Por Henrique Sávio Rezende, Despachante Aduaneiro Federal e Bacharel em Direito / Foto: Divulgação / Arte: IA
A recente reformulação do Congresso Nacional, com a consolidação de forças expressivas na Câmara dos Deputados e no Senado Federal — muitas delas ligadas a uma ala mais radical e alinhada ao bolsonarismo —, desenha um cenário de complexidade inédita na história recente do país. Esse rearranjo ocorre em paralelo à vitória do atual governo de esquerda do Presidente Lula.
Diante dessa realidade de poderes contrapostos, surge uma oportunidade singular para os representantes públicos que priorizam os seus estados, municípios e o povo brasileiro: o momento exige a superação da polarização e o resgate da pacificação nacional.
Para compreender o caminho em direção à estabilidade institucional, é fundamental analisar os precedentes da história política do país. Nos dois primeiros mandatos do Presidente Lula, a presença do saudoso Vice-Presidente José Alencar foi determinante. Empresário e político de centro-direita, Alencar atuou como uma ponte sólida entre o Poder Executivo e um Legislativo predominantemente moderado e conservador. Sua figura conferiu previsibilidade ao setor produtivo e suavizou as resistências ideológicas, permitindo a governabilidade por meio do diálogo respeitoso.
No cenário contemporâneo, o atual Vice-Presidente da República, Geraldo Alckmin, tem diante de si exatamente a mesma oportunidade histórica que José Alencar teve no passado. Representante da centro-direita tradicional e com forte interlocução no setor industrial e produtivo, Alckmin funciona como o fiador institucional da atual gestão. Sua trajetória confere-lhe a legitimidade necessária para desempenhar essa mesma missão de equilíbrio, transitando entre os diferentes espectros políticos e liderando o esforço de reabrir os canais de interlocução com o novo Congresso.
Essa necessidade de entendimento estende-se de forma crucial aos executivos estaduais. Os governadores, independentemente de suas matrizes ideológicas, compreendem de forma pragmática que o mais importante para a eficiência administrativa e para o desenvolvimento regional é a manutenção de um excelente relacionamento com as instituições e com o atual Governo Federal. O bem-estar da população nos estados depende dessa sinergia institucional, que supera as disputas eleitorais em nome do interesse público.
A governabilidade e o avanço das pautas sociais e econômicas do país dependem, fundamentalmente, de uma direita disposta a isolar o radicalismo e a soberba que marcaram os últimos anos. Lideranças partidárias que ascenderam politicamente na esteira do bolsonarismo enfrentam agora o desafio de demonstrar que sua atuação é voltada para o bem-estar da população, e não para a manutenção de disputas ideológicas permanentes. Esta nova conjuntura oferece uma oportunidade para a consolidação de uma oposição democrática, programática e comprometida com as regras institucionais.
O encerramento de um ciclo de hostilidades políticas é o primeiro passo para que os cidadãos deixem de ser instrumentalizados em disputas de poder. O ambiente democrático saudável pressupõe a coexistência de divergências legítimas, desde que pautadas pelo respeito à decisão soberana das urnas. Mais do que sugerir, criar ou exigir, o momento atual demanda a capacidade de convergir em torno das reformas que o Brasil necessita, estimulando a sociedade a acompanhar criticamente o trabalho de todos os seus representantes eleitos.
Por fim, a responsabilidade que recai sobre a nossa classe política e sobre cada cidadão não pode ser adiada para o amanhã. As decisões tomadas agora moldarão as próximas décadas da nossa república. Jamais podemos esquecer: o futuro é hoje.



