Por Vitor Vogas / ES 360 / Foto-legenda: Arnaldinho Borgo e Vandinho Leite / Crédito: Divulgação
A resposta para a pergunta do milhão (quem dirigirá o PSDB durante o processo eleitoral?) pode ter profundo impacto inclusive na estratégia traçada pelo governador para 2026, colocando em xeque o ideal de absoluta unidade do seu grupo
É fato: há uma disputa nos bastidores pelo comando do PSDB no Espírito Santo. De um lado, o atual presidente do Diretório Estadual, Vandinho Leite. Do outro, o prefeito de Vila Velha, Arnaldinho Borgo. Ambos são grandes aliados do governador Renato Casagrande (PSB). Em jogo, está não só o futuro do PSDB no Espírito Santo, mas o rumo que o partido poderá tomar no Estado nas eleições gerais do ano que vem. A resposta para a pergunta do milhão (quem dirigirá o PSDB durante o processo eleitoral?) pode ter profundo impacto inclusive nos planos e estratégias traçadas pelo governador Renato Casagrande (PSB) para 2026, colocando em xeque o ideal de absoluta unidade do seu grupo.
Nesta semana, Arnaldinho e Vandinho, nessa ordem, foram ao encontro do deputado federal Aécio Neves, que volta a ser o tucano-mor e o homem que dá as cartas na Executiva Nacional do PSDB. Ambos também apresentaram a Aécio suas cartas, isto é, seus trunfos e sua própria receita para conduzir o PSDB nas eleições estaduais, fortalecer a sigla e fazê-la voltar a crescer também no Espírito Santo. Arnaldinho o fez na terça-feira (25). Vandinho, na quarta-feira (26). Na quinta (27), como candidato único, Aécio foi eleito e aclamado como novo presidente nacional, em reunião do Diretório Nacional.
No próximo domingo (30), termina a vigência do Diretório Estadual do PSDB do Espírito Santo, presidido por Vandinho, assim como os de todos os estados e o do Distrito Federal. Ao todo, nas 27 unidades federativas, o PSDB tem hoje 16 diretórios definitivos (incluindo o do Espírito Santo), nove provisórios e dois sob a gestão de uma comissão interventora (Distrito Federal e Paraíba). Todos, sem exceção, terão o mandato concluído.
Não há convenção estadual convocada para eleição e composição de novo órgão diretivo estadual. A partir de segunda-feira (1º), será a nova direção nacional, conduzida por Aécio e empossada na mesma data, quem definirá o destino e o comando do PSDB nos estados.
Em cada caso, poderá ser nomeada uma comissão executiva provisória com a mesma formação, mantendo-se o atual presidente; ou poderá ser constituído um novo órgão diretivo com a designação de um novo presidente estadual.
Para cuidar do assunto, analisando caso a caso, Aécio formou um núcleo do qual também fazem parte outros três tucanos de alta plumagem: seu antecessor na presidência nacional, Marconi Perillo, o deputado federal Adolfo Bahia (BA), líder da bancada do PSDB na Câmara, e o atual secretário-geral, Paulo Abi-Ackel, futuro tesoureiro nacional.
No caso concreto do Espírito Santo, a primeira opção citada acima significa manter a direção estadual nas mãos de Vandinho. A segunda opção é transferi-la para o grupo liderado por Arnaldinho, instituindo uma comissão provisória sob a presidência do próprio prefeito de Vila Velha ou de algum aliado de extrema confiança dele.
Como o próprio prefeito confirmou à coluna, no encontro da última terça-feira, ele tratou objetivamente com Aécio da possibilidade de se filiar ao PSDB, com as bênçãos do ex-governador mineiro. Segundo Arnaldinho, “com toda a certeza”, o PSDB passa a ser uma opção para ele se filiar e buscar viabilizar seu projeto de se candidatar ao Governo do Estado.
O que Arnaldinho não confirmou – mas assim indica a nossa apuração – é que ele também tratou com Aécio da possibilidade de o PSDB no Espírito Santo passar para o comando do seu grupo político.
Como efeito político mais importante dessa eventual reviravolta, poderia ser revisto, ou até engavetado, o acordo já firmado e anunciado por Vandinho no sentido de apoiar a pré-candidatura de Ricardo Ferraço (MDB) para o Governo do Espírito Santo. De partido comprometido com o projeto eleitoral de Ricardo, o PSDB passaria a incubadora do projeto de candidatura de Arnaldinho – aliados, mas ao mesmo tempo concorrentes na corrida ao Palácio Anchieta.
Para o prefeito de Vila Velha, só vale a pena entrar no PSDB justamente se tiver condições de construir sua candidatura pelo partido. Ter o controle da legenda no Espírito Santo seria a garantia disso.
Prioridade: eleger deputados federais
Tendo se enfraquecido bastante desde 2018, o PSDB hoje só tem 15 deputados federais (num universo de 513). A prioridade absoluta da gestão de Aécio é eleger uma bancada bem maior na Câmara dos Deputados. A meta é fazer pelo menos 30 no ano que vem, Brasil afora. A conversa de Vandinho com Aécio passou muito por esse ponto prioritário.
O atual presidente estadual mostrou a Aécio a relação (sigilosa) de nomes de pré-candidatos que podem fazer parte da chapa em processo de montagem. O Governo do Estado e o governador Casagrande, pessoalmente, estão ajudando nisso. Secretários de Estado, como Felipe Rigoni (Meio Ambiente), podem ser “escalados” para compor a chapa do PSDB. O de Agricultura, Enio Bergoli, já é tucano.
O próprio Casagrande já declarou não ver problema nenhum em eventual filiação de Arnaldinho ao PSDB, partido integrante da sua base, “desde que esteja combinado com a direção local do PSDB” – vale dizer: desde que Vandinho não seja passado para trás.
Embora mantenha Arnaldinho na manga como um “Plano B” – alternativa à candidatura preferencial de Ricardo se por acaso esta não vingar –, Casagrande não gostaria de ver o PSDB mudando de mãos no Espírito Santo a esta altura do calendário pré-eleitoral, muito menos algum movimento brusco que possa desarrumar o “tabuleiro da unidade” do seu grupo tal como ele o tem organizado. A última coisa que deseja é sofrer, com o ano eleitoral batendo à porta, uma baixa importante no arco de alianças que está construindo para sustentar a candidatura de Ricardo.
Em outras palavras, o Palácio Anchieta quer que Arnaldinho se mantenha em stand-by num partido da base, para o caso de o Plano B precisar ser acionado em 2026. Por isso, até vê com bons olhos eventual ingresso do prefeito no PSDB, se ele chegar “na humildade” para somar, mas não se ele entrar chutando a porta, dando um “chega pra lá” em Vandinho (líder do governo na Assembleia) e “tomando” para si o partido, por cima.
Em relação ao Espírito Santo e a outros estados, a definição por parte da nova cúpula nacional deve sair na primeira quinzena de dezembro.
Na quinta-feira (27), Vandinho, o ex-prefeito de Vitória Luiz Paulo Vellozo Lucas e o ex-prefeito de Vila Velha Max Filho – adversário de Arnaldinho – votaram em Aécio Neves para presidente nacional, como candidato único, na eleição homologatória promovida pelo atual Diretório Nacional do PSDB, do qual os três são membros.
No novo Diretório Nacional, a ser presidido por Aécio e vigente a partir de segunda-feira (1º), Luiz Paulo será membro titular. Max Filho entrou como suplente. Vandinho não foi incluído.
A cesta levada a Aécio por Arnaldinho
Hoje o PSDB carece de potenciais candidatos a deputado federal no Espírito Santo. Seja quem for o próximo presidente estadual, será preciso montar a chapa praticamente da estaca zero, “contratando” jogadores para o elenco, isto é, filiando potenciais candidatos. No Estado, uma chapa completa de federais precisa ter 11 candidatos, sendo pelo menos quatro mulheres.
Assim como Vandinho, Arnaldinho levou a Aécio a sua cesta de possíveis candidatos, com um pré-desenho da chapa caso ele assuma a direção do PSDB no Espírito Santo.
Para a chapa de federais, o primeiro a se filiar ao PSDB seria Victor Linhalis, candidato à reeleição. Hoje no Podemos, o ex-vice-prefeito de Arnaldinho poderá mudar de partido sem risco de cassação na janela de março.
Totalmente integrado ao grupo de Arnaldinho, o ex-prefeito Neucimar Fraga a princípio é pré-candidato a deputado estadual, mas está à disposição do grupo e, se for preciso, também sobe para a chapa de federais.
Há conversas abertas com o ex-deputado estadual Sergio Majeski, outro que a priori é pré-candidato a estadual. Mas a turma de Arnaldinho quer convencê-lo a voltar para o PSDB para se candidatar de novo, como em 2022, a deputado federal.
Emissários de Arnaldinho também têm mantido contato com Carlos Manato. O ex-deputado federal já declarou que se filiará ao Republicanos. Mas ainda não assinou a ficha. O buraco aí é mais embaixo: eventual “contratação” de Manato, adversário de Casagrande, poderia representar um distanciamento temerário em relação ao grupo de Casagrande.
Para a chapa de estaduais, Arnaldinho poderia levar um punhado de vereadores sob sua influência em Vila Velha, o segundo maior colégio eleitoral do Espírito Santo.