Coluna Vitor Vogas / SIM NOTÍCIAS / Foto:
O contexto, o pano de fundo, o discurso de Arnaldinho e as duas interpretações possíveis. Gestos, sinais e as mudanças no tom de “vermelho”, no evento em Terra Vermelha que voltou a reunir prefeito e governador após cinco semanas sem pisarem no mesmo palanque
Foi na Grande Terra Vermelha. Cinco semanas após o desfile no Sambão do Povo, marco da separação política de Arnaldinho Borgo (PSDB) com Renato Casagrande (PSB), prefeito e governador foram vistos pela primeira vez em público, lado a lado, em um mesmo evento oficial. Na manhã deste sábado (14), Arnaldinho compareceu à cerimônia de inauguração da estação de tratamento de esgoto da Regional 5 de Vila Velha, solenidade promovida pelo Governo do Estado.
O prefeito, segundo relatos, chegou ao local instantes antes do ato simbólico do “descerrar da placa de inauguração”, causando relativa surpresa entre os presentes. No palanque das autoridades, ao lado de Casagrande, estava o vice-governador Ricardo Ferraço (MDB). Os três se cumprimentaram de maneira protocolar e, diante dos muitos olhos curiosos, mantiveram postura bastante respeitosa entre si.
Nos respectivos discursos, Casagrande e Ricardo fizeram referências corteses a Arnaldinho. O prefeito, por sua vez, também saudou o governador e o vice de maneira cordial logo no início de sua fala.
Em seu discurso, o prefeito de Vila Velha afirmou que os homens públicos podem até ter divergências políticas eventualmente, mas que a política não pode se sobrepor aos interesses maiores do povo.
“Tá tranquilo”
“Estamos em casa. Muita alegria. E está tranquilo aqui. Algumas pessoas me questionaram: ‘Prefeito, você vai? Você não vai?’. Lógico que eu vou!”, começou Arnaldinho.
Eu quero dizer pra vocês que a divergência política pode existir a qualquer momento, e isso é normal da democracia, normal no movimento político que nós participamos. Mas nós não podemos nunca [deixar de] colocar os interesses coletivos, os interesses do povo, à frente dos nossos projetos pessoais.”
“É por isso que estou aqui no dia de hoje: para dizer que essa obra é muito importante para a cidade de Vila Velha, que é uma obra muito importante para a Região 5.”
A obra em questão é, de fato, importantíssima para a Grande Terra Vermelha.
A nova estação de tratamento de esgoto da Cesan é tripartite. Tem recursos do município, do Estado e da União. Mas foi bancada, principalmente, com investimentos do Governo Estadual.
Arnaldinho encerrou o discurso com uma manifestação pública (e nobre) de gratidão a Casagrande, dirigindo-se ao próprio governador:
A cidade de Vila Velha é assim: a gente conversa com todos, continuaremos conversando, porque não existe projeto pessoal passar na frente do interesse coletivo. E aqui no dia de hoje, governador, eu quero agradecer por tudo o que o senhor fez e investiu na cidade de Vila Velha.”
Contexto político-eleitoral
Também presente ao evento, o vice-governador Ricardo Ferraço está prestes a assumir o cargo de governador, no dia 2 de abril, no lugar de Casagrande, que vai renunciar para poder disputar a eleição para o Senado. Ricardo é o pré-candidato ao Governo do Estado que tem o apoio declarado do próprio Casagrande e das forças governistas.
Arnaldinho, por sua vez, era um grande aliado político de Casagrande, estratégico para o Palácio Anchieta, até princípios de fevereiro.
Entretanto, o prefeito também quer disputar a eleição para governador e se apresenta como pré-candidato ao cargo. Queria, inicialmente, ser o pré-candidato de Casagrande. Mas o governador optou por Ricardo, anunciando seu apoio em dezembro.
Sentindo-se preterido por Casagrande, Arnaldinho descolou-se do projeto político-eleitoral do atual governo e fez uma inflexão surpreendente no tabuleiro eleitoral capixaba: firmou uma aliança com Lorenzo Pazolini (Republicanos). Além de adversário político, o prefeito de Vitória também é pré-candidato a governador.
O marco da união de forças entre Pazolini e Arnaldinho foi a entrada dos dois, lado a lado, diante de Casagrande e Ricardo, no ato inaugural do desfile das escolas de samba da Grande Vitória, no Sambão do Povo, no dia 6 de fevereiro.
Desde então, os dois prefeitos têm protagonizado uma série de atividades casadas de pré-campanha eleitoral, visitando juntos municípios do interior do Estado. Já fizeram vários posts em collab, subiram juntos ao Convento da Penha, entre outros gestos públicos com forte simbolismo.
Pelo acordo costurado entre os dois prefeitos e seus articuladores políticos, a ideia é que ambos renunciem no começo de abril, de modo a se manterem aptos a disputarem o pleito de outubro. A priori, só um dos dois seria candidato a governador, enquanto o outro poderia disputar uma vaga no Senado.
Dizendo-o claramente, em termos eleitorais, Arnaldinho decidiu mudar de lado, passando a jogar num time adversário ao de Casagrande e Ricardo.
O próprio governador já disse aqui, em 23 de fevereiro: “Ele escolheu o caminho dele e o jeito de caminhar”.
Por sua vez, em 20 de fevereiro, Arnaldinho confirmou a esta coluna: “Sim, nós [Pazolini e eu] estaremos do mesmo lado”.
Em julho de 2025, também à nossa coluna, o mesmo Arnaldinho chegou a declarar, sobre ele mesmo, Casagrande e Ricardo: “Estaremos unidos”. Isso foi antes da decisão oficial de Casagrande em apoiar Ricardo, conforma anúncio feito em dezembro.
Por tudo isso, chamou tanto a atenção a primeira aparição pública de Arnaldinho ao lado de Casagrande e Ricardo, em um evento oficial como o deste sábado. Como interpretar o gesto?
As duas interpretações possíveis
Há duas linhas interpretativas.
A primeira leitura possível é a de que Arnaldinho estaria reabrindo a porta, ou uma fresta da porta, para voltar a manter um bom diálogo político com o governo Casagrande.
“A política é feita de gestos e sinais. Gestos e sinais. E este, para mim, foi um sinal muito forte do prefeito, dado ao mercado político, de que ele está aberto a um princípio de reaproximação. Foi um gesto de maturidade”, avalia um importante aliado governista, presente ao evento.
Não que esteja totalmente equivocado, mas pode ser uma leitura apressada.
A outra leitura possível é a de que, no que toca ao tabuleiro eleitoral, Arnaldinho não se moveu um milímetro. Continua aliançado com Pazolini, mas decidiu dar ao mercado político e à população em geral um sinal de “grandeza” e “maturidade institucional”.
Isso equivale a dizer que Arnaldinho, com sua presença relativamente inesperada, pode ter buscado passar a mensagem de “vamos separar as coisas”: segue afastado do projeto eleitoral do governo (como ele mesmo indicou, ao falar em “divergência política”), mas isso não o impedirá de buscar manter uma relação institucional saudável e republicana com o Palácio Anchieta nesta reta final do seu mandato à frente da Prefeitura de Vila Velha.
Assim, o prefeito demonstraria disposição em separar as coisas, expressando respeito e gratidão a quem muito o fortaleceu e a quem era seu parceiro político até pouco tempo atrás.
Até porque, convenhamos, em termos de injeção de recursos na cidade (convênios, investimentos, repasses voluntários), é inegável que o governo Casagrande foi importantíssimo para Arnaldinho obter êxito administrativo e, assim, crescer politicamente nos últimos cinco anos…
Até o rompimento, pelo menos.
Após o palanque
Encerrada a cerimônia no palanque, Casagrande foi com Ricardo e técnicos da Cesan visitar a obra da estação de esgoto. Arnaldinho não seguiu com eles. Foi conversar com populares.
Aliás, tanto Arnaldinho quanto Casagrande, em momentos diferentes, dialogaram com moradores de Terra Vermelha e ouviram deles pedidos relacionados à crise de insegurança que assola essa parte da cidade de Vila Velha, socialmente muito vulnerável.
Em seu discurso, inclusive, disse Arnaldinho: “Está em guerra esta região. Mas a Guarda Municipal está presente, a Polícia Militar está presente, os investimentos que mudam a vida das pessoas estão presentes”.
Maturano ao lado de Arnaldinho
Quem também compareceu ao evento – e não saiu de perto de Arnaldinho – foi o presidente da Câmara Municipal de Vila Velha, Osvaldo Maturano (PRD). Como noticiado aqui, ele viria se afastando politicamente do prefeito, a ponto de não ter sido visto em nenhum dos muitos eventos públicos protagonizados por Arnaldinho nas últimas duas semanas.
Maturano é pré-candidato à reeleição na presidência na Câmara, mas Arnaldinho, hoje, teria preferência pela pré-candidatura de outro aliado: o vereador Joel Rangel (Podemos), licenciado do mandato para conduzir a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano e Mobilidade.
Joel também estava presente no evento deste sábado. Arnaldinho saudou ambos, um após o outro, em seu pronunciamento.
De Colorado a Terra Vermelha: “vermelhou o sinal”…
“Sinais e gestos”… E o sinal é vermelho. De Jardim Colorado a Terra Vermelha, a cor é a mesma, mas foi grande a mudança de tom.
Na manhã do último dia 5, em evento da Prefeitura de Vila Velha no bairro Jardim Colorado, Arnaldinho mandou indiretas dirigidas ao Palácio Anchieta e fez uma cobrança pública relacionada a uma suposta redução dos investimentos do Estado na cidade. A fala foi testemunhada e confirmada por três fontes da coluna.
O “vermelho”, em Jardim Colorado, foi de irritação.
Mas neste sábado, em Terra Vermelha, a cor adquiriu outra conotação.
O vermelho é sempre vinculado a emoções intensas (a paixão, para um lado ou para o outro). Pode tanto ser associado à guerra como, também, ao amor.