Por Vinícius Baptista / SIM NOTÍCIAS / Foto: Divulgação / Arte: IA
Apresentadores e jornalistas conhecidos do público capixaba entram na disputa eleitoral apostando na força da imagem construída ao longo dos anos
No dia quatro de outubro, quando o eleitor digitar o número na urna eletrônica, além do nome, aparecerá também a foto do candidato. E alguns rostos ali são de pessoas bem conhecidas do público capixaba. Como acontece tradicionalmente nas eleições, jornalistas e apresentadores famosos, que fizeram história na televisão capixaba, pretendem usar agora sua popularidade para conseguir uma vaga na Assembleia Legislativa ou na Câmara Federal.
A Justiça Eleitoral sabe que essa exposição é privilegiada. Por isso, pela legislação, jornalistas, apresentadores ou comentaristas que estavam no ar precisaram deixar seus programas de rádio e televisão no dia 30 de junho. O Tribunal Superior Eleitoral explica que a vedação busca preservar a igualdade de oportunidades entre os candidatos e impedir o uso dos meios de comunicação para promoção pessoal no período pré-eleitoral.
Douglas Camargo (Agir), o “Camargão”, vai tentar uma vaga na Assembleia pela segunda vez. O jornalista está animado e garante que, mesmo sendo apresentador há muitos anos, nunca deixou de ser repórter.
“Essa é a minha segunda campanha e, cada vez mais, eu me surpreendo com o carinho e a confiança das pessoas. Elas recebem a minha candidatura com muita tranquilidade por causa dos anos de trabalho como jornalista. Eu sou o único apresentador que nunca deixou de ser repórter. Estou no estúdio, mas também estou sempre na rua, gravando reportagens, acompanhando de perto a situação dos bairros e das comunidades. É algo que eu sempre faço, independentemente da política”, contou Camargão, que ainda alfinetou os políticos atuais.
“Os políticos vêm para a rua só de quatro em quatro anos. Depois, se trancam nos gabinetes. Eu estou na rua todos os dias como repórter. A gente nunca pode perder esse senso de rua. E, como deputado estadual, eu quero fazer muito mais do que posso fazer na televisão. Na TV, a gente tem um limite: a gente cobra, o órgão oficial manda uma nota e a gente acompanha. Como legislador, eu poderei fazer muito mais. E serei um deputado de rua”, garantiu.
Quem também disputa sua segunda eleição é o jornalista Philipe Lemos. Seu partido, o Podemos, montou uma chapa bem forte para deputados federais, e o comunicador é uma das apostas da sigla para tentar emplacar até três parlamentares no Congresso. Na última eleição, Philipe teve um desempenho muito elogiado no mercado político, quando conquistou pouco mais de 45 mil votos, mas não conseguiu a vaga na Câmara. O comunicador aposta em sua história na imprensa para conseguir chegar a Brasília.
“O jornalismo me preparou para uma das principais tarefas de um parlamentar: ouvir a sociedade. Foram anos conhecendo de perto os problemas das pessoas, fazendo perguntas, buscando respostas, fiscalizando e dando voz a quem muitas vezes não era ouvido. Essa experiência vai comigo para a Câmara dos Deputados. Quero chegar preparado para ouvir, fiscalizar e trabalhar por soluções concretas para o Espírito Santo”, disse o comunicador, que sempre foi uma figura muito querida do público.
“A recepção tem sido muito positiva. Muitas pessoas me reconhecem pelo trabalho que fiz durante anos na televisão. Existe uma relação de confiança construída ao longo do tempo, e isso faz total diferença no contato direto com os eleitores”, destacou Philipe.
Mas o jornalista é bem realista ao analisar a possibilidade de transformar audiência em votos.
“Ser uma pessoa conhecida ajuda a abrir portas, mas não é suficiente. A política exige presença, diálogo e coerência. A visibilidade pode abrir a porta, mas é a capacidade de ouvir e de entregar resultados que constrói confiança”, ponderou.
Quem também vai tentar uma vaga na Câmara é a jornalista Sandra Freitas (também do Podemos). Depois de tantos anos “entrando” na casa das pessoas, ela destaca que a recepção nas ruas é a melhor parte da campanha.
“Às vezes, a pessoa nem está a fim de pegar o panfleto que a gente distribui, mas, quando ela pega e olha a foto, e olha para cima para conferir, tipo: ‘É você mesmo?’. E aí sempre sai uma conversa, lembranças de histórias, pessoas lembrando que eu estive no bairro delas fazendo uma reportagem. E isso é muito interessante”, destacou Sandra, que já passou por diversos veículos de comunicação ao longo de quase 30 anos de carreira.
Ela acredita que ser conhecida do público é um grande diferencial na disputa.
“Com certeza, porque a gente não é desconhecido. A pessoa já olha para você e automaticamente já sente uma confiança porque te acompanhou, você entrava na casa delas”, pontuou.
Para Sandra, que já teve um programa na TV voltado para as comunidades por 12 anos, essa experiência foi fundamental para que ela entendesse melhor a realidade das pessoas.
“Foram 12 anos ouvindo problemas e cobrando soluções. Isso me deu uma bagagem muito grande, afinal, a gente já conhece os principais problemas da população. A gente tem a habilidade de ouvir. Muitos políticos querem colocar propostas que vêm da sua própria cabeça, sem escutar as pessoas. Nós sabemos que, na comunicação, ouvir é uma parte importantíssima. Eu me sinto muito treinada para ouvir as pessoas, sentir o que elas sentem e já pensar na solução”, destacou.
Já estiveram do outro lado
Quem ficou 30 anos dando “boa noite” para os capixabas é o jornalista Ted Conti (PDT). Ted foi deputado federal entre 2019 e 2022 e agora tenta uma vaga na Assembleia Legislativa. O jornalista também já foi subsecretário de Estado de Assistência Social e assessor especial da Casa Civil.
Já Torino Marques (MDB) costumava dar “boa tarde” aos telespectadores na hora do almoço. O comunicador foi deputado estadual entre 2019 e 2022, tentou se eleger para uma vaga na Câmara Federal, mas não conseguiu. Agora, Torino tenta voltar para a Assembleia.
Reeleito e recordista
O único apresentador que tem mandato hoje no Espírito Santo é o deputado federal Amaro Neto (PP). E ele é uma prova da força da televisão. O popular apresentador conseguiu transformar seu carisma nas telas em votos na urna. Já na sua primeira eleição, em 2014, foi o deputado estadual mais votado do Espírito Santo, com 55.408 votos, superando vários políticos tradicionais.
“A minha primeira eleição, em 2014, para deputado estadual, aconteceu depois de dois anos afastado do Espírito Santo, período em que estive na Band de Minas Gerais. Me coloquei à disposição, sem muito recurso, fazendo trabalho de corpo a corpo, mas o reconhecimento que tive da televisão foi fundamental. As pessoas já conheciam minha maneira de mostrar os problemas e, muitas vezes, apontar soluções”, lembrou.
Quatro anos depois, Amaro deu um salto ainda maior. Ele chegou à Câmara como o deputado federal mais bem votado da história do Espírito Santo, com 181.813 votos.
“A televisão continua tendo uma força muito grande no Brasil. A internet cresceu, mudou a forma como as pessoas consomem informação, mas a TV ainda está presente na casa dos brasileiros e tem um alcance muito grande. A internet trouxe velocidade, interação e novas formas de comunicação, enquanto a televisão continua tendo alcance e credibilidade. E hoje eu vejo isso de um lugar muito interessante, porque vivi os dois lados: fui formado na televisão e também aprendi a me comunicar nesse novo ambiente digital”, pontuou o deputado.
Em 2022, Amaro foi reeleito, mas perdeu quase 70% do seu eleitorado. Ainda assim, acumulou capital político suficiente em seu primeiro mandato para conquistar o direito de permanecer na Câmara, com 52.375 votos.
Agora, ele tenta emplacar seu terceiro mandato consecutivo no Congresso Nacional.
“O Amaro apresentador aprendeu a ouvir as pessoas, a conhecer de perto os problemas e a falar de um jeito simples, direto, que todo mundo entende. O Amaro deputado levou essa experiência para a política: continuou ouvindo as pessoas, mas passou a ter a oportunidade de transformar essas demandas em trabalho e ações. Eu não deixei de ser o Amaro da televisão. Continuo sendo o mesmo cara, com a mesma alegria, a mesma espontaneidade e a mesma vontade de ajudar. A diferença é que hoje, além de poder ouvir e contar as histórias das pessoas, eu também posso trabalhar para mudar essas histórias”, destacou o comunicador/parlamentar.
Telespectador vira eleitor?
Não há dúvida de que esses profissionais são admirados pelo público. Suas longas trajetórias comprovam isso. Mas será que isso é suficiente para transformar admiração em voto?
Para o consultor e estrategista político Fernando Carreiro, a televisão “perdeu exclusividade, mas não perdeu relevância” nem a capacidade de alcance, principalmente para aquele eleitor que só começa a prestar atenção na campanha mais perto da eleição.
“Para esses candidatos, ser um rosto conhecido representa, sim, uma vantagem de largada. Numa eleição proporcional, com dezenas de nomes desconhecidos, eles precisam gastar menos tempo para dizer ao eleitor quem são. Mas essa vantagem costuma ser superestimada: a televisão produz familiaridade; não concede automaticamente autoridade política”, pontuou Carreiro.
“Fama não é sinônimo de popularidade política — e popularidade também não é sinônimo de voto. O eleitor pode ter recebido uma pessoa dentro de casa, pela televisão, durante anos e, ainda assim, não desejar colocá-la dentro do Parlamento. Boa parte do eleitorado é bastante cética na escolha de seus representantes. Conhecer, gostar e votar são decisões diferentes”, destacou o idealizador e principal responsável pelo Centro de Inteligência de Campanha (CiC) do Grupo Fernando Carreiro.
Já o consultor e especialista em marketing político Darlan Campos reforça que ser apenas conhecido não basta para ganhar uma eleição. Ele lembrou que, na última eleição, 15 participantes de um famoso reality show disputaram algum cargo pelo país e nenhum foi eleito. Em 20 anos desse mesmo programa, apenas dois ex-participantes conseguiram se eleger para algum cargo.
“Não basta ser conhecido. O candidato precisa ser reconhecido. E isso significa os meus atributos associados ao meu grau de conhecimento. Eu posso ser conhecido por causa de uma crise ou por algo negativo que aconteceu. Então, eu preciso ser reconhecido por atributos importantes para uma disputa eleitoral. Depois, eu tenho a perspectiva de ser cogitado e votado. Partindo só desses dois princípios, candidatos que já têm, devido à sua atuação profissional, seja porque são apresentadores, esportistas, digital influencers, por causa da sua presença na mídia, na imprensa ou na internet, já têm o primeiro passo que os auxilia nessa construção. Agora, ele precisa que outros atributos sejam associados a eles para que consigam ser votados. Mas é claro que ser conhecido já é um passo importante para a eleição”, analisou Darlan.
“Visibilidade não é influência; influência não é persuasão; e persuasão não é, necessariamente, voto. A televisão resolve o problema de ser visto; a campanha ainda precisa resolver o problema de ser escolhido”, completou Carreiro.
Afinal, a televisão pode colocar o candidato dentro da casa do eleitor. Mas conseguir o voto para entrar no Parlamento, é outra história.


