Por Henrique Sávio Rezende, Despachante Aduaneiro Federal e Bacharel em Direito / Foto: Divulgação / Arte: IA
O debate sobre a Reforma Tributária costuma parecer algo distante, restrito aos gabinetes de Brasília, mas a verdade é que a sobrevivência do Espírito Santo está sendo decidida aqui mesmo, em solo capixaba.
Os dados do anuário Finanças dos Municípios Capixabas 2026 mostram uma realidade impressionante: no biênio 2025/2026, o Governo do Estado repassou R$ 927,4 milhões aos municípios capixabas. Isso representa mais do que o dobro dos R$ 421,3 milhões transferidos pelo Governo Federal através de seus programas. Esses números revelam que as nossas prefeituras têm uma dependência umbilical do caixa do Estado.
Diante disso, a pergunta que todos nós devemos fazer é urgente: o que acontecerá com as nossas cidades quando as regras do jogo tributário mudarem drasticamente?
O Governo do Estado, por meio da Secretaria da Fazenda, junto com a Assembleia Legislativa e a Associação dos Municípios do Espírito Santo (Amunes), precisa com urgência estudar e desenhar como o governo estadual irá agir para proteger as finanças locais, pois o cordão umbilical que sustenta o interior está nas mãos do Palácio Anchieta, e não do Governo Federal.
O Espírito Santo tem um orgulho legítimo de sua força logística, e não é para menos. O grande hub formado por Vitória, Vila Velha, Serra, Cariacica e Viana, somado agora à expansão robusta de Aracruz com seu porto de águas profundas e gigantescos Centros de Distribuição, transformou a Região Metropolitana em um colosso que atrai a imensa maioria dos empregos diretos e indiretos do estado.
No entanto, a estratégia econômica atual corre o risco de colocar todos os ovos na mesma cesta.
Enquanto a Grande Vitória e Aracruz consolidam o chamado “PIB dos Portos”, como sobreviverão os demais municípios sem os incentivos fiscais e dependentes de um Estado que repassa o dobro do que a União disponibiliza?
Após 2032, os benefícios fiscais concedidos pelo governo estadual deixarão de existir por conta da reforma. Sem essa moeda de troca na mão dos governantes, o interior perde seu principal argumento para atrair indústrias e empresas.
O cenário mais preocupante, contudo, não é a mudança da lei em si, mas a inércia dos gestores municipais e o silêncio da população.
Muitos prefeitos e lideranças do interior parecem alheios ao impacto que está por vir no médio prazo.
A ilusão de receitas temporárias esconde o abismo que se abrirá após a transição da reforma, quando o imposto passará a ser arrecadado onde o produto é consumido e não mais onde ele é produzido.
Municípios essencialmente agrícolas, pequenas indústrias locais e cidades que vivem apenas do Fundo de Participação dos Municípios assistirão de braços cruzados à concentração da riqueza nos grandes centros consumidores ou nos mega-hubs logísticos que já estão consolidados.
Os atuais prefeitos e os novos candidatos precisam acordar enquanto há tempo, pois as escolhas erradas feitas agora vão asfixiar a divisão de receitas futuras e punir os serviços públicos básicos que chegam ao cidadão, como saúde e educação.
Como estamos em um ano eleitoral decisivo, as escolhas políticas feitas nas urnas em 2026 ditarão quem terá a competência técnica para redesenhar a matriz econômica das cidades do interior ou quem deixará sua população literalmente a ver navios.
Se o Palácio Anchieta transfere o dobro do que a União aos municípios, a responsabilidade de liderar essa transição e criar mecanismos de compensação regional é do Governador e dos Deputados Estaduais que elegermos.
Mas para que isso aconteça, o critério de voto do eleitor capixaba precisa mudar urgentemente.
Não basta apoiar candidatos por mera afinidade ou promessas fáceis. É preciso cobrar planos reais de diversificação econômica para o interior, exigir que prefeitos vizinhos se unam em consórcios para criar mini-hubs regionais de turismo, tecnologia ou agroindústria, e forçar os deputados e o governo a carimbar fundos de desenvolvimento para preparar a infraestrutura do interior antes do marco de 2032.
Para os prefeitos que ainda cruzam os braços esperando o tempo passar, a história deixa um aviso severo. Como bem lembrava Winston Churchill nos momentos de maior cegueira geopolítica da Europa, quem tenta apaziguar o perigo fingindo que ele não existe acaba alimentando o crocodilo, esperando ser o último a ser devorado.
A Reforma Tributária não vai esperar o mandato de ninguém terminar, e a inércia de hoje é a falência de amanhã.
O futuro não é o que vai acontecer, é o que estamos fazendo agora.
Os municípios capixabas não podem aceitar a condição de meros espectadores do sucesso da Grande Vitória.
É hora de o interior acordar e exigir seu papel na nova engenharia econômica do estado, sob o risco de inviabilizar o futuro de sua própria gente.
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