnaldinho não está fora do grupo. Vamos ver o que vai acontecer na hora que ele vai ter que se desincompatibilizar. Se ele tomar uma decisão de seguir em frente com uma candidatura a governador, terá o nosso respeito, mas não é o nosso projeto. Nosso projeto está aqui, já colocado.
O senhor trabalha para que Arnaldinho seja candidato a vice-governador na chapa encabeçada pelo Ricardo?
Vou passar aqui para o Ricardo. O que o senhor acha dessa ideia de uma eventual chapa com o Arnaldinho Borgo encabeçada pelo senhor? Como o senhor avalia?
Ricardo: Eu não gosto da especulação com essa tese ou com esse formato. Qualquer que seja a decisão do prefeito Arnaldinho Borgo, terá o meu respeito. E a gente precisa respeitar, por dever, a decisão dos nossos semelhantes. Mas o Arnaldinho Borgo é parte de um movimento, de um projeto político liderado pelo governador Casagrande. E o meu desejo é que Arnaldinho possa estar com a gente. Ele vai ser sempre muito, muito bem-vindo a esse projeto.