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Ricardo abre a caixa de ferramentas e vai com tudo para o ataque

Ricardo abre a caixa de ferramentas e vai com tudo para o ataque

Por Vitor Vogas / A GAZETA / Foto-legenda: Lorenzo Pazolini (Republicanos) e Ricardo Ferraço (MDB) retomaram a campanha de segundo turno com propaganda na TV / Crédito: Reprodução de TV / Arte: IA

Com novo rumo e novo ritmo, campanha do atual governador mudou substancialmente na reta final do segundo turno. Aqui, destacamos e explicamos as sete estratégias combinadas com o intuito de “descontruir” Pazolini

Desde o fim da semana passada, a campanha de Ricardo Ferraço (MDB) “abriu a caixa de ferramentas”. Está indo para o ataque com todas (ou quase todas) as armas, intensificando a estratégia de desconstrução da imagem projetada pela campanha de Pazolini, em várias frentes e de várias formas.

Decompondo, letra por letra, o nome próprio Ricardo (R-I-C-A-R-D-O), chegamos a um acrônimo que contém as sete principais estratégias da campanha do governador do Estado, executadas de maneira combinada nesta linha de chega:

Risco

Incoerência

Comparação

Artificialidade

Renato Casagrande

Dona Vivian

Ovo Maltine

Risco

A campanha de Ricardo passou a explorar com força um dos sentimentos mais primários do ser humano e um dos principais mobilizadores de qualquer tomada de decisão, não só na política: o medo.

Ricardo e sua propaganda têm enfatizado a palavra “risco”. Têm espalhado a mensagem de que eventual eleição de Pazolini representaria o risco de retrocesso e de paralisação de obras.

“Acho que não é certo, neste momento, a gente trocar o certo pelo duvidoso”, diz um cidadão num programa eleitoral do candidato do MDB. “O perigo é caos”, diz outro.

Pazolini tem afirmado que, se ele for eleito, nenhuma obra será interrompida, pois os recursos e os equipamentos pertencem ao povo.

No último programa eleitoral de Ricardo, exibido na noite desta quarta-feira (21), um bom pedaço foi dedicado à reforma da Previdência municipal feita por Pazolini como primeiro ato de governo na Prefeitura de Vitória, com uma alíquota de 14% descontada dos pagamentos dos servidores aposentados. O locutor conclui, em tom alarmista: “Com Pazolini, sua aposentadoria está em risco”.

Incoerência

A campanha do atual governador tem procurado apresentar incoerência entre o suposto “comportamento real” do adversário e a promessa de “paz” (primeiras letras do nome Pazolini) que é o lema da campanha do ex-prefeito. O nome da coligação, inclusive, é “Paz pra viver um novo tempo”.

Ricardo tem explorado o mote de que Pazolini seria “autoritário” e perseguiria quem discorda dele. Sua campanha tem veiculado fartamente trechos de uma conversa telefônica de Pazolini com o vereador Dalto Neves.

O diálogo ocorreu em março, tendo como pano de fundo a eleição do próximo presidente da Câmara de Vitória. À época, o áudio da conversa foi vazado. O então prefeito interpela o interlocutor, pré-candidato à presidência da Casa: “Nós vamos cair pra dentro e só vai ficar um vivo”. Em outro trecho, questiona: “Você quer guerra ou quer paz?”

O objetivo da campanha de Ricardo é expor possível incongruência entre o discurso do adversário e sua prática como homem público. Enquanto isso, o governador busca apresentar a si mesmo como um homem de diálogo, que “sabe conviver com as diferenças”.

Na principal cartada deste tópico, Ricardo apresentou nesta quarta-feira (21), no horário eleitoral e nas redes sociais, o depoimento de um cadeirante. Vestindo a camisa da Seleção Brasileira, ele relata que, após uma reunião na Prefeitura de Vitória, teria cobrado de Pazolini políticas para PCDs e teria ouvido dele uma resposta atravessada. “É completamente agressivo com quem cobra”, alega o cidadão, de nome José Olympio Barreto.

Comparação

Ricardo passou a aprofundar a estratégia de comparação não só de projetos, mas sobretudo de perfis, tachando o adversário como “imaturo”: “É o respeito contra a falta de respeito, a capacidade contra a imaturidade”, diz o governador, numa inserção.

Ele também tem investido fortemente na comparação de resultados. Num post, por exemplo, afirma que Pazolini não entregou nenhuma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) em seus mais de cinco anos como prefeito de Vitória, enquanto o governo dele entregou 108 novas Unidades Básicas de Saúde. A conta evidentemente abrange o governo Casagrande.

Artificialidade 

O A poderia ser de “agressividade” ou “autoritarismo”, predicativos que Ricardo também tem atribuído ao adversário, mas isso já foi citado acima. O ponto aqui, então, é uma suposta “artificialidade”: o governador tem dado declarações no sentido de que o ex-prefeito não seria mais que um personagem.

Ricardo passou a rotular o oponente como um “caçador de likes”, muito eficiente no uso das redes sociais, mas, segundo ele, sem trabalho e resultados para mostrar.

“Talvez eu não tenha a mesma simpatia do meu adversário, talvez eu não tenha a mesma performance nas redes sociais. […] Desejo continuar governando o estado do Espírito Santo, para muito além das redes sociais, para muito além de likes”, disse o atual incumbente, em sabatina a A Gazeta e CBN Vitória – feita com ele no último dia 13, no lugar do debate previsto e não realizado devido à ausência de Pazolini.

Em outra entrevista, Ricardo insinuou que seu adversário é um showman.

Renato Casagrande

Como é público e notório, o ex-governador e agora senador eleito é não só o maior apoiador de Ricardo como foi a fiador da candidatura do seu sucessor. Não faltavam interessados no posto de “candidato do governo”, como o prefeito de Vila Velha, Arnaldinho Borgo (PSDB), mas Casagrande bancou seu então vice-governador.

Até o começo do período oficial de campanha, o antecessor de Ricardo participou intensamente da campanha dele. Depois, não é que tenha sumido, mas precisou ir cuidar da própria campanha a senador.

Agora no segundo turno, já eleito, Casagrande voltou a concentrar total atenção e empenho na campanha de Ricardo. Além de ser presença constante ao lado dele em atividades de rua, voltou a aparecer com destaque na sua propaganda. “Tem coisas na vida que a gente só valoriza quando perde”, declarou Casagrande, no programa levado ao ar nesta quarta.

Coincidência ou não, é a mesma frase dita, em entrevista à coluna, por Renato Quaresma, marqueteiro potiguar que veio do Nordeste para “reforçar” a equipe de comunicação e propaganda de Ricardo no segundo turno.

Dona Vivian

A primeira-dama, Vivian Coser, passou a desempenhar um papel mais destacado no segundo turno. Logo na reestreia de Ricardo no horário eleitoral, ela ficou em cena mais tempo que o próprio candidato, dando um depoimento sobre o marido e seus atributos.

A esposa de Ricardo também tem aparecido frequentemente ao lado dele em comícios e até participado de agendas próprias, como uma plenária com mulheres apoiadoras, ao lado da vice-prefeita da Serra, Gracimeri Gaviorno (MDB), e da ex-vice-prefeita de Vitória Capitã Estéfane (Podemos).

Ovo

Por fim, a campanha de Ricardo passou a sublinhar a relação político-eleitoral entre Pazolini e o senador Magno Malta. Este é o presidente estadual do PL e fiador da aliança do partido da família Bolsonaro com o Republicanos desde o primeiro turno no Espírito Santo.

No último sábado, ambos estiveram lado a lado no trio elétrico de Flávio Bolsonaro (PL), no grande ato de campanha realizado pela orla de Camburi, em Vitória, diante de uma multidão de apoiadores.

Na propaganda de TV de Ricardo levada ao ar na terça-feira (20), apresenta-se o “Pazolovo” (trocadilho com a conhecida marca de chocolate em formato oval que sempre vem com uma “surpresinha” dentro). Na animação digital, de dentro do ovinho de chocolate, sai um bonequinho representando Magno, tratado como “mentor” de Pazolini.

O texto explora (olha ele aí de novo) o medo de ascensão indireta de Magno ao poder estadual – ao qual jamais teve acesso –, bem como a suposta incoerência com o discurso de “novo tempo” e “nova política”.

“Esse é o Pazolovo. Tem capixaba sendo enganado por ele. Quer ver a surpresinha que vem dentro? O Pazolovo é o único que vem com Magno Malta. Magno Malta é o mentor e maior aliado político de Pazolini. Pazolini se apresenta como ‘nova política’, mas a verdade é bem diferente disso. Ele esconde quem vem com ele. Não se engane: votou Pazolini, levou Magno Malta”.

A postura da campanha de Pazolini: acoplagem em Flávio

Enquanto a campanha de Ricardo parte com tudo para a ofensiva, a de Pazolini não tem revidado ataques – em atitude típica de quem está na frente e não se sente ameaçado na corrida.

Na realidade, a grande novidade da propaganda de Pazolini do primeiro para o segundo turno, já tratada aqui, foi a definitiva acoplagem na campanha de Flávio Bolsonaro para presidente, com a pregação do voto casado: o candidato do Republicanos para governador; o do PL para presidente.

A apoteose dessa estratégia se deu no último sábado, no “Bloquinho 22” de Flávio em Vitória, um desfile num trio elétrico por um trajeto de 1,3 quilômetro pela orla de Camburi, que atraiu milhares de apoiadores. Pazolini ficou o tempo todo no trio elétrico ao lado de Flávio e de outras celebridades do PL nacional, como Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato, além do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos).

Os discursos foram brevíssimos, serviram para energizar a massa de apoiadores, mas nada acrescentaram em termos de ideias e propostas. Nikolas falou palavras de ordem contra o PT (“Petista não se cria no Espírito Santo”). Pazolini cantarolou o refrão do seu jingle e logo passou a palavra a Flávio, que fez uma fala bem rápida e superficial. Em menos de 5 minutos, disse coisas como “mudança”, “a era do PT vai acabar” e “vocês vão viver no melhor Brasil que já viveram”.

Contudo, além da imensa mobilização popular, o ato serviu para consumar a aliança de Pazolini com o bolsonarismo e rendeu muitíssimas imagens valiosas para sua campanha a governador. Nesta quarta-feira (21), foram ao ar takes não só da multidão, mas dele mesmo ao lado de Flávio e Nikolas, por exemplo.

Não passou despercebido que a campanha não usou nenhuma imagem de Pazolini com Magno, embora o senador também estivesse próximo a ele no trio. Aliás, Magno não aparece em nenhum frame.

Críticas ao atual governo: comissionados e feminicídios 

Não são exatamente revides pessoais, mas a campanha de Pazolini também tem criticado o atual governador por, supostamente, gastar mal. Como já fez em entrevista à TV Gazeta, sua propaganda prometeu o corte de centenas de cargos comissionados para economizar dinheiro.

“O Espírito Santo tem dinheiro. Tem arrecadação forte. Mas quando a gente olha os gastos, alguns números chamam a atenção. O Estado tem cerca de 4.400 cargos de confiança, que custam quase R$ 300 milhões por ano. Gastar dinheiro público é uma coisa. Fazer esse dinheiro virar resultado na vida das pessoas é outra”, diz o locutor.

Outra crítica vem numa inserção, que destaca: o Espírito Santo tem a maior taxa de feminicídios da Região Sudeste. “Combater feminicídio é decisão de governo. E o governo atual decidiu não enfrentar.”

A campanha também segue apresentando o ex-prefeito como símbolo de renovação política, abraçado pela população capixaba. “Pazolini é safra nova na política, e o povo está com ele.”

Também se adotou a estratégia de responder às investidas adversárias com alguns compromissos básicos:

“Eles atacam, e o Pazolini responde com estrada, internet restaurante popular…”. “Ataque não cura ninguém. Hospital funcionando, sim”. “Ataque não leva desenvolvimento para lugar nenhum. Governo perto, sim”.

Adendo 1: Pazolini aparece na de Flávio

A propaganda de Flávio citou de passagem o ato em Vitória e, por um ou dois segundos, Pazolini apareceu num frame ao lado de Flávio no alto do trio elétrico.

Adendo 2: a de Ricardo teve um upgrade

No primeiro turno, critiquei aqui a propaganda eleitoral de Ricardo, particularmente na TV. Estava meio sem rumo e, principalmente, sem ritmo. Para fazer justiça: melhorou bastante no segundo turno, na forma e no conteúdo. Ficou mais dinâmica e mais assertiva.

Ricardo abre a caixa de ferramentas e vai com tudo para o ataque

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