Por Weverton Santiago, Teólogo e Cientista Político
Houve um tempo em que o Partido dos Trabalhadores (PT) ocupava praças com gincanas para arrecadar fundos e disputar eleições, um período romântico que mobilizava suas bases militantes. Tudo era rudimentar, um gesto que encantava os puristas da época. Do outro lado, porém, a situação aplaudia e alimentava essa prática “nobre”, pois sabia que aquele romantismo dificilmente levaria o partido ao poder. Era esteticamente bonito, mas incapaz de gerar resultados em uma sociedade que adora debater consequências, mas evita se envolver com as causas.
Anos depois, o PT metamorfoseou-se e percebeu que, sem recursos, estratégia e marketing, era impossível alcançar o topo. O partido do “discurso extremado” ganhou traços de moderação e tornou-se pragmático, trocando o idealismo pela sofisticação calculada e por uma narrativa habilmente disseminada pelos quatro cantos do país. Assim, o PT, que tantas vezes “batia na trave”, começou a marcar gols, vencendo cinco das últimas nove disputas presidenciais.
Avançando no tempo, chegamos a 2026 em um cenário político confuso e de difícil leitura. A disputa parece concentrar-se entre Lula e Flávio Bolsonaro, o terceiro embate consecutivo entre o lulismo e o bolsonarismo. A entrada de Flávio na corrida parece preencher o pré-requisito da confiança de seu pai (Jair Bolsonaro), que busca segurança política para “sobreviver” e continuar pautando a direita brasileira como o seu grande “mito”.
Ironia do destino ou erro de cálculo, a prisão de Bolsonaro nas condições que o submeteram, a situação despiu o ex-presidente da roupagem de vilão e o transformou em vítima do sistema perante boa parte do eleitorado. Em suma, o PT subestimou o recall político de seu principal adversário e começou a ver uma ameaça real que outrora estava no seu retrovisor.
Este ensaio mostra que o Partido dos Trabalhadores precisa reaprender a ler o Brasil e os brasileiros. A figura mística de Lula ainda surte efeito, mas não é garantia de triunfo. Assim, o PT do terceiro mandato de Lula parece que não soube ser situação, patinou na economia, mirou nos barões do mercado e atingiu quem frequenta o supermercado. Além disso, falhou no diálogo com a juventude empreendedora e não avançou na diplomacia política interna, apostando excessivamente na imposição do discurso presidencial.
Portanto, o PT encontra-se em uma encruzilhada histórica. O partido que no passado abandonou o amadorismo para conquistar o poder, hoje parece aprisionado em fórmulas que já não encontram mais eco em uma sociedade profundamente desencanta com a política. Sem uma autocrítica real que vá além da retórica e uma conexão efetiva com as novas demandas socioeconômicas, o partido corre o risco de se tornar refém do próprio passado, assistindo ao ressurgimento de seus adversários em uma arena que ele mesmo ajudou a polarizar.
É preciso sair das salas encasteladas, colocar os pés no chão para interpretar a angústia da sociedade e entender esse novo Brasil.