Por Júlio Cezar Costa, coronel da PMES / Foto: Divulgação
O movimento social da ordem pública no Espírito Santo ganhou densidade histórica com a criação, em Guaçuí, do Método Interativo de Segurança Cidadã (MISC), em 1994, em parceria com a Prefeitura Municipal. Ali nascia um novo paradigma que se espalharia pelo país: a comunitarização da ordem pública.
Na noite de 26 de novembro de 2001, no auditório do Quartel do Comando Geral, em Vitória, realizou-se o 1º Encontro de Lideranças Comunitárias da Região da Grande Vitória. Reuniram-se 221 aguerridos líderes. Era o embrião do democrático Congresso das Comunidades, que, em fevereiro de 2002, congregou 1.167 lideranças de todo o Estado, no Teatro Central da UFES, marco simbólico de uma polícia que aprendia a ouvir.
À época, a Polícia Militar adotara um sistema de parametrização para organizar a expansão dos Conselhos Interativos de Segurança Pública — algo inédito no Brasil. Sob a direção dos então majores, hoje coronéis, Ênio Chaves dos Reis e Jailson Miranda, a Comissão de Certificação percorreu o Estado, institucionalizando a Polícia Interativa. O Espírito Santo tornou-se referência nacional, recepcionando, em parceria com a UFES e o Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN), centenas de profissionais e lideranças de outros estados para conhecer o modelo capixaba.
Vivíamos um tempo de controle consistente da criminalidade. Com a Polícia Interativa e o Programa de Planejamento de Ações de Segurança (Propas), experimentávamos a histórica inflexão negativa dos indicadores, especialmente de homicídios. A participação popular alcançava o topo, conforme o artigo 124 da Constituição Estadual, que assegura o caráter democrático na formulação e no controle das ações de segurança pública.
Foi nesse contexto que, durante o Encontro no Quartel do Comando Geral, uma voz rompeu o entusiasmo coletivo: “Nós da sociedade entendemos mesmo é de insegurança pública. Na teoria tudo funciona; quero ver vocês lá dentro da comunidade”. O desafio partiu de um líder do bairro Araçás, em Vila Velha. Propus ali mesmo agendar uma reunião. Ele, descrente, marcou: 30 de dezembro de 2001, às 17h, na avenida Buenos Aires.
Trinta e quatro dias depois, sob chuva intensa e ruas alagadas, lá estávamos, de terno e gravata, com a equipe do Propas, batendo à sua porta. “Quem é?”, perguntaram de dentro. Era a Polícia Militar, pronta para ouvir. Surpreso, Jorge Pries — que já nem lembrava da provocação — abriu a casa e o diálogo. A partir dali tornou-se entusiasta da Polícia Interativa até o seu último dia de vida.
Anos depois, em 2010, ao narrar essa história num seminário, um jovem soldado aproximou-se: “Coronel, Jorge Pries é meu pai”. Ali compreendi, mais uma vez, que credibilidade se constrói no cumprimento da palavra.
Neste ano de 2026, a Polícia Militar do Espírito Santo, pioneira em Polícia Interativa no país, completa 191 anos. Ao promover a interatividade como método permanente, reafirma sua vocação de proximidade com o povo e projeta longevidade à sua carreira institucional. Porque promessas, isoladamente, não sustentam a confiança. É a presença cotidiana, efetiva e comprometida, que faz o povo conspirar — não contra —, mas a favor de quem o protege.