Por Vitor Vogas / SIM NOTÍCIAS / Foto: Divulgação
Nesta temporada de “renúncias” e “permanências”, outro prefeito da Grande Vitória, fora do radar de quase todos, também tem chances de renunciar até o próximo sábado (4). Decisão é difícil (drástica, até), mas Wanderson preenche quase todos os pré-requisitos de um “vice ideal” para Ricardo
A política é cheia de clichês, em sua grande maioria verdadeiros. “Política é como nuvem”. “Se acha esse Congresso ruim, espere o próximo”. “Vice é a última definição, costuma ser escolhido até na porta do cartório eleitoral”. No último caso, de fato, costuma ser assim. Este ano, quem for candidato a governador terá até o dia 15 de agosto para escolher o companheiro ou companheira de chapa. Mas, num caso muito específico, essa decisão, em teoria, pode precisar ser adiantada… para esta semana.
Nesta temporada de “renúncias” e “permanências”, outro prefeito da Grande Vitória, fora do radar de quase todos, também tem chances relativas de renunciar até o próximo sábado (4), último dia do prazo para o desligamento voluntário de prefeitos que quiserem concorrer a algum mandato eletivo. Estamos falando do prefeito de Viana, Wanderson Bueno (Podemos), que está em seu segundo mandato no Poder Executivo do município.
Ele pode fazer isso, especificamente, para ser candidato a vice-governador de Ricardo Ferraço (MDB), nas eleições de agosto a outubro.
Nas apurações da coluna, Wanderson surge no rol de principais cotados para ocupar o posto. Ele dá check em todas as casinhas de “companheiro de chapa ideal” para Ricardo: rosto jovem, prefeito da Grande Vitória, evangélico (da Assembleia de Deus), testado e aprovado como gestor público, fenômeno de votos em sua reeleição em 2024 e filiado ao Podemos, um dos mais importantes partidos da coligação governista e um dos primeiros a apoiar publicamente a pré-candidatura de Ricardo.
Segundo interlocutores de Wanderson, o prefeito gosta muito da ideia. A hipótese de ser vice na chapa de Ricardo faz brilharem seus olhos.
Governantes de grandes cidades não costumam nem sequer cogitar abandonar pela metade o segundo mandato de prefeito para se candidatarem ao cargo de vice-governador. O benefício político não é proporcional ao custo.
Em outras palavras, é melhor ser prefeito de uma cidade como, digamos, Vila Velha, do que jogar tudo para o alto par se arriscar numa incerta eleição ao cargo de… vice-governador. O atual prefeito de Vila Velha, Arnaldinho Borgo (PSDB), para ficarmos em um exemplo atual, jamais nem quis ouvir falar de semelhante hipótese.
O caso de Viana é um pouco diferente… A cidade tem cerca de 55 mil eleitores. Faz parte da Grande Vitória, mas não é tão pujante.
Além disso, cabe lembrar um fator também muito específico relativo a Ricardo Ferraço: se reeleito em outubro deste ano, ele não poderá emendar novo mandato de governador em 2030. Quem for seu vice-governador estará em posição privilegiada para disputar sua sucessão naquele ano.
Aliás, se quiser postular um outro cargo (voltar ao Senado, por exemplo), Ricardo poderá fazer o mesmo que Casagrande fez agora em seu favor: renunciar em abril de 2030, entregando o cargo para seu vice e apoiando-o para a própria sucessão. Por que não?
É tudo isso que o prefeito de Viana leva em conta neste momento.
Só tem um detalhe…
Mas o caso de Wanderson é sui generis porque, para que possa efetivamente se tornar vice de Ricardo, ele precisa renunciar agora ao cargo de prefeito de Viana.
Por evidente, trata-se de uma resolução drástica. A ideia está na mesa do prefeito há meses, desde o fim do ano passado, mas nunca foi externalizada para a população da cidade. Eventual renúncia assim, de supetão, nos últimos dias do prazo, pegaria o povo vianense de surpresa. Precisaria ser muito bem explicada para a população.
Mais importante de tudo: para tomar semelhante medida, Wanderson precisaria ter agora, com quatro meses de antecedência, totais garantias de que será mesmo o candidato a vice-governador de Ricardo. Garantias tanto do próprio quanto do presidente estadual do seu partido, Gilson Daniel.
Ele não poderia, de modo algum, correr o risco de abrir mão agora, sem retorno, do cargo de prefeito, para lá na hora das definições oficiais, de julho para agosto, ouvir um “veja, não é bem assim, a conjuntura mudou, precisamos acomodar outro aliado”…
Isso equivale a dizer: para ele sair, só mesmo se tiver plena certeza de que completará a chapa de Ricardo. Sendo assim, eventual renúncia de Wanderson, ainda nesta semana, significaria praticamente a definição antecipada do candidato a vice de Ricardo para o mandato 2027-2030.
A resposta oficial: não descarta
Para tirar tudo a limpo, demandamos oficialmente, na segunda-feira (30), a Prefeitura de Viana. Perguntamos se o prefeito confirma que está avaliando a possibilidade de renunciar. A resposta foi deveras intrigante.
Em nota oficial, Wanderson não disse nem que sim nem que não. Mantendo a hipótese em aberto, disse apenas que não quer se manifestar sobre o tema… “neste momento” (lembrando: o prazo acaba em poucos dias).
O prefeito Wanderson Bueno não irá se manifestar, neste momento, sobre especulações de natureza político-eleitoral.
Ele ressalta o respeito pela coluna e pelo trabalho jornalístico, reconhecendo a importância do debate público qualificado. Contudo, entende que não é oportuno tratar de cenários eleitorais neste momento.
Reeleito com ampla confiança da população, o prefeito segue integralmente dedicado à condução da gestão municipal, com foco na continuidade dos projetos, na entrega de resultados e no cumprimento dos compromissos assumidos com os cidadãos de Viana.
O reconhecimento do trabalho desenvolvido no município, inclusive em nível estadual, acaba naturalmente inserindo seu nome em diferentes discussões políticas, o que é recebido com responsabilidade, equilíbrio e senso público.
OS REQUISITOS CUMPRIDOS POR WANDERSON
A escolha de um companheiro ou companheira de chapa costuma levar em conta uma combinação de variáveis. Mas, via de regra, parte das seguintes perguntas, que marqueteiros, consultores, estrategistas políticos e dirigentes procuram responder:
Quais são os eventuais pontos fracos do titular da chapa? Onde e junto a quais segmentos ele não vai tão bem? Quais são as características importantes que ele não possui, os atributos de que carece e que poderiam ser supridos por um companheiro de chapa que os tenha?
No caso de Ricardo, o que nós podemos destacar? O “perfil de vice ideal” traçado para ele reúne pelo menos seis pré-requisitos. Wanderson, incrivelmente, quase “fecha o gabarito”:
Grande Vitória
Ricardo precisa “avançar” na Grande Vitória. Notoriamente, ele tem alta densidade eleitoral no interior, não só pelos anos de atuação como secretário estadual de Agricultura, vice-governador, senador etc., mas principalmente porque municípios menores são muito dependentes dos investimentos diretos do Governo do Estado.
Um vice da Grande Vitória o ajuda a se fortalecer na Região Metropolitana. De novo: Viana é uma cidade pequena. Mas faz parte da Grande Vitória.
Juventude
Segundo a lógica do “equilíbrio”, é fundamental para Ricardo ter um companheiro de chapa moço (e com cara de “bom moço”), como um “antídoto”, segundo uma fonte, visando minorar um ativo que um dos seus principais concorrentes carrega: Pazolini só tem 43 anos, enquanto Ricardo tem 62.
A idade de Wanderson Bueno? 38 anos. É ainda mais jovem que Pazolini e leva rigorosamente o mesmo tempo no cargo de prefeito. Sua presença “rejuvenesce” a chapa de Ricardo e o ajuda a reduzir a distância da ideia de “renovação política”.
Religião evangélica
Ricardo é católico. Com o crescimento da população evangélica e seu peso mais relevante a cada dois anos na definição dos pleitos eleitorais, é oportuno que seu vice seja de alguma denominação evangélica.
Wanderson é evangélico praticante. Frequenta a igreja Marcas do Evangelho, da Assembleia de Deus de Campo Grande, em Cariacica.
O prefeito de Viana inclusive tem o hábito de, uma vez por mês, antes do início do expediente, abrir o seu gabinete na prefeitura para a celebração de um culto evangélico (algo que, na visão do colunista, é inadequado, mas que também é praticado por outros prefeitos da Grande Vitória, como Pazolini em Vitória e Euclério Sampaio em Cariacica).
O líder espiritual de Wanderson é o Pastor Jairo. No culto em seu gabinete em dezembro, o pastor leu um trecho bíblico que tratava de alcançar coisas maiores.
Logo em seguida, Wanderson falou e, em tom confessional, disse os presentes que Deus lhe vinha revelando algumas coisas grandes e que ele vinha relutando em aceitá-las, mas que, se fosse com a permissão de Deus e para atender a um chamado de Deus, estava pronto.
A fala foi interpretada como possível candidatura a vice-governador.
Gestor público testado… e aprovado pelo povo
Antes de se tornar prefeito, Wanderson Bueno integrou o secretariado de Gilson Daniel, seu padrinho político, a quem sucedeu no cargo. Com o apoio de um bem avaliado Gilson, foi eleito tranquilamente em 2020.
Após o primeiro mandato em Viana, alcançou uma façanha: foi reeleito com mais de 90% dos votos válidos na cidade em 2024. Proporcionalmente, foi a maior votação do Espírito Santo. Assim, já provou que não é “só um rostinho jovem”. Tem resultados para mostrar.
Conversar melhor com o eleitorado feminino
Aqui, obviamente, o ideal na verdade seria ter uma vice mulher. Wanderson, contudo, por ser uma figura “leve”, pode ajudar Ricardo nesse sentido.
A lealdade, a boa relação e a questão partidária
Wanderson Bueno foi um dos primeiros prefeitos de peso a embarcar na pré-candidatura de Ricardo. O mesmo pode ser dito do seu partido, o Podemos. Já em abril do ano passado, ele e Gilson Daniel reuniram os prefeitos filiados ao partido no Espírito Santo, num almoço em um sítio em Viana, para declararem apoio a Ricardo.
Se Wanderson renunciar, Viana passará a ser governada pelo atual vice-prefeito, Fábio Dias, aliado e correligionário de Ricardo no MDB.
O futuro governador gosta muito de Wanderson e o tem prestigiado em eventos públicos. Em dezembro, durante a inauguração de um galpão logístico na cidade, disse que Wanderson fez uma “transformação” em Viana e que o prefeito ainda vai contribuir muito com ele…
Resta saber de que maneira.
ELIMINADOS
No “mundo ideal” para o Palácio Anchieta, o vice mais “compatível” para Ricardo seria Arnaldinho Borgo. Mas, como lembrado acima, ele nunca quis saber da ideia, já disse que ficará no cargo de prefeito de Vila Velha e, após as reviravoltas de fevereiro, a hipótese foi descartada.
O da Serra, Weverson Meireles (PDT), até atende a alguns pré-requisitos (jovem, evangélico, prefeito da Grande Vitória), mas está apenas no começo do primeiro mandato. Falta-lhe a rodagem necessária como gestor.
Levando em conta, então, tal combinação de critérios, quem senão Wanderson Bueno?
OUTROS COTADOS
Serginho Vidigal (Podemos)
O filho caçula de Sérgio Vidigal (PDT) tem as mesmas características de Wanderson (juventude, cara de “bom moço”, ser da Grande Vitória, ser evangélico), exceto uma: a de nunca ter sido candidato a nada nem ter a menor experiência como gestor público. Mas, se quiserem priorizar a ideia de “renovação”, o oftalmologista é uma opção a considerar.
Serginho, aliás, acaba de se filiar ao mesmo partido de Wanderson, o Podemos. A princípio, entrou para ser candidato a deputado federal.
Gilson Daniel (Podemos)
E se, em vez de Wanderson ou Serginho, a vaga de vice for para o Podemos, mas ficar com o próprio Gilson Daniel?
Apesar da longa experiência (dois mandatos de prefeito de Viana e um de deputado federal), o presidente estadual do Podemos ainda é jovem. Está na casa dos 40 anos.
Amaro Neto (PP)
Se a vaga de vice de Ricardo não ficar com o Podemos, todas as apostas recaem sobre a Federação União Progressista (UP).
Neste caso, um nome que passa a ser cotado é o do deputado federal Amaro Neto, filiado ao PP neste mês. Em termos eleitorais, o trunfo de Amaro para Ricardo seria o de abrir portas para ele na periferia da Grande Vitória.
Messias Donato (União Brasil)
Situação parecida com a de Amaro. Assim como este, era deputado federal pelo Republicanos, mas em março trocou o partido pela federação (entrou no União Brasil).
Pastor da Quadrangular, poderia ajudar o titular da chapa a dialogar melhor com igrejas evangélicas.
Marcelo Santos (União Brasil)
O nome do presidente da Assembleia Legislativa já apareceu em várias especulações, por sua proximidade política com Ricardo, além de ser o presidente estadual do União Brasil.
Ele mesmo, porém, nega categoricamente interesse em ser candidato a vice. Reafirma que é candidato a deputado federal.
Capitã Andresa (PP)
A jovem oficial dos Bombeiros está filiada ao PP. Foi candidata a vice-governadora ao lado de Audifax Barcelos em 2022.
A prioridade aí, no caso, seria conferir à chapa equilíbrio de gênero, atraindo o voto feminino, além de dar destaque a uma agente de segurança pública.

