Por Luciene Araujo / ES BRASIL / Foto-legenda: Administrações municipais, como a Prefeitura de Vitória, reorganizaram estrutura após eleições / Crédito: Divulgação
Em ano após eleições municipais, gestores enfrentaram desafio de reequilibrar orçamentos. Cidades recolheram R$ 20,83 bilhões aos seus cofres até setembro e podem superar arrecadação do ano anterior
O primeiro ano após as eleições municipais costuma ser um dos mais desafiadores para as administrações públicas, e em 2025 não foi diferente para os 78 municípios capixabas. Prefeitos reeleitos e novos gestores passaram pelo desafio de reorganizar equipes, revisar contratos, reequilibrar orçamentos e restabelecer fluxos administrativos.
Em muitas cidades, a herança de obras paradas, déficit em serviços básicos e pressões sociais crescentes exigiu capacidade de articulação política e eficiência administrativa logo nos primeiros meses.
Apesar desse conjunto de desafios, o cenário financeiro dos municípios apresentou resultados positivos. Em 2023, a arrecadação municipal somou R$ 22,67 bilhões; em 2024, avançou para R$ 25,73 bilhões; e, em 2025, o acumulado até setembro atingiu R$ 20,83 bilhões, segundo o Tribunal de Contas do Estado do Espírito Santo (TCE-ES).
Considerando a média de receitas dos nove primeiros meses e restando ainda os repasses e tributos referentes a outubro, novembro e dezembro, a estimativa é de que a arrecadação total deste ano se aproxime da marca dos R$ 28 bilhões.
Esse desempenho deveria oferecer fôlego adicional às prefeituras para enfrentar seus gargalos e sustentar a continuidade de políticas públicas essenciais. No entanto, é justamente a falta de recursos que aparece no topo da lista dos principais obstáculos enfrentados pela maioria dos municípios.
Necessidade de mais recursos
Em relação às dificuldades, de norte a sul do estado, elas partem do mesmo ponto central: honrar os compromissos e os pagamentos que são determinados, mas sem a disponibilidade total de recursos.
“O orçamento municipal, muitas vezes, não consegue acompanhar as determinações. Não é por má vontade do prefeito ou da prefeita, mas temos que cumprir obrigações de pagamento, custeio da máquina pública e continuar com os investimentos que são tão necessários e que colocam as cidades capixabas em crescimento e desenvolvimento”, aponta o presidente da Associação dos Municípios do Espírito Santo (Amunes), Mário Sérgio Lubiana (PSB), prefeito de Nova Venécia.
Segundo ele, um desafio recorrente é a oferta do serviço de saúde na Atenção Primária. Outra preocupação grande são os municípios que têm Regime Próprio de Previdência Social. No Espírito Santo, são 34, que possuem dificuldade para garantir a aposentadoria e os direitos previdenciários dos servidores públicos municipais.
“Para essas e outras dificuldades, a Amunes conta com o apoio da Confederação Nacional dos Municípios (CNM) e do Governo do Estado, parceiro dos gestores municipais”, afirma Lubiana.
Mais Transparência
No campo dos aspectos positivos, o presidente destaca que a maioria das prefeituras melhorou sua nota em transparência e governança pública no ranking da Transparência Capixaba em parceria com o ES em Ação, em 2025.
“Dos 78 municípios, 52 obtiveram avaliação ótimo ou bom”, diz. Ele atribui isso a uma maior abertura e acessibilidade aos dados públicos. “Muitas prefeituras implementaram leis de transparência, portais e plataformas para disponibilizar dados sobre finanças, licitações, contratos, obras,
orçamento e saúde, além de canais de denúncia e participação social”.
Segundo Lubiana, a maior parte dos municípios têm seguido recomendações de boas práticas, incentivando a gestão pública a manter processos claros, dados acessíveis e fortalecer a participação social.
Investimentos ampliados
Apesar dos desafios com o orçamento, os investimentos estruturais têm se tornado, ano a ano, mais robustos e contínuos.
“Em 2024, os municípios capixabas registraram um recorde histórico de investimentos: R$ 4,408 bilhões em obras, equipamentos e serviços. Isso representa um aumento de 23,5% em relação a 2023”, aponta o gestor. Ainda não há dados levantados de 2025, mas a expectativa é seguir a trajetória ascendente.
O setor de saúde é um dos que mais têm se beneficiado dessa expansão. Entre 2021 e 2024, por exemplo, o Espírito Santo registrou um aumento de 10,5% no número de leitos de internação, crescimento de 22,4% no total de atendimentos ambulatoriais e elevação de 22,9% no estoque de equipamentos médicos. Essa ampliação se reflete de forma positiva nos municípios, segundo o presidente da Amunes.
Para o consultor em Marketing Político e professor Darlan Campos, o desempenho das prefeituras na gestão dos orçamentos e dos investimentos nos próximos anos dependerá da capacidade de combinar eficiência administrativa, equilíbrio fiscal e sensibilidade social. “Ao mesmo tempo, estamos em um cenário econômico que exige cada vez mais inovação, transparência e governança”, aponta.
Grande Vitória
O ano de 2025 pode ser classificado como um período de arranque administrativo para os municípios da Grande Vitória, que viveram um momento de organização estratégica, modernização e enfrentamento de desafios estruturais. Apesar das particularidades de cada município, algumas tendências se destacaram em toda a Região Metropolitana.
Vila Velha, Serra, Cariacica e Vitória avançaram ao longo do ano com planos estratégicos robustos, estabelecendo metas de médio prazo e estruturando equipes para acompanhar sua execução.
A adoção de planejamento de ciclo completo, muitas vezes inspirado em modelos de gestão corporativa, tornou-se marca comum.
A Região Metropolitana enfrenta um passivo histórico em drenagem, pavimentação e mobilidade.
Este ano, esses temas voltaram ao centro da agenda municipal, com obras distribuídas em vários bairros, muitas em parceria com o governo estadual e também provenientes de emendas federais.
A preparação para mudanças no sistema tributário nacional, que começam a entrar em vigor em 2026, exigiu reorganização interna, revisão de contratos e capacitação técnica das equipes municipais, especialmente nas áreas de fazenda e contabilidade.
E os programas de incentivo a pequenos negócios, formalização de empreendedores e dinamização comercial ganharam força, principalmente em Vitória, Viana, Vila Velha e Serra, ao lado de digitalização de processos, ampliação de serviços online e uso de indicadores como estratégia de eficiência.
Mobilidade é desafio
Entre os desafios da Grande Vitória, a mobilidade tem destaque. Há soluções que precisam ser implementadas em conjunto.
Nesse contexto, surgiu o Corredor Metropolitano Sul, o Expresso GV, um projeto viário elaborado para servir como um espaço exclusivo para ônibus do Sistema Transcol na Avenida Carlos Lindenberg entre Cariacica e Vila Velha, que deve ficar pronto em dois anos, com orçamento de R$ 298,5 milhões.
“Essa obra inaugura uma nova fase da mobilidade na Grande Vitória. Ao priorizar o transporte coletivo, vamos reduzir em mais de 50% o tempo de deslocamento dos passageiros que trafegam entre os terminais de Vila Velha, Ibes, São Torquato e Jardim América.
É mais qualidade de vida, mais eficiência e mais respeito com quem depende do transporte público. E, junto com a revitalização da Carlos Lindenberg, outras melhorias estruturantes serão entregues, beneficiando toda a população”, destaca o prefeito de
Vila Velha, Arnaldinho Borgo (PSDB).
Os próximos anos do ciclo administrativo — 2026, 2027 e 2028 — tendem a ser marcados pela consolidação das obras iniciadas em 2025, pelo aprofundamento do planejamento estratégico e pela intensificação da busca por soluções regionais.
“Acabamos de lançar o Plano Vitória 2030, uma iniciativa estratégica que define os caminhos para uma cidade mais sustentável, inclusiva, inovadora e conectada.
Nos próximos cinco anos, serão investidos mais R$ 3 bilhões em todas as áreas da cidade, consolidando o Plano Vitória como o maior investimento já realizado por um município do estado, alcançando, desde 2021, R$ 5,5 bilhões, em sua maioria com recursos próprios”, aponta o prefeito de Vitória, Lorenzo Pazolini (Republicanos).
Câmaras municipais
As câmaras de vereadores do Espírito Santo também conduziram pautas importantes em 2025. Entre os destaques, em Vitória, por exemplo, os vereadores aprovaram o Projeto de Lei 435/2025, que disciplina medidas administrativas a serem adotadas pelo município em casos de ocupação irregular de imóveis públicos ou privados. A matéria foi sancionada pelo prefeito Pazolini.
O texto define ocupação irregular como a permanência em imóvel sem autorização do proprietário ou do Poder Público, quando houver decisão judicial ou administrativa que determine a desocupação. Entre as penalidades previstas estão multa de até R$ 50 mil, proibição de celebrar convênios com o município e suspensão do acesso a programas municipais de habitação social.
Já a Câmara de Vila Velha aprovou em dezembro, após muita discussão, a criação de cotas para pessoas negras, indígenas e quilombolas em concursos públicos e processos seletivos realizados pela administração municipal. O projeto reserva aos grupos 30% das vagas, abrangendo cargos efetivos, empregos públicos e contratações temporárias. O texto aguarda sanção do prefeito Arnaldinho.
Na Serra os vereadores aprovaram um PL (228/2024) que altera o Estatuto do Servidor Municipal. Em resumo, a proposta amplia a relação de motivos que podem levar à demissão de um funcionário da prefeitura.
A matéria tornou assédio sexual e “conduta escandalosa” motivo de demissão no âmbito do Executivo serrano. O projeto foi sancionado e entrou em vigor alterando a Lei Municipal nº 2.360/2001.
Em Cariacica, após 135 anos de história, a Câmara Municipal instituiu este ano o seu primeiro Código de Ética, acompanhado da criação de um Conselho de Ética para atuação parlamentar. Os vereadores definiram os princípios éticos e as regras básicas de decoro que devem orientar a conduta de todos durante o exercício da função.