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Segundo turno: por que a abstenção não garante uma virada?

Segundo turno: por que a abstenção não garante uma virada?

Por Vinícius Baptista / SIM NOTÍCIAS / Foto: Divulgação / Arte: IA

A expectativa de atrair quem não votou na primeira etapa esbarra em um dado histórico: em seis das sete eleições presidenciais anteriores com segundo turno, a abstenção aumentou.

 

Com as urnas fechadas no primeiro turno, um número ganhou destaque na apuração e passou a ser visto como uma espécie de boia salva-vidas para quem ficou atrás na disputa: o índice de abstenção. Mas a história nos ensina que dificilmente os eleitores que deixaram de votar no primeiro turno comparecem em maior número no segundo. Pelo contrário.

Neste ano, 21,08% dos brasileiros aptos a votar não foram às urnas no último dia 4 de outubro. É um percentual expressivo, que chama a atenção em uma disputa marcada pela polarização e pela busca de votos para o segundo turno.

Com uma diferença de apenas 1,87 ponto percentual — equivalente a 2.224.965 votos — entre os candidatos que avançaram para a segunda etapa, é natural que ambos tentem conquistar os eleitores que não compareceram à primeira votação. Esse tem sido um dos motes da campanha do presidente e candidato à reeleição, Lula (PT), que terminou atrás na disputa contra Flávio Bolsonaro (PL).

Mas apostar as fichas em uma virada com base apenas na expectativa de que os eleitores ausentes no primeiro turno irão às urnas no segundo é uma estratégia arriscada, principalmente quando analisamos o histórico das eleições anteriores.

Desde a redemocratização, o Brasil teve sete eleições presidenciais com segundo turno antes de 2026: 1989, 2002, 2006, 2010, 2014, 2018 e 2022. Em seis delas, o percentual de abstenção aumentou na segunda votação em relação à primeira.

Para relembrar alguns exemplos, a maior diferença entre os turnos ocorreu em 2010, quando a taxa de abstenção passou de 18,12% no primeiro turno para 21,50% no segundo, uma alta de 3,38 pontos percentuais. Naquele pleito, Dilma Rousseff (PT) venceu José Serra (PSDB) e se tornou a primeira mulher a ocupar a Presidência da República.

Em 2018, a diferença entre os turnos foi menor. Ainda assim, mais eleitores deixaram de votar na segunda etapa. Na disputa entre Jair Bolsonaro (PL) e Fernando Haddad (PT), a abstenção subiu de 20,33% para 21,30%, um aumento de 0,97 ponto percentual.

A exceção nessa série histórica foi a eleição de 2022, quando Lula venceu Jair Bolsonaro. Naquele ano, o comparecimento às urnas cresceu, e a abstenção caiu de 20,95% para 20,59%, uma redução de 0,36 ponto percentual. Foi a única das sete eleições presidenciais anteriores com segundo turno em que o índice de abstenção diminuiu na segunda votação.

E por aqui?

No Espírito Santo, a disputa deste ano será apenas a quarta eleição para o governo estadual decidida em segundo turno. Em 1990, Albuíno Azeredo (PDT) venceu José Ignácio Ferreira (PST). Quatro anos depois, Vitor Buaiz (PT) tornou-se o primeiro governador petista do Brasil ao derrotar Cabo Camata (PSD).

O Palácio Anchieta só voltou a ter uma disputa decidida em segundo turno quase três décadas depois, em 2022, quando Renato Casagrande (PSB) venceu Carlos Manato (PL).

Por aqui, os dados históricos sobre abstenção também merecem atenção, embora nem todos permitam uma comparação precisa entre os turnos.

Em 1990, por exemplo, os números disponíveis indicam que 1.233.549 eleitores compareceram à primeira votação, de um total de 1.423.211 aptos a votar. Isso representa uma abstenção calculada de aproximadamente 13,33%. Já os dados de comparecimento no segundo turno, realizado em 25 de novembro, ainda não foram confirmados, o que impede uma comparação segura entre as duas etapas.

Em 1994, por outro lado, os números disponíveis apontam um aumento da abstenção entre os turnos. Dos 1.710.729 eleitores aptos, 294.919 não compareceram à primeira votação, uma taxa de 17,24%. No segundo turno, o número de ausentes subiu para 396.266, equivalente a 23,16% do eleitorado. Uma alta de 5,92 pontos percentuais.

Já na eleição de 2022, que garantiu a Casagrande seu terceiro mandato, houve uma pequena redução na abstenção: o índice passou de 20,75% no primeiro turno para 20,48% no segundo, uma queda de 0,27 ponto percentual.

Agora, na eleição deste ano, a abstenção no primeiro turno no Espírito Santo bateu recorde na série histórica considerada. Ao todo, 21,39% dos eleitores capixabas não compareceram às urnas, percentual superior à média nacional. Foram mais de 638 mil eleitores aptos que não compareceram às seções eleitorais. Em termos práticos, é como dizer que aproximadamente um em cada cinco eleitores do Estado deixou de votar.

Os candidatos se apegam a esses números, na expectativa de mobilizar quem ficou de fora da primeira votação. Mas a história mostra que essa conta não é tão simples.

Há outros detalhes importantes nessa equação. Não existe garantia de que o eleitor que faltou ao primeiro turno comparecerá ao segundo. Da mesma forma, ninguém pode assegurar que todos os que votaram no dia 4 de outubro voltarão às urnas no dia 25. E há uma terceira incógnita: mesmo que os eleitores ausentes compareçam, não há como presumir que seus votos serão destinados ao candidato que precisa reverter a desvantagem.

No fim das contas, a abstenção é apenas uma das muitas variáveis de uma disputa eleitoral. Transformar os eleitores ausentes em votos presumidos é ignorar a história, as circunstâncias e a própria decisão de quem, de fato, tem o título de eleitor e digita os números na urna.

Segundo turno: por que a abstenção não garante uma virada?

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