Por Vitor Vogas / ES 360 / Foto: Renzo Vasconcelos é prefeito de Colatina (ES) / Crédito: reprodução Facebook
Sentindo-se desvalorizado pelo governo Casagrande, presidente estadual do PSD avisa: “Todos podem ter o meu apoio, desde que me tratem como uma figura política que tem uma força importante no Espírito Santo e que valorizem a sigla PSD”
O prefeito de Colatina, Renzo Vasconcelos, é o presidente estadual de um dos maiores partidos políticos do país: o Partido Social Democrático (PSD). Com muito tempo de propaganda e muitos recursos de campanha, a sigla é disputada por pré-candidatos a governador, mas seu palanque em 2026 é incerto. Em entrevista à coluna, o próprio Renzo afirma que a posição do PSD na disputa estadual está em aberto, mas, sentindo que não tem recebido o devido valor, avisa ao mercado político:
“Todos podem ter o meu apoio, desde que me tratem como uma figura política que tem uma força importante no Espírito Santo e que valorizem a sigla PSD.”
O prefeito diz manter excelente relação com o vice-governador Ricardo Ferraço (MDB) – pré-candidato a governador com o apoio de Renato Casagrande (PSB) – e também com o prefeito de Vitória, Lorenzo Pazolini, adversário do Palácio Anchieta e pré-candidato do Republicanos ao mesmo cargo.
Com um pé em cada canoa, o próprio Renzo tem se encontrado frequentemente ora com Pazolini, ora com Ricardo e Casagrande. Ele esclarece, porém, que o PSD não está nem na base de Casagrande no Estado nem na de Pazolini em Vitória.
Quanto a seu posicionamento pessoal, Renzo diz que sempre foi da base de Casagrande, desde que era deputado estadual. Mas, numa entrevista repleta de recados, não esconde certo descontamento com o governador e com o tratamento recebido do governo, dizendo-se “mal compreendido” e “mal reconhecido”. “Parece uma estrada de uma via só.”
Ele diz sentir falta de “gestos”, “sinais” e “reconhecimentos espontâneos” por parte do Palácio Anchieta. Resgata o fato de que o governo Casagrande e o próprio governador apoiaram o então prefeito Guerino Balestrassi (MDB), contra ele, na eleição em Colatina em 2024, e, para ilustrar o que considera “falta de reconhecimento”, não hesita em lembrar que seu adversário local é secretário de Estado (desde o início do ano, Guerino chefia a Secretaria Extraordinária de Recuperação do Rio Doce).
Sem rodeios nem firulas, Renzo afirma que um gesto importante do governo, para estreitar a relação com ele e o PSD, seria abrir espaço para o partido no secretariado – de preferência, antes da reforma inevitável esperada para abril, por conta do grande número de secretários que terão de se desligar dos respectivos cargos para disputar as eleições de outubro.
Acima de tudo, o prefeito de Colatina exprime um desconforto muito grande por se sentir involuntariamente envolvido na briga política entre Casagrande e Paulo Hartung (filiado ao PSD em maio). Em vários pontos da entrevista, desabafa:
“A minha impressão é que o Estado não me aceita como base e tem amnésia de tudo que eu fiz, por causa da figura e da presença de Paulo Hartung. E esta briga pessoal não é minha e nem do partido. Essa briga pessoal é pessoal.”
Por falar em Paulo Hartung, Renzo também avisa: se o ex-governador quiser ser candidato ao Palácio Anchieta, terá o apoio dele e legenda garantida, até porque o presidente nacional, Gilberto Kassab, lhe fez expressamente este pedido: “O único diálogo que o Kassab tem comigo é dar espaço para o Paulo disputar o que ele quiser”.
Portanto, nem Ricardo nem Pazolini… Renzo seguirá dialogando com ambos, mas, se Hartung quiser ser candidato, a preferência será toda dele, e o PSD irá para a disputa à frente do próprio palanque.
A seguir, a entrevista completa de Renzo. Boa leitura!
Quais os seus planos para o PSD nas eleições de 2026 no Espírito Santo?
Eu preciso fazer o PSD crescer no Estado. Nesta semana chancelei definitivamente a presidência com o Kassab. O partido fez excelentes aquisições, por exemplo, com o ex-governador Paulo Hartung, cuja biografia fala por si, embora a minha relação institucional com o Renato Casagrande seja conhecida e às vezes mal compreendida, mal reconhecida também.
“Mal compreendida” e “mal reconhecida” de que maneira?
Na minha última eleição, para prefeito, eu não tive o apoio. Desde 2010, eu sempre fui base, fui deputado da base, então, em algum momento eu erro no diálogo, porque parece uma estrada de uma via só. Isso não é uma crítica. O Renato é um dos melhores governadores que o Espírito Santo já teve, é um cara que é municipalista, olha o interior, não centraliza as coisas na capital. Eu não tenho nenhuma crítica para fazer a ele quanto à parte intelectual. Mas, de fato, se você olhar as eleições em Colatina, todas as forças políticas estiveram de um lado, em um palanque, e eu estive de outro lado. Acabei sendo vitorioso.
Então, quando o senhor fala que é “mal reconhecido”, quer dizer que falta reconhecimento por parte do próprio governador?
Gestos. Gestos são importantes, eu acho. Embora o meu diálogo com o Renato esteja muito bom, mas, de fato, alguns reconhecimentos eu acho que poderiam ser mais espontâneos. Sinais recíprocos são importantes, não basta só eu dar o sinal.
Hoje, o senhor se considera um aliado do governador?
Embora eu nunca tenha tido um diálogo de base, de fazer parte da base governista como partido, estou me referindo ao PSD, embora agora, como prefeito de Colatina, eu nunca tenha recebido recursos estaduais para continuar a construção de políticas públicas – tudo que tem em Colatina foi pactuado com a gestão anterior e eu sou agradecido porque as coisas ainda estão acontecendo, as novas não aconteceram –, mas eu me considero base. É o lado em que eu sempre andei, é o lado que eu sempre apoiei e é o lado que eu sempre pedi voto. O Casagrande, é aquilo que eu te falo… eu às vezes me sinto mal compreendido ou mal reconhecido, não sei qual é a melhor definição para isso, mas é o sentimento.
E quanto ao PSD? O senhor considera que o partido hoje faz parte da coalizão governista? Ou está independente?
Eu sinto às vezes que não, porque eu vejo alguns partidos sendo engrossados ou formados pela base do governo, enquanto o PSD tem sido esquecido. O deputado estadual Fabrício Gandini foi levado para outro partido e já deu até uma declaração sobre isso, está esperando a janela para fazer a troca [Gandini vai trocar o PSD pelo Podemos]. Esses são os sinais que eu te disse anteriormente, que passam a ter só um lado e não têm os dois lados. Eu sempre fiz questão de receber o governador e inclusive falar para o colatinense que é preciso reconhecer politicamente o que ele está fazendo com a cidade.
E da administração do prefeito Lorenzo Pazolini em Vitória, o PSD faz parte? E o senhor também se considera um aliado do prefeito?
Não faço parte. Lorenzo Pazolini é um amigo de Assembleia, foi uma das únicas pessoas que, quando eu estava sem mandato, fez questão de manter um diálogo comigo, porque eu fiquei no limbo e esquecido um bom tempo [entre 2023 e 2024]. E só me considero amigo dele. O PSD não faz parte do governo, diferentemente de outros partidos que o Estado tem como base e têm também secretaria no Governo do Estado. Então, sinceramente, Vitor, a minha impressão é que o Estado não me aceita como base e tem amnésia de tudo que eu fiz, por causa da figura e da presença de Paulo Hartung. E essa briga pessoal não é minha e nem do partido. Essa briga pessoal é pessoal. E a minha obrigação é de oxigenar, é de ver novos nomes, é de fazer a política crescer, é de combater o bom combate, é de fato poder renovar, mas renovar com consciência, renovar com quem a gente pode ter um diálogo.
Se de fato se confirmar o anúncio do governador de que Ricardo é o candidato dele à sucessão, o senhor vai dar seu apoio ao vice-governador?*
Ricardo foi um dos melhores senadores que o Espírito Santo teve. Ele tem capacidade técnica e intelectual para fazer qualquer gestão em qualquer município, em qualquer estado. Eu nunca tive problema com ele. Eu acho que todos podem ter o meu apoio, desde que me tratem como uma figura política que tem uma força importante no Estado do Espírito Santo e que valorizem a sigla PSD. Eu preciso fazer o PSD crescer, preciso de reconhecimento na base, preciso de reconhecimento político e por aí vai. As construções continuam, elas ainda têm tempo. Eu nunca fechei porta para ninguém. Essa briga e essa divisão não contribuem, no meu ponto de vista, e essa divisão no Brasil não pode continuar sendo polarizada no Espírito Santo, não necessariamente de esquerda e de direita, mas de Paulo e Renato. Volto a dizer: essa briga não é minha, não fui eu que comecei essa discussão.
Especialmente de dois meses para cá, nós temos observado o senhor “se alternando entre os dois lados”, se encontrando bastante com o prefeito de Vitória, ao mesmo tempo em que tem sido visto com o governador e, principalmente, com o Ricardo Ferraço, em Colatina ou no Palácio Anchieta, com uma frequência cada vez maior. Claro, há outras pré-candidaturas ao governo, mas Pazolini e Ricardo hoje, de certo modo, polarizam esse período da disputa pré-eleitoral. O senhor hoje está mais próximo de qual dos dois lados?
Eu estou mais próximo da administração de Colatina. Eu tenho uma relação excelente com o Ricardo, posso dizer as qualidades técnicas do Ricardo, mas também tenho uma relação com o Lorenzo. Por exemplo, eu estive ontem em Brasília com o Helder Salomão [pré-candidato do PT a governador], todo mundo sabe que eu sou de direita, eu sou um cara que entrei na política para ser honesto, eu não fico com ideologias nem com A, B e C. Todas as vezes que o Lorenzo quiser construir políticas, ele tem se oferecido para criar alguma coisa na área de segurança em Colatina, eu irei recebê-lo, como recebi Arnaldinho, que recebeu recursos para comprar novas armas do Estado para Vila Velha e doou as armas antigas para a nossa Guarda Municipal de Colatina. Então, equilíbrio, diálogo e responsabilidade, eu acho que são essas as palavras, eu vou continuar exercendo, porque esta é a função do homem público.
O senhor diria então que, a preço de hoje, 18 de dezembro de 2025, estão em aberto tanto o apoio do PSD como o apoio pessoal do senhor nas eleições para o Governo do Estado?
Com certeza. Eu volto a te dizer: se você for botar na balança, a minha construção sempre foi com o Renato, mas estão em aberto, porque eu preciso construir uma boa chapa e eu preciso também de reconhecimento. Continuo dialogando e construindo.
“Reconhecimento”: essa palavra se repetiu tanto e foi tão importante ao longo da nossa conversa. Em termos mais palpáveis, como o Governo do Estado poderia traduzir esse reconhecimento? São mais recursos para Colatina? Participação no Governo Estadual para o PSD, com espaços? Secretaria também?
Com certeza. Tem secretário lá que disputou a eleição contra mim e agrediu verbalmente a minha família, fazendo parte do Governo do Estado [ele se refere ao ex-prefeito de Colatina Guerino Balestrassi, secretário de Recuperação do Rio Doce]. Eu tenho secretário de governo que não me atende. Então de fato, se querem construir, e eu estou aqui para isso, a gente precisa avançar em alguns pontos.
Nessas conversas mais recentes que o senhor teve, inclusive reuniões pessoalmente com o governador e o vice no Palácio Anchieta, vocês trataram disso?
Todas as reuniões são muito boas e produtivas. Algumas coisas andaram, muitas não andaram, mas as promessas são de que andem.
O senhor pleiteia ou vai pleitear uma secretaria de Estado para o PSD no início do ano que vem ou até no governo Ricardo, quando ele assumir em abril?
Alguns secretários se desvincularão em abril para disputar a eleição. Depois que eles se desvincularem, acho normal a gente construir isso, mas o sinal maior é antes de eles se desvincularem. Isso mostra que, na verdade, você é benquisto. São esses sinais que eu falo, é dessa forma de valorização, de reconhecimento, como um apoiador, reconhecimento como um gestor, reconhecimento como uma liderança política que tem um importante partido, um dos maiores no Brasil, o maior em municípios governados.
E o senhor já indicou algum nome para compor o secretariado?
Eu nunca indiquei, porque nunca foi suscitado sequer alguma coisa sobre isso. Então, o que eu gostaria de frisar é que eu dialogo com todo mundo, com equilíbrio e responsabilidade. Acho que este é o ponto-chave: essa briga política não é minha, e eu não vou deixar de dialogar com quem quer que seja. Volto a te dizer: eu sou de direita, mas estava ontem com o Helder Salomão, que é PT, um cara de extrema capacidade. Entrei na política para, de fato, trabalhar para quem mais precisa, e vou perseguir isso até o final.
Ao longo da nossa conversa, o senhor mencionou algumas vezes o nome do ex-governador Paulo Hartung, filiado ao PSD desde maio. Quando ele entrou no partido, em entrevistas a mim e a colegas da imprensa capixaba, ele indicou, a princípio, não ter interesse em ser candidato a nada no Espírito Santo, mas ajudar o PSD nacional a construir um projeto para o país e um programa de governo. Mas eis que, em meados de outubro, o próprio Kassab, em entrevista ao site de A Gazeta, declarou que, no que depender dele, a prioridade do PSD no Espírito Santo é lançar Paulo Hartung candidato a governador. Aí, cá para nós, embola tudo (risos). Eu queria saber se essa ideia conta com o seu apoio, uma pré-candidatura de Paulo Hartung a governador.
O único diálogo que o Kassab tem comigo é dar espaço para o Paulo disputar o que ele quiser. E eu não sou dono de partido. Sou o presidente estadual. Então, o único diálogo que eu tenho com o Kassab é de fazer o PSD maior e dar espaço ao Paulo para o que ele quiser. Como presidente estadual, ter candidato a senador, a governador, a deputado federal, isso, para mim, é um sonho.
Então, se o Paulo Hartung quiser ser candidato a governador ou a senador, ele terá seu apoio e incentivo?
Terá. Partidariamente, terá. É assim que é a conduta de um presidente de partido a nível estadual.
Então, se esse for realmente o projeto do Paulo Hartung e o do Kassab para o Paulo Hartung, esse projeto terá prioridade. A hipótese de lançamento de candidato próprio se impõe sobre as outras opções… E aí a gente meio que apaga tudo o que a gente cogitou anteriormente sobre Ricardo e sobre Pazolini?
Eu acho que nunca se apaga. Política se faz juntando, com bastante equilíbrio. Tem muita coisa para acontecer. Tem bons players, boas pessoas, com moral e com capacidade. E essa é a nossa obrigação: manter o diálogo e o equilíbrio.
* A entrevista foi dada na última quinta-feira (18), horas antes de Casagrande anunciar oficialmente Ricardo como seu pré-candidato.